quinta-feira, 24 de setembro de 2015

ESPÍRITOS NA ERRATICIDADE[1]



Orson Peter Carrara

Perguntamos: o que fazem os espíritos?

A palavra erraticidade, na linguagem espírita, significa o estado de espíritos ainda com necessidade de reencarnação ou retorno à Terra. O Codificador abordou a questão com muita propriedade na Revista Espírita. Está na edição de abril de 1859 (ano II, vol. 4, edição da Editora Edicel, tradução de Júlio Abreu Filho) em Editorial com o título Quadro da Vida Espírita, respondendo possíveis questionamentos sobre atividades no mundo espiritual, que transcrevemos parcialmente: (...) São eles mesmos que no-lo respondem, como foram os próprios a dar as explicações que acabamos de transmitir, de vez que nada disto é fruto de nossa imaginação; não se trata de um sistema saído de nosso cérebro: julgamos pelo que vimos e ouvimos. (...) Seria erro pensar que a vida espírita seja uma vida ociosa. Ao contrário, ela é essencialmente ativa e todos nos falam de suas ocupações. (...) Entre os que já atingiram certo grau de desenvolvimento, uns velam pela realização dos desígnios de Deus nos grandes destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos e concorrem ao progresso de cada mundo. Outros tomam os indivíduos sob sua proteção, constituindo-se seus gênios tutelares e anjos de guarda (...).
Alguns encarnam-se em mundos inferiores, para neles realizarem missões de progresso; (...). Se se considerar o número infinito de mundos que povoam o universo e o número incalculável de seres que os habitam, compreender-se-á que os Espíritos têm muito com que se ocupar. (...) ninguém pensa numa ociosidade eterna, que seria um verdadeiro suplício. (...) Descendo na hierarquia, encontramos Espíritos menos elevados, menos depurados e, conseguintemente, menos esclarecidos; nem por isso são menos bons e, numa esfera de atividade mais restrita, desempenham funções análogas. (...)
Vem a seguir a multidão de Espíritos vulgares, mais ou menos bons, mais ou menos maus, que pululam em torno de nós. Estes se elevam pouco a pouco acima da humanidade, cujas nuanças representam, e, como que refletem, pois que têm todos os vícios e virtudes dessa humanidade. Em muitos deles encontramos os gostos, ideias e inclinações que possuíam em vida. (...)
Pode, pois, dizer-se que todos aspiram o aperfeiçoamento, porque todos compreendem que é este o único meio de sair da inferioridade. Instruir-se, esclarecer-se – eis a sua grande preocupação e eles se sentem felizes quando podem a isto acrescentar pequenas missões de confiança, que os elevam aos seus próprios olhos. (...) Também eles têm as suas assembleias (...).
Falam-nos, veem e observam aquilo que se passa; participam de nossas reuniões (...), escutam as nossas conversas (...). Vem a seguir a escória do mundo espírita, constituída de todos os Espíritos impuros, cuja preocupação única é o mal. Sofrem e desejariam que todos sofressem como eles. (...) investem contra os homens, atacando aos que lhes parecem mais fracos. Excitar as paixões ruins, insuflar a discórdia, separar os amigos, provocar rixas, pavonear o orgulho dos ambiciosos (...), espalhar o erro e a mentira, numa palavra, desviar do bem, tais são os seus pensamentos dominantes (...)”.
Tudo muito natural na sequência da vida humana. A morte apenas liberta a alma do corpo. Cabe ao espírito promover o próprio progresso. Não há saltos. O esforço deverá partir de si mesmo.
Sugerimos ao leitor consultar as questões 149 a 165 e 223 a 329 de O Livro dos Espíritos para conhecer mais sobre os espíritos e a vida espiritual. A verdade, porém, é que nunca há interrupção na atividade dos espíritos. Estejam encarnados ou desencarnados, sempre haverá o que fazer, o que aprender... Isto é da Lei Divina, que estabeleceu o trabalho como ferramenta do aperfeiçoamento a que estamos todos destinados.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Paciente que fará primeiro transplante de cabeça se diz confiante[1]




