Michael Duggan – 09/06/2020
A psicologia anômala brasileira
cresceu por meio de trabalhos que tratam crenças e experiências incomuns como
temas sérios para estudo social e psicológico. Wellington Zangari ajudou a
moldar esse crescimento por meio de pesquisas sobre mediunidade, religião,
hipnose, estados alterados e o treinamento institucional de novos estudiosos.
§ Na Universidade de São Paulo, Zangari e Fatima Machado
supervisionaram gerações sucessivas de pesquisadores.
§ Seus estudos sobre a mediunidade na Umbanda examinam
identidade, cura, experiências anômalas e processos psicossociais mais amplos.
§ InterPsi combina pesquisa, ensino e recursos
arquivísticos em crença, religião, experiências anômalas e cultura.
Carreira
Wellington Zangari obteve o
título de mestre em ciências da religião pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo em 1996, seguido pelo doutorado em psicologia social pela
Universidade de São Paulo em 2003. Atualmente, Zangari é professor no departamento
de psicologia social e ocupacional da Universidade de São Paulo, onde leciona e
realiza pesquisas, além de coordenador do programa de pós-graduação em
psicologia social.
Zangari também é
vice-coordenador do Laboratório de Psicologia Social da Religião da
universidade e, junto com sua parceira Fatima Machado, coordenador, do InterPsi – Laboratório de Estudos Psicossociais "Crença,
Subjetividade, Cultura e Saúde" (anteriormente chamado InterPsi
– Laboratório de Psicologia Anômala e Processos Psicossociais).
Sua pesquisa foca em áreas de
psicologia social, psicologia da religião, psicologia anômala, hipnose e
estados alterados de consciência, e filosofia da mente.
Ensino
Desde 2008, Zangari tem
orientado estudos nas áreas de psicologia anômala, psicologia da religião,
ciência cognitiva da religião e psicologia social da crença na Universidade de
São Paulo. Cerca de duas dezenas de pesquisadores obtiveram seus títulos de
mestrado e doutorado sob sua supervisão. Atualmente, outros doze pesquisadores
estão sob sua orientação. Ex-alunos de Zangari e Machado estão atualmente
supervisionando pesquisadores em outras universidades do Brasil, efetivamente
semeando uma terceira geração de pesquisadores acadêmicos estudando crenças e
experiências anômalas. A influência de Zangari e Machado nesse sentido tem sido
comparada à do parapsicólogo americano Robert Morris, que,
como presidente da Koestler Parapsychology Unit
(KPU) da Universidade de Edimburgo, também semeou uma nova geração
de pesquisadores psi em várias universidades britânicas (o chamado
'efeito Bob Morris').
Psicologia Social e Psicologia Anomalista da Mediunidade
Zangari contribuiu para a
compreensão psicossocial do fenômeno da incorporação de médiuns da Umbanda, uma
religião brasileira mediunística e sincrética. Seus estudos, alguns realizados
em colaboração com colegas, incluem a questão da identidade na mediunidade[2]
das funções projetivas e curativas da mediunidade[3],
experiências anômalas na mediunidade e outros aspectos psicossociais[4].
Zangari desenvolveu um modelo
descritivo das fases sucessivas e interdependentes através das quais os meios
desenvolvem sua mediunidade[5]:
§ Assimilação
§ Rendição
§ Treinamento dissociativo
§ Criação
§ Demonstração
§ Prova[6]
Fusão de Abordagens Psicanalíticas
Em um artigo de 2018, Zangari e
Goldberg tentam conectar o trabalho do psicólogo brasileiro Wilton de Azevedo à
teoria lacaniana, desenvolvida pelo psicanalista francês Jacques Lacan, que
dedicou sua carreira a incentivar um retorno à psicanálise freudiana inicial.
Oferece uma aproximação conceitual entre as duas abordagens psicológicas
aparentemente díspares e sugere caminhos para trabalhos futuros[7].
Sociologia das Experiências Excepcionais
Neste estudo, baseado em
entrevistas com pessoas que afirmam ter tido contato com alienígenas, Zangari e
Martins tentam iluminar os processos sociológicos subjacentes às experiências
excepcionais. Eles observam que, ao longo da história, tais relatos foram
subordinados ao título geral 'paranormal' e, como são contrários à visão de
mundo predominante, a maioria dos experientes é estigmatizada quando tenta
relatá-los. O grau de mentalidade fechada na sociedade é explorado no estudo de
Zangari e Martins, no qual investigam variáveis psicossociais que mediam a
relação entre crenças/experiências anômalas e cultura no contexto brasileiro.
Usando a Teoria da Atribuição da Causalidade, Zangari e Martins descobriram que
as experiências foram formadas por meio de uma complexa interação de conceitos
científicos, esotéricos e religiosos tradicionais[8].
