Allan Kardec
Senhor,
Consagrastes aos Espíritos e aos
seus partidários o folhetim do Siècle de 27 de outubro último. A
despeito do ridículo que lançais sobre uma questão muito mais séria do que
pensais, apraz-me reconhecer que, atacando o princípio, guardais as
conveniências pela urbanidade da forma, visto não ser possível dizer com mais
polidez que não temos bom senso. Assim, não confundirei o vosso espirituoso
artigo com essas diatribes grosseiras que dão uma triste ideia do “bom-gosto”
de seus autores, aos quais fazem justiça todas as pessoas distintas, sejam ou
não nossas partidárias.
Como não tenho o hábito de
responder às críticas, teria deixado passar o vosso artigo, como tantos outros,
se dos Espíritos não tivesse o encargo, primeiramente, de vos agradecer por vos
terdes ocupado deles e, depois, para vos dar um conselho. Bem compreendeis,
senhor, que de mim mesmo não me permitiria fazê-lo; desincumbo-me de minha
tarefa, eis tudo. – “Como! – direis – então os Espíritos se ocupam de um
folhetim que escrevi sobre eles? Seria muita bondade de sua parte.” –
Certamente, pois estavam ao vosso lado quando escrevíeis. Um deles, que vos
quer bem, chegou mesmo a tentar impedir que utilizásseis certas reflexões, que
julgava não estar à altura de vossa sagacidade, temendo por vós a crítica, não
dos Espíritos, com os quais pouco vos preocupais, mas dos que conhecem o
alcance do vosso julgamento. Ficai certo de que eles estão por toda parte,
sabem tudo quanto se diz e se faz e, no momento em que lerdes estas linhas, estarão ao vosso lado,
observando-vos. Mas, direis: Não
posso crer na existência desses seres que povoam o espaço, mas que não vemos.
Credes no ar, que não vedes e
que, no entanto, vos envolve?
– Isto é muito diferente. Creio no ar porque, mesmo não
o vendo, sinto-o, ouço-o bramir na tempestade e ressoar no tubo da chaminé;
vejo os objetos que ele derruba.
Pois bem! Os Espíritos também se
fazem ouvir; também movem os corpos pesados, levantam-nos, transportam-nos,
quebram-nos.
– Ora, pois, Sr. Allan Kardec! Apelai para a vossa
razão. Como quereis que seres impalpáveis, supondo que eles existam, o que só
admitiria se os visse, tenham esse poder? Como podem seres imateriais agir
sobre a matéria? Isto não é racional.
Credes na existência dessas
miríades de animálculos que estão em vossa mão e que a ponta de uma agulha pode
cobrir milhares?
– Sim, porque se
não os vejo com os olhos o microscópio me faz vê-los.
Mas antes da invenção do
microscópio, se alguém vos tivesse dito que tendes sobre a pele milhares de
insetos que nela pululam; que uma gota de água límpida encerra toda uma
população; que os absorveis em massa com o ar mais puro que respirais, que
teríeis respondido? Teríeis gritado contra o absurdo e, se fôsseis
folhetinista, não teríeis deixado de escrever um belo artigo contra os
animálculos, o que não os impediria de existir.
Hoje o admitis porque o fato é
patente, mas antes teríeis declarado que era coisa impossível. Que há, pois, de
irracional na crença de que o espaço seja povoado de seres inteligentes que,
embora invisíveis, de modo algum são microscópicos? Quanto a mim, confesso que
a ideia de seres pequenos como uma parcela homeopática e, no entanto, providos
de órgãos visuais, reprodutores, circulatórios, respiratórios etc., me parece
ainda mais extraordinário.
– Concordo; mas, ainda uma vez, são materiais, representam alguma coisa, enquanto
os vossos Espíritos são o quê? Nada; apenas seres abstratos, imateriais.