Escolhido como o primeiro paciente que irá passar por um transplante de cabeça, Valery Spiridonov disse não ter pressa para a operação. O procedimento foi confirmado pelo neurocirurgião Sergio Canavero, do Grupo Avançado de Neuromodulação de Turim.
"Lido com este tema com bastante tranquilidade, à espera que a data seja confirmada. Não me importa onde ou quando, não tenho pressa. O que me importa é a confiabilidade do procedimento" explicou à agência EFE o russo de 30 anos que se candidatou ao procedimento.
O método consiste na junção da espinha dorsal da cabeça separada com a espinha dorsal do corpo receptor por meio de uma substância química. Depois desse processo, cirurgiões têm de unir e suturar todos os músculos e vasos sanguíneos envolvidos. Para isso, o paciente será induzido a quatro semanas de coma para que não faça qualquer movimento.
A intervenção tem custo alto: além das quatro semanas de coma, o indivíduo deverá ficar até um ano sem andar. Segundo Canavero, a técnica pode revolucionar o tratamento de vários tipos de câncer e de degenerações nervosas. Por outro lado, a comunidade científica questiona o processo não só de sua perspectiva técnica, mas também ética.
Vítima de atrofia muscular espinhal, doença degenerativa e sem cura, Spiridonov aceitou de maneira voluntária ser o paciente operado. O plano é separar sua cabeça de seu corpo e implantá-la em outro corpo, sendo esse saudável e vindo de um doador que tenha tido uma morte cerebral.
“As chances do procedimento funcionar e tudo acabar bem são de 90%, mas é claro que existe um risco marginal e eu não posso negá-lo. Nosso voluntário é um homem corajoso, em uma condição horrível. Vocês precisam compreendê-lo. Para ele, a medicina ocidental falhou, não tem nada a oferecer”, explica Canavero.
A explicação do italiano tem uma razão bem explícita: a questão ética. Por ser arriscada e nunca ter sido realizada, a cirurgia é criticada por boa parte da comunidade médica devido às origens dos corpos, que deverão ser omitidas. Superadas essas questões, os médicos deverão partir para o lado mais complicado da situação: o físico.
A expectativa é que, após o transplante, o paciente passe meses em coma e demore até mais de um ano para voltar a andar. Segundo Canavero, o procedimento cirúrgico duraria muitas horas e teria que ser realizado por uma equipe com dezenas de médicos.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

CAUSAS DO TEMOR DA MORTE[1]