Situação da Parapsicologia Brasileira
Em uma edição especial do Journal
of Parapsychology, Zangari e Machado traçam um futuro para a parapsicologia
no Brasil com referência à cena contemporânea e sua história. Eles explicam que
o termo parapsicologia no Brasil está associado a curandeiros tradicionais e
professores espirituais e não à atividade acadêmica, causa de antipatia no
sistema universitário brasileiro. Nos últimos tempos, o surgimento da
psicologia anomalística tornou o estudo de temas paranormais academicamente
respeitável, com ênfase em explicar fenômenos aparentemente paranormais por
meio de processos psicológicos em vez de explicações baseadas em psi.
Isso permite que experiências psi e outras experiências anômalas sejam
discutidas no contexto acadêmico, ao mesmo tempo em que incentiva os estudantes
a investigarem experimentalmente seus aspectos ontológicos. Zangari e Machado
observam que a maioria dos atuais estudantes de mestrado e doutorado da USP
planeja continuar na área após a graduação e, consequentemente, preveem o
crescimento generalizado da psicologia anômala em todo o Brasil, com programas
que também incorporam pesquisas psi no estilo ocidental[9].
InterPsi – Laboratório de Estudos Psicossociais
"Crença, Subjetividade, Cultura e Saúde"
Com Machado, Zangari trabalha no
InterPsi – Laboratório de Estudos Psicossociais "Crença, Subjetividade,
Cultura e Saúde" da Universidade de São Paulo. Este é um centro de
pesquisa ativo com mais de uma dúzia de acadêmicos ativos. O laboratório mantém
oito grupos de estudo nas áreas de psicologia da religião, psicologia anômala,
psicologia analítica e experiências anômalas/religiosas, ciência cognitiva da
religião, psicologia da arte mágica, metodologia de estudo em psicologia social
da crença e identidade. Cerca de oitenta pessoas participam ativamente desses
grupos, que Zangari considera incubadoras de pesquisadores.
As áreas de pesquisa incluem:
§ Psicologia da Crença, Religiosidade e Espiritualidade
§ Psicologia das crenças, psicologia anômala e processos
psicossociais básicos
§ Perspectiva da ciência cognitiva da religião em
relação à crença
§ Psicologia junguiana e experiências
anômalas/religiosas
§ Práticas meditativas
§ Hipnose, estados alterados de consciência, crença e
cultura
§ Implicações epistemológicas, metodológicas e teóricas
da psicologia das crenças e experiências anômalas para a psicologia social
Desde 2021, a InterPsi mantém o Laboratório do Impossível na Universidade
de São Paulo, abrangendo a maior parte da Coleção InterPsi e o Museu da Crença,
Dúvida e Cultura da Paz. A coleção
abriga cerca de 15.000 itens, incluindo livros, revistas, bem como itens em
outros formatos de mídia, como CDs, DVDs, fotografias, slides e recortes
especializados nas áreas de pesquisa do laboratório, principalmente nas áreas
de "ciência e religião", crenças, experiências anômalas,
comportamento e experiências religiosas, hipnose e Ilusionismo (Arte Mágica).
Grande parte da coleção é composta por material raro, com publicações datadas
do século XVII. Mais detalhes aqui.
O InterPsi também oferece cursos
em nível de graduação e pós-graduação que oferecem uma introdução à psicologia
anômala, hipnose e estados alterados de consciência, e psicologia da religião[10].
Transliminaridade [11]
Zangari participou de uma grande
investigação em grupo sobre a validade de uma medição padrão de transliminaridade
(a facilidade com que a informação entra na consciência a partir do ambiente
interno e externo) entre diferentes culturas. Zangari e colaboradores
administraram uma versão portuguesa da Escala Revisada de Transliminaridade
(RTS) a uma amostra online de 341 estudantes universitários, começando pelos do
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Foi constatado que as
medidas brasileiras correlacionavam quase perfeitamente com estimativas
derivadas de pesquisas anteriores. Algumas diferenças relacionadas à idade e ao
sexo foram obtidas, mas não afetaram de forma significativa as estimativas dos
níveis gerais de transliminaridade. Zangari e coautores concluíram que a
pesquisa apoiava a robustez das atuais medições de transliminaridade, servindo
como guia para avançar em pesquisas transculturais adicionais na compreensão da
transliminaridade [12].
Psicologia e Religião
Zangari e coautores compuseram
um guia prático em português, em formato de perguntas e respostas, sobre a
relação entre psicologia e religião, incluindo os aspectos históricos das
experiências religiosas. As perguntas baseavam-se naquelas levantadas por pessoas
que buscavam compreender suas experiências anômalas.