Em primeiro lugar, quem vos
disse que são imateriais? A observação – pesai bem esta palavra observação, que
não quer dizer sistema – a observação, repito, demonstra que essas
inteligências ocultas têm um corpo, um envoltório, invisível é verdade, mas não
menos real. Ora, é por este intermediário semimaterial que eles agem sobre a
matéria. Serão apenas os corpos sólidos que têm uma força motriz? Não são, ao
contrário, os corpos rarefeitos, como o ar, o vapor, todos os gases e a
eletricidade que possuem esse poder no mais alto grau? Por que então o
negaríeis à substância que constitui o envoltório dos Espíritos?
– “De acordo. Mas se em certos casos essas substâncias
são invisíveis e impalpáveis, a condensação pode torná-las visíveis e mesmo
sólidas. Podemos pegá-las, guardá-las, analisá-las, de modo que a sua
existência é demonstrada de maneira irrecusável.”
Ora essa! Negais os Espíritos
porque não podeis metê-los num tubo de ensaio e saber se são compostos de
oxigênio, hidrogênio e azoto. Dizei-me se antes das descobertas da química
moderna conhecia-se a composição do ar, da água, e as propriedades dessa imensidão
de corpos invisíveis, cuja existência nem suspeitávamos. Que teriam dito,
então, a quem anunciasse todas as maravilhas que hoje admiramos? Tê-lo-iam
tratado de charlatão, de visionário. Suponhamos que vos caia nas mãos um livro
de um sábio daquele tempo, negando todas essas coisas e que, além disso,
tivesse procurado demonstrar a sua impossibilidade.
Diríeis: Eis aí um sábio muito
presunçoso, que se pronunciou muito levianamente, decidindo sobre o que não
sabia; para sua reputação teria sido melhor abster-se. Numa palavra, não
faríeis um juízo muito favorável de sua opinião. Pois bem! Em alguns anos veremos
o que se pensará daqueles que hoje tentam demonstrar que o Espiritismo é uma
quimera.
É sem dúvida lamentável para
certas pessoas, como para certos colecionadores, que os Espíritos não possam
ser postos dentro de um garrafão de vidro, a fim de serem observados à vontade;
não imagineis, entretanto, que eles escapem aos nossos sentidos de maneira
absoluta. Se a substância que compõe o seu envoltório é invisível em estado
normal, também pode, em certos casos, como o vapor, mas por outra causa,
experimentar uma espécie de condensação ou, para ser mais exato, uma
modificação molecular que a torna momentaneamente visível e mesmo tangível.
Então podemos vê-los, como nos
vemos, tocá-los, apalpá-los; eles podem pegar-nos e deixar impressão sobre os
nossos membros.
Apenas esse estado é temporário;
podem deixá-lo tão rapidamente quanto o tomaram, não em virtude de uma
rarefação mecânica, mas por efeito da vontade, considerando-se que são seres
inteligentes e não corpos inertes. Se a existência dos seres inteligentes que
povoam o espaço está provada; se, como acabamos de ver, exercem uma ação sobre
a matéria, que há de surpreendente em que possam comunicar-se conosco e
transmitir seus pensamentos por meios materiais?
– Tudo bem, caso a existência
desses seres seja provada. Mas aí é que está o problema.
Inicialmente, o importante é
provar essa possibilidade: a experiência fará o resto. Se para vós essa
existência não está provada, está para mim. Ouço daqui que dizeis intimamente:
Eis um argumento muito frágil. Admito que minha opinião pessoal tenha pouco
peso, mas não estou só. Antes de mim, muitos outros pensavam do mesmo modo,
porquanto não inventei nem descobri os Espíritos. Essa crença conta milhões de
aderentes, tanto ou mais inteligentes do que eu. Entre os que creem e os que
não creem, quem decidirá? O bom-senso, direis.
Seja. Mas acrescento: e o tempo,
que diariamente nos vem em auxílio. Mas com que direito os que não creem se
arrogam o privilégio do bom-senso, sobretudo quando justamente os que acreditam
são recrutados, não entre os ignorantes, mas entre pessoas esclarecidas, cujo
número cada dia cresce? Eu o julgo por minha correspondência, pelo número de
estrangeiros que me visitam, pela aceitação de meu jornal, que completa o seu
segundo ano e conta com assinantes nas cinco partes do mundo, nas mais elevadas
camadas da sociedade e até nos tronos. Dizei-me, em consciência, se isso é a
trajetória de uma ideia vazia, de uma utopia.