O homem, seja qual for a escala de sua posição social, desde selvagem tem o sentimento inato do futuro; diz-lhe a intuição que a morte não é a última fase da existência e que aqueles cuja perda lamentamos não estão irremissivelmente perdidos.
A crença da imortalidade é intuitiva e muito mais generalizada do que a do nada. Entretanto, a maior parte dos que nela creem apresentam-se-nos possuídos de grande amor às coisas terrenas e temerosos da morte! Por quê?
Este temor é um efeito da sabedoria da Providência e uma consequência do instinto de conservação comum a todos os viventes. Ele é necessário enquanto não se está suficientemente esclarecido sobre as condições da vida futura, como contrapeso à tendência que, sem esse freio, nos levaria a deixar prematuramente a vida e a negligenciar o trabalho terreno que deve servir ao nosso próprio adiantamento.
Assim é que, nos povos primitivos, o futuro é uma vaga intuição, mais tarde tornada simples esperança e, finalmente, uma certeza apenas atenuada por secreto apego à vida corporal.
À proporção que o homem compreende melhor a vida futura, o temor da morte diminui; uma vez esclarecida a sua missão terrena, aguarda-lhe o fim calma, resignada e serenamente. A certeza da vida futura dá-lhe outro curso às ideias, outro fito ao trabalho; antes dela nada que se não prenda ao presente; depois dela tudo pelo futuro sem desprezo do presente, porque sabe que aquele depende da boa ou da má direção deste.
A certeza de reencontrar seus amigos depois da morte, de reatar as relações que tivera na Terra, de não perder um só fruto do seu trabalho, de engrandecer-se incessantemente em inteligência, perfeição, dá-lhe paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas transitórias da vida terrestre.
A solidariedade entre vivos e mortos faz-lhe compreender a que deve existir na Terra, onde a fraternidade e a caridade têm desde então um fim e uma razão de ser, no presente como no futuro.
Para libertar-se do temor da morte é mister poder encará-la sob o seu verdadeiro ponto de vista, isto é, ter penetrado pelo pensamento no mundo espiritual, fazendo dele uma ideia tão exata quanto possível, o que denota da parte do Espírito encarnado um tal ou qual desenvolvimento e aptidão para desprender-se da matéria.
No Espírito atrasado a vida material prevalece sobre a espiritual. Apegando-se às aparências, o homem não distingue a vida além do corpo, esteja embora na alma a vida real; aniquilado aquele, tudo se lhe afigura perdido, desesperador.
Se, ao contrário, concentrarmos o pensamento, não no corpo, mas na alma, fonte da vida, ser real a tudo sobrevivente, lastimaremos menos a perda do corpo, antes fonte de misérias e dores. Para isso, porém, necessita o Espírito de uma força só adquirível na madureza.
O temor da morte decorre, portanto, da noção insuficiente da vida futura, embora denote também a necessidade de viver e o receio da destruição total; igualmente o estimula secreto anseio pela sobrevivência da alma, velado ainda pela incerteza.
Esse temor decresce, à proporção que a certeza aumenta, e desaparece quando esta é completa.
Eis aí o lado providencial da questão. Ao homem não suficientemente esclarecido, cuja razão mal pudesse suportar a perspectiva muito positiva e sedutora de um futuro melhor, prudente seria não o deslumbrar com tal ideia, desde que por ela pudesse negligenciar o presente, necessário ao seu adiantamento material e intelectual.
Este estado de coisas é entretido e prolongado por causas puramente humanas, que o progresso fará desaparecer.
A primeira é a feição com que se insinua a vida futura, feição que poderia contentar as inteligências pouco desenvolvidas, mas que não conseguiria satisfazer a razão esclarecida dos pensadores refletidos. Assim, dizem estes: “Desde que nos apresentam como verdades absolutas princípios contestados pela lógica e pelos dados positivos da Ciência, é que eles não são verdades.” Daí, a incredulidade de uns e a crença dúbia de um grande número.
A vida futura é-lhes uma ideia vaga, antes uma probabilidade do que certeza absoluta; acreditam, desejariam que assim fosse, mas apesar disso exclamam: “Se todavia assim não for! O presente é positivo, ocupemo-nos dele primeiro, que o futuro por sua vez virá.”
E depois, acrescentam, definitivamente que é a alma?
Um ponto, um átomo, uma faísca, uma chama? Como se sente, vê ou percebe? É que a alma não lhes parece uma realidade efetiva, mas uma abstração.
Os entes que lhes são caros, reduzidos ao estado de átomos no seu modo de pensar, estão perdidos, e não têm mais a seus olhos as qualidades pelas quais se lhes fizeram amados; não podem compreender o amor de uma faísca nem o que a ela possamos ter. Quanto a si mesmos, ficam mediocremente satisfeitos com a perspectiva de se transformarem em mônadas. Justifica-se assim a preferência ao positivismo da vida terrestre, que algo possui de mais substancial.