Como tais experiências tendem a
ser interpretadas em sentido religioso, o objetivo era ajudar os psicólogos a
distinguir entre religiosidade e espiritualidade, que se referem ao que dá
sentido à vida em vez do mundo espiritual e não necessariamente se relacionam à
motivação religiosa ou ao propósito de vida. Esperava-se ainda que uma
compreensão de como esses temas estão entrelaçados pudesse aprimorar a prática
profissional na psicologia[13].
Atitudes Religiosas e Ciência
Em um estudo sobre atitudes
religiosas em relação à ciência, Zangari e colegas investigaram seguidores de
grupos religiosos brasileiros, sondando seus sentimentos científicos e
potenciais influências, como a educação familiar e escolar. Eles realizaram um
estudo quantitativo transversal usando a Escala de Crença na Ciência e um
questionário original baseado em respostas dadas por 309 adeptos de diferentes
afiliações religiosas. Os resultados mostraram uma maior propensão à descrença
na ciência do que a encontrada na população em geral, apesar do reconhecimento
da importância da ciência para a sociedade e do consenso de que não existe
conflito irreconciliável entre ciência e religião. Análises mais exaustivas
revelaram diferenças significativas entre afiliações religiosas em seus níveis
de afinidade com a ciência[14].
Intenção de Cura
Zangari, Machado e o
parapsicólogo americano Dean Radin
relataram dois experimentos duplo-cegos que exploraram os efeitos da intenção
de cura direcionada a uma pessoa distante. Medições fisiológicas foram
realizadas que incluíram a respiração da pessoa distante, frequência cardíaca,
volume sanguíneo nas pontas dos dedos e atividade eletrodérmica espontânea. As
sessões experimentais foram divididas em 20 ensaios de 'tratamento' de um
minuto e controles contrabalançados aleatoriamente.
No primeiro experimento, a
influência da influência mental distante de um grupo foi direcionada a
participantes isolados a 200 metros de distância. O segundo experimento
investigou a capacidade dos médiuns da Umbanda de direcionar suas intenções de
cura de São Paulo, Brasil, para voluntários que foram monitorados dois meses
antes em Las Vegas (este foi um estudo de cura retroativa que sondou efeitos de
cura por deslocamento temporal em vez de em tempo real). Resultados gerais
indicaram efeitos marginalmente significativos da influência (p = 0,053) no
primeiro experimento e efeitos significativos da influência mental retroativa
no segundo experimento (p = 0,013)[15].
Experiências Ritualísticas Anômalas
Zangari participou de uma
investigação, relatada em um estudo de 2020, sobre os aspectos fenomenológicos
das experiências anômalas ocorrendo nos rituais da Umbanda, uma religião
brasileira mediúnica. Um foco particular foi comparar as experiências durante
rituais envolvendo o uso da Ayahuasca, um enteógeno comumente usado em certas
práticas da Umbanda, com rituais onde a Ayahuasca não era usada. Ao contrário
do esperado, os achados revelaram semelhanças substanciais entre experiências
relatadas com e sem Ayahuasca em contextos mediúnicos. Ambos os grupos de
experimentadores notaram semelhanças como diminuição do controle motor
voluntário, alterações na memória e percepção, maior comunicabilidade e
acessibilidade das experiências, recepção de informações anômalas e
sensibilidade interpessoal aumentada. Esses achados sugerem que a própria
prática da Umbanda é suficiente para desbloquear experiências incomuns que, de
outra forma, seriam causadas pela ingestão da Ayahuasca[16].
Carlos Alvarado
Zangari e Fatima Machado
apresentam uma visão geral da contribuição para a pesquisa psi
brasileira feita por Carlos Alvarado, um
prolífico pesquisador paranormal falecido em 2021 e com quem o casal mantinha
uma conexão pessoal e profissional substancial desde a década de 1990, junto
com sua esposa Nancy L. Zingrone,
também uma pesquisadora de destaque. A colaboração facilitou a troca de ideias
e experiências que influenciaram profundamente a trajetória da pesquisa psi
no Brasil, culminando na criação do Laboratório InterPsi de
Estudos Psicossociais na Universidade de São Paulo.
A proficiência linguística de Alvarado em português, francês, italiano,
espanhol e inglês permitiu-lhe compreender as diversas "culturas psi"
em diferentes regiões, eliminando barreiras linguísticas. Suas iniciativas
educacionais no Brasil, que incluíram cursos, palestras e encontros de
pesquisa, tiveram papel crucial na institucionalização da pesquisa psi
no âmbito acadêmico.
Obras Citadas
§ Goldberg, L., & Zangari, W. (2018). Materialidades
da poética digital: Lalangue e a escritura de Wilton de Azevedo. Texto
Digital 14, 55-64.