Constatando esse fato capital em
vosso artigo, dizeis que ele ameaça tomar as proporções de um flagelo e
aditais:
– Já não lidava a espécie humana, ó bom Deus! Com futilidades
suficientes para lhe perturbar a razão, antes mesmo que essa nova doutrina
viesse apoderar-se de nosso pobre cérebro?
Parece que não apreciais as
doutrinas; cada um tem o seu gosto. Nem todos gostam das mesmas coisas. Direi
apenas que não sei a que papel intelectual o homem seria reduzido, se, desde
que se acha na Terra, não tivessem surgido doutrinas que, fazendo-o refletir, o
tirassem do estado passivo do bruto. Sem dúvida, há boas e más, justas e
falsas, mas foi para discerni-las que Deus nos deu a razão. Esquecestes uma
coisa: a definição clara e categórica daquilo que classificais entre as
futilidades. Há pessoas que assim tacham todas as ideias de que não
compartilham. Mas tendes inteligência em demasia para acreditar que esta se
tenha concentrado apenas em vós. Há outras pessoas que atribuem esse nome a
qualquer opinião religiosa, considerando a crença em Deus, na alma e na sua
imortalidade, nas penas e recompensas futuras de utilidade limitada às mulheres
do povo ou às crianças que se deseja amedrontar. Não conheço vossa opinião a
respeito, contudo, pelos juízos que emitistes, algumas pessoas poderiam inferir
que aceitais um pouco essas ideias. Quer as partilheis ou não, tomo a liberdade
de dizer, como muitos outros, que nelas estaria o verdadeiro flagelo, caso se
propagassem.
Com o materialismo, que é a
crença de que morremos como animais, que depois de nós será o nada, o
bem não terá nenhuma razão de ser, os laços sociais nenhuma consistência: é a
sanção do egoísmo. A lei penal será o único freio a impedir o homem de viver à
custa de outrem. Se fosse assim, com que direito puniríamos o homem que mata o
semelhante para apoderar-se de seus bens?
Porque é um mal, diríeis vós.
Mas por que esse mal? Ele vos responderá: Depois de mim não há nada; tudo se
acaba; nada tenho a temer; quero viver aqui o melhor possível e, para isso,
tomarei dos que têm. Quem me proíbe? Vossa lei? Vossa lei terá razão se for mais
forte, isto é, se me pegar. Mas se eu for mais astucioso, se lhe escapar, a
razão estará comigo.
Qual a sociedade, pergunto, que
poderá subsistir com semelhantes princípios? Isto me lembra o seguinte fato: Um
senhor que, como se diz vulgarmente, não acreditava em Deus, nem no diabo, e
não o negava, notou que desde algum tempo vinha sendo roubado por seu criado.
Um dia surpreendeu-o em flagrante e lhe disse: “Como ousas, infeliz, tomar o
que te não pertence?” O doméstico pôs-se a rir e respondeu: “Por que deveria
crer, se também não credes? Por que tendes mais do que eu? Se eu fosse rico e
vós pobre, quem vos impediria de fazer o que faço? Dei azar desta vez – eis
tudo. De outra, cuidarei de agir melhor”.
Aquele senhor teria ficado mais
contente se o doméstico não tivesse tomado a crença em Deus como uma futilidade.
É a essa crença e às que dela decorrem que deve o homem a sua verdadeira
segurança social, muito mais que à severidade da lei, porque a lei não pode
tudo alcançar. Se a crença se arraigasse no coração de todos, nada teriam a
temer uns dos outros. Assestar as baterias contra ela é soltar a rédea a todas
as paixões, é aniquilar todos os escrúpulos. Foi isso que levou recentemente um
sacerdote, quando lhe pediram opinasse sobre o Espiritismo, a dizer estas
sensatas palavras:
O Espiritismo conduz à crença em alguma coisa. Ora, eu
prefiro aqueles que acreditam em alguma coisa aos que em nada creem, pois estes
não acreditam nem mesmo na necessidade do bem.
