Guerra da Criméia
Allan Kardec
L'Indépendance belge, que
não pode ser acusado de excessiva benevolência em relação às crenças espíritas,
referiu o seguinte fato, reproduzido por vários jornais, e que por nossa vez
transcrevemos com todas as reservas, pois não tivemos oportunidade de constatar
a sua realidade.
Seja porque a nossa imaginação inventa e povoa um mundo de
almas ao lado e acima de nós; seja porque o mundo no qual estamos, vivemos e
agimos existe realmente, é fora de dúvida, pelo menos para mim, que se produzem
acidentes inexplicáveis, que provocam a Ciência e desafiam a razão.
Na guerra da Criméia, durante uma dessas noites tristes e
longas que se prestam maravilhosamente à melancolia, ao pesadelo e a todas as
nostalgias do Céu e da Terra, um jovem oficial levanta-se de repente e sai de
sua tenda, a fim de procurar um de seus camaradas para dizer-lhe:
- Acabo de receber a visita de minha prima, a Srta. de
T...
- Sonhaste.
- Não.
- Ela entrou, pálida, sorridente, apenas roçando o chão
muito duro e grosseiro para os seus pés delicados. Olhou-me, após me haver
despertado subitamente com a sua voz doce, e me disse:
- Demoras muito! Toma cuidado! Algumas vezes a gente
morre na guerra sem ir à guerra.
- Quis falar-lhe, levantar-me, correr até ela. Mas ela
recuou e, pondo o dedo sobre os lábios, disse:
- Silêncio! Tem coragem e paciência, nós nos tornaremos
a ver.
- Ah! Meu amigo, ela estava muito pálida; tenho certeza de
que está doente, de que ela me chama.
- Sonhas acordado; estás doido, redarguiu o amigo.
- É possível. Mas, então, o que vem a ser esta agitação em
meu coração, que a evoca e me faz vê-la?
Os dois rapazes conversaram e, ao amanhecer, o amigo
acompanhou o oficial visionário à sua tenda, quando este estremeceu de repente
e disse:
- Ei-la, meu amigo; ei-la , diante da minha tenda...
Faz-me sinais, dizendo que não tenho fé nem confiança.
Naturalmente o amigo nada via. Fez, porém, o melhor que
podia para tranquilizar o camarada. Nasceu o dia e, com ele, as ocupações muito
sérias para deixarem de lado os fantasmas da noite. Mas, por uma precaução
perfeitamente compreensível, no dia seguinte uma carta partiu para a França,
pedindo notícias urgentes da Srta. T... Alguns dias depois responderam que a Srta....
estava gravemente doente e que se o jovem oficial pudesse obter uma licença,
talvez a sua visita lhe causasse um efeito salutar.
Pedir licença no momento das lutas mais rudes,
provavelmente na véspera de um assalto decisivo, alegando temores sentimentais,
era coisa que não se podia pensar. Todavia, creio lembrar que a licença foi
pedida e obtida e que o oficial já ia partir para a França, quando teve mais
uma visão. Esta era pavorosa.
Pálida e muda, a Srta. T... deslizou uma noite no interior
de sua tenda e lhe mostrou o longo vestido branco que arrastava. O jovem
oficial não duvidou um só instante que sua noiva estivesse morta. Estendeu a
mão, pegou uma de suas pistolas, e arrebentou os miolos.
Com efeito, naquela mesma noite, à mesma hora, a Srta.
T... havia exalado o último suspiro.
Resultaria essa visão do magnetismo? Não sei. Seria
loucura? Espero que sim. Mas era qualquer coisa que escapava às zombarias dos
ignorantes e às zombarias ainda mais inconvenientes dos homens de saber.
Quanto à autenticidade deste fato, posso garanti-la. Interrogai
os oficiais que passaram este longo inverno na Criméia, e não serão poucos os
que vos contarão fenômenos de pressentimento, de visão, de miragem da pátria e
de parentes, análogas a este que acabo de contar.
O que se deve concluir de tudo isso? Nada. A menos que
terminasse minha correspondência de maneira muito lúgubre, e que talvez
soubesse fazer dormir sem saber magnetizar.
Thécel
Como dissemos no início, não
podemos constatar a autenticidade do fato. Mas o que podemos garantir é a sua
possibilidade. Os exemplos verificados, antigos e recentes, de advertências de
além-túmulo são tão numerosos que este nada tem de mais extraordinário que
outros, testemunhados por tantas pessoas dignas de fé. Podiam parecer
sobrenaturais em outros tempos; mas hoje, que sua causa é conhecida e estão
psicologicamente explicados, graças à teoria espírita, nada têm que os afaste
das leis da Natureza. Acrescentaremos apenas uma observação: se aquele oficial
tivesse conhecido o Espiritismo, saberia que o meio de reunir-se à sua noiva
não seria cometendo o suicídio, pois a ação poderá afastá-los por um tempo
muito mais longo que aquele que ele teria vivido na Terra. Além disso, o
Espiritismo lhe teria dito que a morte gloriosa, no campo de batalha,
ter-lhe-ia sido mais proveitosa do que a que se permitiu voluntariamente,
através de um ato de fraqueza.
Eis um outro fato de advertência
de além-túmulo, referido pela Gazette d'Arad (Hungria), do mês de
novembro de 1858:
Dois irmãos israelitas de Gyek, Hungria, tinham ido a
Grosswardein, levar suas duas filhas de 14 anos a um pensionato. Durante a
noite que se seguiu à partida, outra filha de um deles, de 10 anos de idade e
que ficara em casa, levantou-se em sobressalto e, chorando, contou à mãe que
vira em sonho o pai e o tio cercados por vários camponeses que lhes queriam
fazer mal.
A princípio a mãe não deu nenhuma importância a estas
palavras; mas, vendo que não conseguia acalmar a criança, levou-a à casa do
prefeito local, onde a menina contou novamente o sonho, acrescentando que
reconhecera entre os camponeses dois de seus vizinhos, e que o fato se passara
na orla de uma floresta.
Imediatamente o prefeito mandou dar uma busca no domicílio
dos dois camponeses, que de fato estavam ausentes. Depois, para se assegurar da
verdade, expediu outros emissários na direção indicada, os quais encontraram
cinco cadáveres nos confins de um bosque. Eram os dois pais com as filhas e o
cocheiro que os tinha conduzido. Os cadáveres haviam sido atirados sobre um
braseiro para se tornarem irreconhecíveis. Logo a polícia começou a fazer as
diligências. Prendeu os dois camponeses designados, no momento em que
procuravam trocar várias cédulas manchadas de sangue. Uma vez na prisão
confessaram o crime, dizendo que reconheciam o dedo de Deus na pronta
descoberta do delito.

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