§ Lange, R., Maraldi, E., Zangari, W., Corredato, V.,
Machado, F., & Alvarado, C.S. (2018). A cross-cultural validation of
the revised transliminality scale in Brazil. Psychology of Consciousness: Theory, Research, and Practice 5, 414-24.
§ Machado, F.R. (2010). Experiências anômalas
(extra-sensório-motoras) na vida cotidiana e sua associação com crenças,
Atitudes e Bem-Estar Subjetivo. Boletim – Academia Paulista de Psicologia
30, 462-83.
§ Machado, F.R., Mendonça, T., Huang, M., Zangari, W.,
& Maraldi, E. (2019). A ciência dos religiosos: Um estudo quantitativo
exploratório. Interação em Psicologia 23/2, 243-55.
§ Machado, F.R., & Zangari, W. (2001). Parapsychology in Brazil:
A science entering adulthood. Journal
of Parapsychology 65, 351-56.
§ Maraldi, E.O., da Silva Costa, A., Cunha, A., Rizzi,
A., Flores, D., Hamazaki, E., Machado, F., Medeiros, G., Queiroz, G., Martinez,
M., Filho, P., Rêgo, R., Santos, R., Siqueira, S., & Zangari, W. (2020). Anomalous and
dissociative experiences in a religious context: An autoethnographic approach. Revista da Abordagem Gestaltica 26, 147-61.
§ Maraldi, E.O., & Zangari, W. (2012). Funções
projetivas e terapêuticas das práticas dissociativas em contexto religioso. Boletim
Academia Paulista de Psicologia 32, 424-52.
§ Maraldi, E.O., & Zangari, W. (2015). ‘Em transe’:
um estudo quali-quantitativo sobre o papel das experiências dissociativas e
somatoformes nas crenças e rituais religiosos. Boletim Academia Paulista de
Psicologia 35, 382-408.
§ Martins, L., Zangari, W., & Medeiros, G. (2017).
Contemporaneity and anomalous experiences: Psychosocial dimensions of
culturally frontier experiences. Revista da Abordagem Gestaltica 23,
137-49.
§ Radin, D.I., Machado, F.R., & Zangari, W. (2002). Effects of distant
healing intention through time & space: Two exploratory studies. Subtle Energies and Energy Medicine Journal 11, 34-58.
§ Zangari, W. (2005). Uma leitura psicossocial do
fenômeno da mediunidade de Umbanda. Boletim Academia Paulista de Psicologia
25/3, 70-88.
§ Zangari, W. (2007). Experiências anômalas em médiuns
de Umbanda: uma avaliação fenomenológica e ontológica. In Boletim – Academia
Paulista de Psicologia 2/7, 67-86.
§ Zangari, W., & Machado, F.R. (2012). The
paradoxical disappearance of parapsychology in Brazil. Parapsychology in 25
years. Special edition of the Journal of Parapsychology 76 (December,
supplement).
§ Zangari, W., & Machado, F.R. (eds.) (2018).
Psicologia & Religião: Histórico, Subjetividade, Saúde Mental, Manejo.
Ética Profissional e Direitos Humanos.
§ Zangari, W., & Machado, F.R. (2021). Carlos S. Alvarado’s contribution to psi research in Brazil. Journal of Anomalous Experience and Cognition 1/1-2, 172-75.
§ Zangari, W., &
Maraldi, E.O. (2009). Psicologia da
mediunidade: do intrapsíquico ao psicossocial. Boletim Academia Paulista de
Psicologia 77, 233-52.
Traduzido
com Google Tradutor
[1] PSI-ENCYCLOPEDIA - https://psi-encyclopedia.spr.ac.uk/articles/wellington-zangari/
[2] Zangari (2005).
[3] Maraldi & Zangari (2012).
[4] Zangari & Maraldi (2009); Maraldi & Zangari
(2015)./fn] Em seu estudo pós-doutoral, ele replicou o procedimento
experimental de 'habituação precognitiva' desenvolvido por Daryl J Bem em 52
meios do Umbanda, sem obter resultados favoráveis para psi.16Zangari (2007).
[5] Zangari (2005).
[6] Goldberg & Zangari (2018).
[7] Martins et al. (2017).
[8] Zangari & Machado (2012); Machado & Zangari
(2001).
[9] Zangari et al. (2019).
[10] Lange et al. (2018).
[11] No contexto da psicologia, transliminality designa a
tendência de conteúdos inconscientes, emoções, imagens mentais e associações
psicológicas atravessarem o limiar da consciência e chegarem à percepção
consciente.(Chat GPT)
[12] Carunchio et al. (2018).
[13] Machado et al. (2019).
[14] Radin et al. (2002).
[15] Maraldi et al. (2020).
[16] Zangari & Machado (2021).
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