Com efeito, o Espiritismo é a
destruição do materialismo. É a prova patente, irrecusável, daquilo que certas pessoas
chamam futilidades, a saber: Deus, a alma, a vida futura, feliz ou infeliz.
Este flagelo, como o chamais, tem outras consequências práticas. Se soubésseis,
como eu, quantas vezes fez ele voltar a calma aos corações ulcerados pela
mágoa; que doce consolação tem espalhado sobre as misérias da vida; quanto ódio
tem acalmado, quantos suicídios tem impedido, não zombaríeis tanto. Suponde que
um de vossos amigos venha dizer-vos “Eu estava desesperado; ia estourar os
miolos; mas hoje, graças ao Espiritismo, sei quanto isto me custa e desisto
totalmente”. Se outro indivíduo vos disser: “Eu invejava o vosso mérito, a
vossa superioridade; vosso sucesso impedia-me de dormir; queria vingar-me, derrotar-vos,
arruinar-vos, até mesmo matar-vos. Confesso que correstes grandes perigos.
Hoje, porém, que sou espírita, compreendo tudo quanto esses sentimentos têm de desprezível
e os abjuro. E, em vez de vos fazer mal, venho prestar-vos um serviço”.
Provavelmente direis: Ótimo!
Ainda bem que existe algo de bom nessa loucura.
O que estou dizendo, senhor, não
visa convencer-vos nem vos induzir às minhas ideias. Tendes convicções que vos satisfazem
e que, para vós, resolvem todas as questões do futuro: é, pois, muito natural
que as conserveis. Mas me apresentais aos vossos leitores como o propagador de
um flagelo; eu tinha que lhes mostrar que seria desejável que todos os flagelos
não fizessem maior mal, a começar pelo materialismo, de modo que conto com a
vossa imparcialidade para lhes transmitir minha resposta.
Mas, direis, não sou
materialista. Pode-se muito bem não ser materialista e, mesmo assim, não
acreditar na manifestação dos Espíritos. De acordo: então sois espiritualista
e não espírita. Se me equivoquei quanto à vossa maneira de ver, é porque
tomei ao pé da letra a profissão de fé colocada no fim do vosso artigo. Dizeis:
– Creio em duas coisas: no amor dos homens por tudo quanto
é maravilhoso, ainda que esse maravilhoso seja absurdo, e no editor que me
vendeu o fragmento da sonata ditada pelo Espírito Mozart, ao preço de 2
francos.
Se toda vossa crença se resume
nisso, tudo bem: a mim parece a prima irmã do cepticismo.
Mas aposto que credes em algo
mais do que no Sr. Ledoyen, que vos vendeu por 2 francos um fragmento de
sonata: acreditais no produto de vossos artigos, pois presumo que, salvo
engano, não os ofereceis pelo amor de Deus, como o Sr. Ledoyen não oferece os seus
livros. Cada um tem o seu ofício: o Sr. Ledoyen vende livros, o literato vende
prosa e verso. Nosso pobre mundo não se encontra ainda bastante adiantado para
que possamos morar, comer e vestir-nos de graça. Talvez um dia os
proprietários, os alfaiates, os açougueiros e os padeiros estejam
suficientemente esclarecidos para compreenderem que é desprezível para eles
pedir dinheiro; então os livreiros e os literatos serão arrastados pelo
exemplo.
Com tudo isto não me destes o
conselho que me oferecem os Espíritos. Ei-lo:
É prudente não nos pronunciarmos
muito levianamente sobre aquilo que não conhecemos; imitemos a sábia reserva do
sábio Arago, a propósito do magnetismo animal: “Eu não poderia aprovar o
mistério com que se envolvem os cientistas sérios que hoje vão assistir às experiências
de sonambulismo. A dúvida é uma prova de modéstia e raramente prejudica
o progresso das ciências. Já não diríamos o mesmo da incredulidade. Aquele
que, fora das matemáticas puras, pronuncia a palavra IMPOSSÍVEL, falta
com a prudência. A reserva é um dever, sobretudo quando se trata da
organização animal.
(Notícia
sobre Bailly).
Aceitai etc.
Allan Kardec

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