segunda-feira, 2 de novembro de 2026

WELLINGTON ZANGARI[1]

 


Michael Duggan – 09/06/2020

 

A psicologia anômala brasileira cresceu por meio de trabalhos que tratam crenças e experiências incomuns como temas sérios para estudo social e psicológico. Wellington Zangari ajudou a moldar esse crescimento por meio de pesquisas sobre mediunidade, religião, hipnose, estados alterados e o treinamento institucional de novos estudiosos.

§  Na Universidade de São Paulo, Zangari e Fatima Machado supervisionaram gerações sucessivas de pesquisadores.

§  Seus estudos sobre a mediunidade na Umbanda examinam identidade, cura, experiências anômalas e processos psicossociais mais amplos.

§  InterPsi combina pesquisa, ensino e recursos arquivísticos em crença, religião, experiências anômalas e cultura.

 

Carreira

Wellington Zangari obteve o título de mestre em ciências da religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1996, seguido pelo doutorado em psicologia social pela Universidade de São Paulo em 2003. Atualmente, Zangari é professor no departamento de psicologia social e ocupacional da Universidade de São Paulo, onde leciona e realiza pesquisas, além de coordenador do programa de pós-graduação em psicologia social.

Zangari também é vice-coordenador do Laboratório de Psicologia Social da Religião da universidade e, junto com sua parceira Fatima Machado, coordenador, do InterPsi – Laboratório de Estudos Psicossociais "Crença, Subjetividade, Cultura e Saúde" (anteriormente chamado InterPsi – Laboratório de Psicologia Anômala e Processos Psicossociais).

Sua pesquisa foca em áreas de psicologia social, psicologia da religião, psicologia anômala, hipnose e estados alterados de consciência, e filosofia da mente.

 

Ensino

Desde 2008, Zangari tem orientado estudos nas áreas de psicologia anômala, psicologia da religião, ciência cognitiva da religião e psicologia social da crença na Universidade de São Paulo. Cerca de duas dezenas de pesquisadores obtiveram seus títulos de mestrado e doutorado sob sua supervisão. Atualmente, outros doze pesquisadores estão sob sua orientação. Ex-alunos de Zangari e Machado estão atualmente supervisionando pesquisadores em outras universidades do Brasil, efetivamente semeando uma terceira geração de pesquisadores acadêmicos estudando crenças e experiências anômalas. A influência de Zangari e Machado nesse sentido tem sido comparada à do parapsicólogo americano Robert Morris, que, como presidente da Koestler Parapsychology Unit (KPU) da Universidade de Edimburgo, também semeou uma nova geração de pesquisadores psi em várias universidades britânicas (o chamado 'efeito Bob Morris').

 

Psicologia Social e Psicologia Anomalista da Mediunidade

Zangari contribuiu para a compreensão psicossocial do fenômeno da incorporação de médiuns da Umbanda, uma religião brasileira mediunística e sincrética. Seus estudos, alguns realizados em colaboração com colegas, incluem a questão da identidade na mediunidade[2] das funções projetivas e curativas da mediunidade[3], experiências anômalas na mediunidade e outros aspectos psicossociais[4].

Zangari desenvolveu um modelo descritivo das fases sucessivas e interdependentes através das quais os meios desenvolvem sua mediunidade[5]:

§  Assimilação

§  Rendição

§  Treinamento dissociativo

§  Criação

§  Demonstração

§  Prova[6]

 

Fusão de Abordagens Psicanalíticas

Em um artigo de 2018, Zangari e Goldberg tentam conectar o trabalho do psicólogo brasileiro Wilton de Azevedo à teoria lacaniana, desenvolvida pelo psicanalista francês Jacques Lacan, que dedicou sua carreira a incentivar um retorno à psicanálise freudiana inicial. Oferece uma aproximação conceitual entre as duas abordagens psicológicas aparentemente díspares e sugere caminhos para trabalhos futuros[7].

 

Sociologia das Experiências Excepcionais

Neste estudo, baseado em entrevistas com pessoas que afirmam ter tido contato com alienígenas, Zangari e Martins tentam iluminar os processos sociológicos subjacentes às experiências excepcionais. Eles observam que, ao longo da história, tais relatos foram subordinados ao título geral 'paranormal' e, como são contrários à visão de mundo predominante, a maioria dos experientes é estigmatizada quando tenta relatá-los. O grau de mentalidade fechada na sociedade é explorado no estudo de Zangari e Martins, no qual investigam variáveis psicossociais que mediam a relação entre crenças/experiências anômalas e cultura no contexto brasileiro. Usando a Teoria da Atribuição da Causalidade, Zangari e Martins descobriram que as experiências foram formadas por meio de uma complexa interação de conceitos científicos, esotéricos e religiosos tradicionais[8].