É considerável o número dos dominados por este pensamento.
Outra causa de apego às coisas terrenas, mesmo nos que mais firmemente creem na vida futura, é a impressão do ensino que relativamente a ela se lhes há dado desde a infância. Convenhamos que o quadro pela religião esboçado, sobre o assunto, é nada sedutor e ainda menos consolatório.
De um lado, contorções de condenados a expiarem em torturas e chamas eternas os erros de uma vida efêmera e passageira. Os séculos sucedem-se aos séculos e não há para tais desgraçados sequer o lenitivo de uma esperança e, o que mais atroz é, não lhes aproveita o arrependimento.
De outro lado, as almas combalidas e aflitas do purgatório aguardam a intercessão dos vivos que orarão ou farão orar por elas, sem nada fazerem de esforço próprio para progredirem.
Estas duas categorias compõem a maioria imensa da população de além-túmulo. Acima delas, paira a limitada classe dos eleitos, gozando, por toda a eternidade, da beatitude contemplativa. Esta inutilidade eterna, preferível sem dúvida ao nada, não deixa de ser de uma fastidiosa monotonia. É por isso que se vê, nas figuras que retratam os bem-aventurados, figuras angélicas onde mais transparece o tédio que a verdadeira felicidade.
Este estado não satisfaz nem as aspirações nem a instintiva ideia de progresso, única que se afigura compatível com a felicidade absoluta. Custa crer que, só por haver recebido o batismo, o selvagem ignorante — de senso moral obtuso —, esteja ao mesmo nível do homem que atingiu, após longos anos de trabalho, o mais alto grau de ciência e moralidade práticas. Menos concebível ainda é que a criança falecida em tenra idade, antes de ter consciência de seus atos, goze dos mesmos privilégios somente por força de uma cerimônia na qual a sua vontade não teve parte alguma.
Estes raciocínios não deixam de preocupar os mais fervorosos crentes, por pouco que meditem.
Não dependendo a felicidade futura do trabalho progressivo na Terra, a facilidade com que se acredita adquirir essa felicidade, por meio de algumas práticas exteriores, e a possibilidade até de a comprar a dinheiro, sem regeneração de caráter e costumes, dão aos gozos do mundo o melhor valor.
Mais de um crente considera, em seu foro íntimo, que assegurado o seu futuro pelo preenchimento de certas fórmulas ou por dádivas póstumas, que de nada o privam, seria supérfluo impor-se sacrifícios ou quaisquer incômodos por outrem, uma vez que se consegue a salvação trabalhando cada qual por si.
Seguramente, nem todos pensam assim, havendo mesmo muitas e honrosas exceções; mas não se poderia contestar que assim pensa o maior número, sobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a ideia que fazem das condições de felicidade no outro mundo não entretenha o apego aos bens deste, acoroçoando o egoísmo.
Acrescentemos ainda a circunstância de tudo nas usanças concorrer para lamentar a perda da vida terrestre e temer a passagem da Terra ao céu. A morte é rodeada de cerimônias lúgubres, mais próprias a infundirem terror do que a provocarem a esperança. Se descrevem a morte, é sempre com aspecto repelente e nunca como sono de transição; todos os seus emblemas lembram a destruição do corpo, mostrando-o hediondo e descarnado; nenhum simboliza a alma desembaraçando-se radiosa dos grilhões terrestres. A partida para esse mundo mais feliz só se faz acompanhar do lamento dos sobreviventes, como se imensa desgraça atingira os que partem; dizem-lhes eternos adeuses como se jamais devessem revê-los. Lastima-se por eles a perda dos gozos mundanos, como se não fossem encontrar maiores gozos no além-túmulo. Que desgraça, dizem, morrer tão jovem, rico e feliz, tendo a perspectiva de um futuro brilhante!
A ideia de um futuro melhor apenas toca de leve o pensamento, porque não tem nele raízes. Tudo concorre, assim, para inspirar o terror da morte, em vez de infundir esperança.
Sem dúvida que muito tempo será preciso para o homem se desfazer desses preconceitos, o que não quer dizer que isto não suceda, à medida que a sua fé se for firmando, a ponto de conceber uma ideia mais sensata da vida espiritual.
Demais, a crença vulgar coloca as almas em regiões apenas acessíveis ao pensamento, onde se tornam de alguma sorte estranhas aos vivos; a própria Igreja põe entre umas e outras uma barreira insuperável, declarando rotas todas as relações e impossível qualquer comunicação. Se as almas estão no inferno, perdida é toda a esperança de as rever, a menos que lá se vá ter também; se estão entre os eleitos, vivem completamente absortas em contemplativa beatitude. Tudo isso interpõe entre mortos e vivos uma distância tal que faz supor eterna a separação, e é por isso que muitos preferem ter junto de si, embora sofrendo, os entes caros, antes que vê-los partir, ainda mesmo que para o céu.
E a alma que estiver no céu será realmente feliz vendo, por exemplo, arder eternamente seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos?


[1] O Céu e o Inferno – Allan Kardec – 1ª. Parte – Capítulo II

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Inteligência artificial: máquinas que pensam devem surgir 'até 2050'[1]




Pesquisas sobre inteligência artificial avançaram a partir dos anos 1990 com nova abordagem

Especialistas acreditam que a inteligência das máquinas se equiparará à de humanos até 2050, graças a uma nova era na sua capacidade de aprendizado.
Computadores já estão começando a assimilar informações a partir de dados coletados, da mesma forma que crianças aprendem com o mundo ao seu redor.
Isso significa que estamos criando máquinas que podem ensinar a si mesmas a participar de jogos de computador – e ser muito boas neles – e também a se comunicar simulando a fala humana, como acontece com os smartphones e seus sistemas de assistentes virtuais.
Fei-Fei Li, professora da Universidade de Stanford e diretora do laboratório de visão computacional da instituição, passou os últimos 15 anos ensinando computadores a enxergar.
Seu objetivo é criar olhos eletrônicos para robôs e máquinas e torná-los capazes de entender o ambiente em que estão.
Metade da capacidade cerebral de um humano é usada no processamento visual, algo que fazemos sem um grande esforço aparente.
"Ninguém diz para uma criança como enxergar. Ela aprende isso por meio de experiências e exemplos do mundo real", disse Li em sua palestra na conferência TED neste ano.
"Se você pensar, os olhos de uma criança são como um par de câmeras biológicas que tiram fotografias a cada 200 milissegundos, o tempo médio dos movimentos oculares. Então, aos 3 anos de idade, uma criança teria centenas de milhões de fotos. Isso é um grande treinamento."
Ela decidiu ensinar computadores da mesma forma. "Em vez de só me concentrar em criar em algoritmos cada vez melhores, minha ideia é dar aos algoritmos o treinamento que crianças recebem por meio de experiências, quantitativamente e qualitativamente."
Em 2007, Li e um colega de profissão deram início a uma tarefa desafiadora: filtrar e identificar 1 bilhão de imagens obtidas na internet para que sirvam de exemplos do que é o mundo real para um computador.
Eles pensavam que, se uma máquina visse imagens suficientes de uma determinada coisa, como um gato, por exemplo, seria capaz de reconhecer isso na vida real.
Eles pediram ajuda em plataformas de colaboração online e contaram com o apoio de 50 mil pessoas de 167 países. No fim, tinham a ImageNet, uma base dados de 15 milhões de imagens relativas a 22 mil tipos de objetos, organizada de acordo com seus nomes em inglês.
Isso se tornou um recurso valioso usado por cientistas ao redor do mundo que buscam conferir aos computadores uma forma de visão.
Todos os anos, a Universidade de Stanford realiza uma competição, convidando empresas como Google, Microsoft e a chinesa Baidu, para testar a performance de seus sistemas com base na ImageNet.
Nos últimos anos, estes sistemas tornaram-se especialmente bons em reconhecer imagens, com uma margem de erro média de 5%.
Para ensinar computadores a reconhecer imagens, Li e sua equipe usaram redes neurais, nome dado a programas de computadores feitos a partir de células artificiais que funcionam de forma muito semelhante à de um cérebro humano.
Uma rede neural dedicada a interpretar imagens pode ter desde algumas centenas a até milhões destes neurônios artificiais, dispostos em camadas.
Cada camada reconhece diferentes elementos de uma imagem. Uma aprende que uma imagem é feita de pixels. Outra reconhece cores. Uma terceira determina seu formato e assim por diante.