 

Situação da Parapsicologia Brasileira

Em uma edição especial do Journal of Parapsychology, Zangari e Machado traçam um futuro para a parapsicologia no Brasil com referência à cena contemporânea e sua história. Eles explicam que o termo parapsicologia no Brasil está associado a curandeiros tradicionais e professores espirituais e não à atividade acadêmica, causa de antipatia no sistema universitário brasileiro. Nos últimos tempos, o surgimento da psicologia anomalística tornou o estudo de temas paranormais academicamente respeitável, com ênfase em explicar fenômenos aparentemente paranormais por meio de processos psicológicos em vez de explicações baseadas em psi. Isso permite que experiências psi e outras experiências anômalas sejam discutidas no contexto acadêmico, ao mesmo tempo em que incentiva os estudantes a investigarem experimentalmente seus aspectos ontológicos. Zangari e Machado observam que a maioria dos atuais estudantes de mestrado e doutorado da USP planeja continuar na área após a graduação e, consequentemente, preveem o crescimento generalizado da psicologia anômala em todo o Brasil, com programas que também incorporam pesquisas psi no estilo ocidental[9].

 

InterPsi – Laboratório de Estudos Psicossociais "Crença, Subjetividade, Cultura e Saúde"

Com Machado, Zangari trabalha no InterPsi – Laboratório de Estudos Psicossociais "Crença, Subjetividade, Cultura e Saúde" da Universidade de São Paulo. Este é um centro de pesquisa ativo com mais de uma dúzia de acadêmicos ativos. O laboratório mantém oito grupos de estudo nas áreas de psicologia da religião, psicologia anômala, psicologia analítica e experiências anômalas/religiosas, ciência cognitiva da religião, psicologia da arte mágica, metodologia de estudo em psicologia social da crença e identidade. Cerca de oitenta pessoas participam ativamente desses grupos, que Zangari considera incubadoras de pesquisadores.

As áreas de pesquisa incluem:

§  Psicologia da Crença, Religiosidade e Espiritualidade

§  Psicologia das crenças, psicologia anômala e processos psicossociais básicos

§  Perspectiva da ciência cognitiva da religião em relação à crença

§  Psicologia junguiana e experiências anômalas/religiosas

§  Práticas meditativas

§  Hipnose, estados alterados de consciência, crença e cultura

§  Implicações epistemológicas, metodológicas e teóricas da psicologia das crenças e experiências anômalas para a psicologia social

Desde 2021, a InterPsi mantém o Laboratório do Impossível na Universidade de São Paulo, abrangendo a maior parte da Coleção InterPsi e o Museu da Crença, Dúvida e Cultura da Paz.  A coleção abriga cerca de 15.000 itens, incluindo livros, revistas, bem como itens em outros formatos de mídia, como CDs, DVDs, fotografias, slides e recortes especializados nas áreas de pesquisa do laboratório, principalmente nas áreas de "ciência e religião", crenças, experiências anômalas, comportamento e experiências religiosas, hipnose e Ilusionismo (Arte Mágica). Grande parte da coleção é composta por material raro, com publicações datadas do século XVII. Mais detalhes aqui.

O InterPsi também oferece cursos em nível de graduação e pós-graduação que oferecem uma introdução à psicologia anômala, hipnose e estados alterados de consciência, e psicologia da religião[10].

 

Transliminaridade [11]

Zangari participou de uma grande investigação em grupo sobre a validade de uma medição padrão de transliminaridade (a facilidade com que a informação entra na consciência a partir do ambiente interno e externo) entre diferentes culturas. Zangari e colaboradores administraram uma versão portuguesa da Escala Revisada de Transliminaridade (RTS) a uma amostra online de 341 estudantes universitários, começando pelos do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Foi constatado que as medidas brasileiras correlacionavam quase perfeitamente com estimativas derivadas de pesquisas anteriores. Algumas diferenças relacionadas à idade e ao sexo foram obtidas, mas não afetaram de forma significativa as estimativas dos níveis gerais de transliminaridade. Zangari e coautores concluíram que a pesquisa apoiava a robustez das atuais medições de transliminaridade, servindo como guia para avançar em pesquisas transculturais adicionais na compreensão da transliminaridade [12].

 

Psicologia e Religião

Zangari e coautores compuseram um guia prático em português, em formato de perguntas e respostas, sobre a relação entre psicologia e religião, incluindo os aspectos históricos das experiências religiosas. As perguntas baseavam-se naquelas levantadas por pessoas que buscavam compreender suas experiências anômalas.