Ao chegar à camada superior – e as redes neurais hoje têm até 30 camadas –, esta rede é capaz de ter uma boa noção do que se trata a imagem.
Em Stanford, uma máquina assim agora escreve legendas precisas para vários tipos de imagens, apesar de ainda cometer erros, como, por exemplo, dizer que uma foto de um bebê segurando uma escova de dente foi identificada como "um menino segurando um taco de beisebol".
Apesar de uma década de trabalho duro, disse Li, esta máquina ainda tem a inteligência de uma criança de 3 anos. E, ao contrário desta criança, ela não é capaz de compreender contextos.
"Até agora, ensinamos um computador a ver objetivamente ou a nos contar uma história simples quando vê uma imagem", afirmou Li.
Mas, quando pede para que a máquina avalie uma imagem de seu filho em uma festa de família, o computador simplesmente diz se tratar de um "menino de pé ao lado de um bolo".
"O computador não vê que é um bolo especial que é servido apenas na época da Páscoa", explicou Li.
Este é o próximo passo de sua pesquisa no laboratório: fazer com que máquinas entendam uma cena por completo, além de comportamentos humanos e as relações entre diferentes objetos.
A meta final é criar robôs que "enxergam" para que auxiliem em cirurgias, buscas e resgates e que, no fim das contas, promovam melhorias em nossas vidas, segundo Li.
O complexo trabalho realizado em Stanford tem como base o lento progresso obtido nesta área nos últimos 60 anos.
Em 1950, o cientista da computação britânico Alan Turing já especulava sobre o surgimento de uma máquina pensante, e o termo "inteligência artificial" foi cunhado em 1956 pelo cientista John McCarthy.
Após alguns avanços significativos nos anos 1950 e 1960, quando foram criados laboratórios de inteligência artificial em Stanford e no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês), ficou claro que a tarefa de criar uma máquina assim seria mais difícil do que se pensava.
Veio então o chamado "inverno da inteligência artificial", um período sem grandes descobertas nesta área e com uma forte redução no financiamento de suas pesquisas.
Mas, nos anos 1990, a comunidade dedicada à inteligência artificial deixou de lado uma abordagem baseada na lógica, que envolvia criar regras para orientar um computador como agir, para uma abordagem estatística, usando bases de dados e pedindo para a máquina analisá-los e resolver problemas por conta própria.
Nos anos 2000, um processamento de dados mais veloz e a grande oferta de dados criaram um ponto de inflexão para a inteligência artificial, fazendo com que esta tecnologia esteja presenta em muitos dos serviços que usamos hoje.
Ela permite que a Amazon recomende livros, o Netflix indique filmes e o Google ofereça resultados de buscas mais relevantes. Algoritmos passaram a estarem presentes nas negociações feitas em Wall Street, indo às vezes longe demais, como em 2010, quando um algoritmo foi apontado como culpado por uma perda de bilhões de dólares na Bolsa Nova York.
Também serviu de base para os assistentes virtuais de smartphones, como a Siri, da Apple, o Now, do Google, e a Cortana, da Microsoft.
Neste momento, máquinas assim estão aprendendo em vez de pensar. É alvo de controvérsia se é possível programar uma máquina para pensar, já que a complexa natureza do pensamento humano tem intrigado cientistas e filósofos há séculos.
E ainda assim restarão elementos da mente humana, como sonhar acordado, por exemplo, que máquinas nunca serão capazes de replicar.
Ainda assim, a habilidade destes computadores vem melhorando, e a maioria das pessoas concorda que a inteligência artificial está entrando em sua era de ouro e só se tornará mais eficiente aqui daqui em diante.


[1] Jane Wakefield Repórter de Tecnologia da BBC News - 20 setembro 2015

UM SONHO INSTRUTIVO[1]




Allan Kardec

          Durante a última doença que tivemos no corrente abril de 1866, estávamos sob o império de uma sonolência e de uma absorção quase contínuas; naqueles momentos revíamos constantemente coisas insignificantes, e às quais não prestávamos nenhuma atenção; mas na noite de 24 de abril, a visão ofereceu um caráter tão particular que por ela fomos vivamente tocados.
          Num lugar que nada lembrava à nossa lembrança e que parecia uma rua, havia uma reunião de indivíduos que conversavam juntos; dentre eles, somente alguns nos sendo conhecidos em sonho, mas sem que pudéssemos designá-los nominalmente. Considerávamos essa multidão e procurávamos saber o assunto da conversação, quando, de repente, apareceu num ângulo da parede uma inscrição em caracteres pequenos brilhantes como fogo, e que nos esforçávamos por decifrar; estava assim concebida: "Descobrimos que a borracha rolada sob a roda faz uma légua em dez minutos, contanto que a estrada....."   Enquanto procurávamos o fim da frase, a inscrição se apagou pouco a pouco, e despertamos. Com medo destas singulares palavras, nos apressamos em transcrevê-las.
          Qual poderia ser o sentido dessa visão, que absolutamente nada em nossos pensamentos, nem em nossas preocupações, poderia ter provocado? Não nos ocupando nem de invenções nem de pesquisas industriais, isso não poderia ser um reflexo de nossas ideias. Depois, que poderia significar essa borracha que, rolada sob uma roda, faz uma légua em dez minutos? Era a revelação de alguma nova propriedade dessa substância? Estaria chamada a desempenhar um papel na locomoção? Queria-se nos colocar no caminho de uma descoberta? Mas, então, por que dirigir-se a nós antes que a homens especiais, tendo o tempo suficiente para fazer os estudos e as experiências necessárias? No entanto, esse sonho era muito característico, muito especial, para ser alinhado entre os sonhos de fantasia; deveria ter um objetivo; qual era? É o que procurávamos inutilmente.
          No dia, tendo tido ocasião de consultar o doutor Demeure sobre a nossa saúde, disso aproveitamos para pedir-lhe nos dizer se esse sonho apresentava alguma coisa de sério. Eis o que ele nos respondeu:
          Os numerosos sonhos que vos cercaram nestes últimos dias são o resultado do próprio sofrimento que sentis. Todas as vezes que há um enfraquecimento do corpo, há tendência ao desligamento do Espírito; mas quando o corpo sofre, o desligamento não se opera de maneira regular e normal; o Espírito é incessantemente chamado ao seu posto; daí uma espécie de luta, de conflito, entre as necessidades materiais e as tendências espirituais; daí também as interrupções e as misturas que confundem as imagens e delas fazem conjuntos bizarros e desprovidos de sentido. O caráter dos sonhos se liga, mais do que se crê, à natureza da doença; é um estudo a fazer, e os médicos nele encontrarão, frequentemente, diagnósticos preciosos, quando reconhecerem a ação independente do Espírito e o papel importante que desempenha na economia. Se o estado do corpo reage sobre o Espírito, de seu lado o estado do Espírito influi poderosamente sobre a saúde, e, em certos casos, é tão útil agir sobre o Espírito quanto sobre o corpo; ora, a natureza dos sonhos pode, frequentemente, ser um indício do estado do Espírito. É, eu o repito, um estudo a fazer, negligenciado até este dia pela ciência, que não vê por toda a parte senão a ação da matéria e não leva em nenhuma conta o elemento espiritual.