Como tais experiências tendem a ser interpretadas em sentido religioso, o objetivo era ajudar os psicólogos a distinguir entre religiosidade e espiritualidade, que se referem ao que dá sentido à vida em vez do mundo espiritual e não necessariamente se relacionam à motivação religiosa ou ao propósito de vida. Esperava-se ainda que uma compreensão de como esses temas estão entrelaçados pudesse aprimorar a prática profissional na psicologia[13].

 

Atitudes Religiosas e Ciência

Em um estudo sobre atitudes religiosas em relação à ciência, Zangari e colegas investigaram seguidores de grupos religiosos brasileiros, sondando seus sentimentos científicos e potenciais influências, como a educação familiar e escolar. Eles realizaram um estudo quantitativo transversal usando a Escala de Crença na Ciência e um questionário original baseado em respostas dadas por 309 adeptos de diferentes afiliações religiosas. Os resultados mostraram uma maior propensão à descrença na ciência do que a encontrada na população em geral, apesar do reconhecimento da importância da ciência para a sociedade e do consenso de que não existe conflito irreconciliável entre ciência e religião. Análises mais exaustivas revelaram diferenças significativas entre afiliações religiosas em seus níveis de afinidade com a ciência[14].

 

Intenção de Cura

Zangari, Machado e o parapsicólogo americano Dean Radin relataram dois experimentos duplo-cegos que exploraram os efeitos da intenção de cura direcionada a uma pessoa distante. Medições fisiológicas foram realizadas que incluíram a respiração da pessoa distante, frequência cardíaca, volume sanguíneo nas pontas dos dedos e atividade eletrodérmica espontânea. As sessões experimentais foram divididas em 20 ensaios de 'tratamento' de um minuto e controles contrabalançados aleatoriamente.

No primeiro experimento, a influência da influência mental distante de um grupo foi direcionada a participantes isolados a 200 metros de distância. O segundo experimento investigou a capacidade dos médiuns da Umbanda de direcionar suas intenções de cura de São Paulo, Brasil, para voluntários que foram monitorados dois meses antes em Las Vegas (este foi um estudo de cura retroativa que sondou efeitos de cura por deslocamento temporal em vez de em tempo real). Resultados gerais indicaram efeitos marginalmente significativos da influência (p = 0,053) no primeiro experimento e efeitos significativos da influência mental retroativa no segundo experimento (p = 0,013)[15].

 

Experiências Ritualísticas Anômalas

Zangari participou de uma investigação, relatada em um estudo de 2020, sobre os aspectos fenomenológicos das experiências anômalas ocorrendo nos rituais da Umbanda, uma religião brasileira mediúnica. Um foco particular foi comparar as experiências durante rituais envolvendo o uso da Ayahuasca, um enteógeno comumente usado em certas práticas da Umbanda, com rituais onde a Ayahuasca não era usada. Ao contrário do esperado, os achados revelaram semelhanças substanciais entre experiências relatadas com e sem Ayahuasca em contextos mediúnicos. Ambos os grupos de experimentadores notaram semelhanças como diminuição do controle motor voluntário, alterações na memória e percepção, maior comunicabilidade e acessibilidade das experiências, recepção de informações anômalas e sensibilidade interpessoal aumentada. Esses achados sugerem que a própria prática da Umbanda é suficiente para desbloquear experiências incomuns que, de outra forma, seriam causadas pela ingestão da Ayahuasca[16].

 

Carlos Alvarado

Zangari e Fatima Machado apresentam uma visão geral da contribuição para a pesquisa psi brasileira feita por Carlos Alvarado, um prolífico pesquisador paranormal falecido em 2021 e com quem o casal mantinha uma conexão pessoal e profissional substancial desde a década de 1990, junto com sua esposa Nancy L. Zingrone, também uma pesquisadora de destaque. A colaboração facilitou a troca de ideias e experiências que influenciaram profundamente a trajetória da pesquisa psi no Brasil, culminando na criação do Laboratório InterPsi de Estudos Psicossociais na Universidade de São Paulo. A proficiência linguística de Alvarado em português, francês, italiano, espanhol e inglês permitiu-lhe compreender as diversas "culturas psi" em diferentes regiões, eliminando barreiras linguísticas. Suas iniciativas educacionais no Brasil, que incluíram cursos, palestras e encontros de pesquisa, tiveram papel crucial na institucionalização da pesquisa psi no âmbito acadêmico.