          O sonho que me assinalais, aquele do qual guardais uma lembrança tão nítida, me parece pertencer a uma outra categoria: ele contém um fato notável e digno de atenção; certamente, foi motivado, mas não saberia dele dar-lhe presentemente uma explicação satisfatória; não poderia vos dar senão a minha opinião pessoal, da qual não estou bastante seguro. Tomarei minhas informações em boa fonte, e amanhã vos darei parte daquilo que tiver sabido. No dia seguinte ele nos deu a explicação que se segue:
          O que vistes no sonho, que estou encarregado de vos explicar, não é uma dessas imagens fantásticas provocadas pela doença; é muito realmente uma manifestação, não de Espíritos desencarnados, mas de Espíritos encarnados. Sabeis que, no sono, podem se encontrar com pessoas conhecidas ou desconhecidas, mortas ou vivas; foi este último caso que ocorreu nessa circunstância. Aqueles que vistes são encarnados que se ocupam separadamente, e sem se conhecerem na maioria, de invenções tendentes à aperfeiçoar os meios de locomoção, e anulando, tanto quanto possível, o excesso de despesa causado pelo desgaste dos materiais hoje em uso. Uns pensaram em borracha, outros em outras matérias; mas o que há de particular é que se quis chamar a vossa atenção, como assunto de estudo psicológico, sobre a reunião, num mesmo lugar, dos Espíritos de diferentes homens perseguindo o mesmo objetivo. A descoberta não tem relação com o Espiritismo; foi somente o conciliábulo dos inventores que se quis vos fazer ver, e a inscrição não tinha outro objetivo senão o de especificar, aos vossos olhos, o objeto principal de sua preocupação, porque há os que procuram outras aplicações da borracha. Ficai persuadido de que, frequentemente, o é assim, e que quando vários homens descobrem ao mesmo tempo, seja uma nova lei, seja um novo corpo, sobre diferentes pontos do globo, seu Espírito estudou junto a questão durante o sono, e, ao despertar, cada um trabalha de seu lado, aproveitando o fruto de suas observações.
          Notai bem que aí estão as ideias de encarnados, e que não prejulgam nada sobre o mérito da descoberta; pode ser que, de todos os cérebros em ebulição, saia alguma coisa de útil, como é possível que deles não saia senão quimeras. Não tenho necessidade de vos dizer que seria inútil interrogar os Espíritos a esse respeito; sua missão, como o dissestes em vossas obras, não é poupar ao homem o trabalho das pesquisas trazendo-lhe invenções inteiramente feitas, que seriam tanto prêmios de encorajamento para a preguiça e a ignorância. Nesse grande torneio da inteligência humana, cada um ali está por sua própria conta, e a vitória é do mais hábil, do mais perseverante, do mais corajoso.
          Pergunta: Que é preciso pensar das descobertas atribuídas ao acaso? Não há delas que não são o fruto de nenhuma pesquisa?
          Resposta: O acaso, bem o sabeis, não existe; as coisas que vos parecem o mais fortuitas têm sua razão de ser, porque é preciso contar com as inumeráveis inteligências ocultas que presidem a todas as partes do conjunto. Se o tempo de uma descoberta chegou, seus elementos são postos à luz por essas mesmas inteligências; vinte homens, cem homens passarão ao lado sem notá-la: um único lhe dará sua atenção; não era tudo encontrá-la, o essencial era saber colocá-la em obra. Não foi o acaso que lho colocou sobre os olhos, mas os bons Espíritos que lhe disseram: “Olha, observa e aproveita se tu o quiseres”. Depois, ele mesmo, nos momentos de liberdade de seu Espírito, durante o sono de seu corpo, pôde ser colocado no caminho, e, em seu despertar, instintivamente, se dirige para o lugar onde deve encontrar a coisa que está chamado a fazer frutificar por sua inteligência.
          "Não, não há acaso: tudo é inteligente na Natureza."


[1] Fonte: Revista Espírita Junho de 1866