 

Obras Citadas

§  Goldberg, L., & Zangari, W. (2018). Materialidades da poética digital: Lalangue e a escritura de Wilton de Azevedo. Texto Digital 14, 55-64.

§  Lange, R., Maraldi, E., Zangari, W., Corredato, V., Machado, F., & Alvarado, C.S. (2018). A cross-cultural validation of the revised transliminality scale in Brazil. Psychology of Consciousness: Theory, Research, and Practice 5, 414-24.

§  Machado, F.R. (2010). Experiências anômalas (extra-sensório-motoras) na vida cotidiana e sua associação com crenças, Atitudes e Bem-Estar Subjetivo. Boletim – Academia Paulista de Psicologia 30, 462-83.

§  Machado, F.R., Mendonça, T., Huang, M., Zangari, W., & Maraldi, E. (2019). A ciência dos religiosos: Um estudo quantitativo exploratório. Interação em Psicologia 23/2, 243-55.

§  Machado, F.R., & Zangari, W. (2001). Parapsychology in Brazil: A science entering adulthood. Journal of Parapsychology 65, 351-56.

§  Maraldi, E.O., da Silva Costa, A., Cunha, A., Rizzi, A., Flores, D., Hamazaki, E., Machado, F., Medeiros, G., Queiroz, G., Martinez, M., Filho, P., Rêgo, R., Santos, R., Siqueira, S., & Zangari, W. (2020). Anomalous and dissociative experiences in a religious context: An autoethnographic approach. Revista da Abordagem Gestaltica 26, 147-61.

§  Maraldi, E.O., & Zangari, W. (2012). Funções projetivas e terapêuticas das práticas dissociativas em contexto religioso. Boletim Academia Paulista de Psicologia 32, 424-52.

§  Maraldi, E.O., & Zangari, W. (2015). ‘Em transe’: um estudo quali-quantitativo sobre o papel das experiências dissociativas e somatoformes nas crenças e rituais religiosos. Boletim Academia Paulista de Psicologia 35, 382-408.

§  Martins, L., Zangari, W., & Medeiros, G. (2017). Contemporaneity and anomalous experiences: Psychosocial dimensions of culturally frontier experiences. Revista da Abordagem Gestaltica 23, 137-49.

§  Radin, D.I., Machado, F.R., & Zangari, W. (2002). Effects of distant healing intention through time & space: Two exploratory studies. Subtle Energies and Energy Medicine Journal 11, 34-58.

§  Zangari, W. (2005). Uma leitura psicossocial do fenômeno da mediunidade de Umbanda. Boletim Academia Paulista de Psicologia 25/3, 70-88.

§  Zangari, W. (2007). Experiências anômalas em médiuns de Umbanda: uma avaliação fenomenológica e ontológica. In Boletim – Academia Paulista de Psicologia 2/7, 67-86.

§  Zangari, W., & Machado, F.R. (2012). The paradoxical disappearance of parapsychology in Brazil. Parapsychology in 25 years. Special edition of the Journal of Parapsychology 76 (December, supplement).

§  Zangari, W., & Machado, F.R. (eds.) (2018). Psicologia & Religião: Histórico, Subjetividade, Saúde Mental, Manejo. Ética Profissional e Direitos Humanos.

§  Zangari, W., & Machado, F.R. (2021). Carlos S. Alvarado’s contribution to psi research in Brazil. Journal of Anomalous Experience and Cognition 1/1-2, 172-75.

§  Zangari, W., & Maraldi, E.O. (2009). Psicologia da mediunidade: do intrapsíquico ao psicossocial. Boletim Academia Paulista de Psicologia 77, 233-52.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Zangari (2005).

[3] Maraldi & Zangari (2012).

[4] Zangari & Maraldi (2009); Maraldi & Zangari (2015)./fn] Em seu estudo pós-doutoral, ele replicou o procedimento experimental de 'habituação precognitiva' desenvolvido por Daryl J Bem em 52 meios do Umbanda, sem obter resultados favoráveis para psi.16Zangari (2007).

[5] Zangari (2005).

[6] Goldberg & Zangari (2018).

[7] Martins et al. (2017).

[8] Zangari & Machado (2012); Machado & Zangari (2001).

[9] Zangari et al. (2019).

[10] Lange et al. (2018).

[11] No contexto da psicologia, transliminality designa a tendência de conteúdos inconscientes, emoções, imagens mentais e associações psicológicas atravessarem o limiar da consciência e chegarem à percepção consciente.(Chat GPT)

[12] Carunchio et al. (2018).

[13] Machado et al. (2019).

[14] Radin et al. (2002).

[15] Maraldi et al. (2020).

[16] Zangari & Machado (2021).

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