Marco Milani
Uma das distorções mais
persistentes da religiosidade é transformar espiritualidade em aparência de
santidade. Em vez de estimular consciência, responsabilidade e transformação
moral, alguns passam a valorizar hábitos exteriores, modos de vestir, formas de
falar e escolhas privadas como sinais de elevação espiritual. Mais grave é
quando dirigentes ou trabalhadores religiosos assumem para si o papel de
determinar como os outros devem viver.
Essa postura é incompatível com
o princípio espírita da liberdade de consciência.
Em O Evangelho Segundo o
Espiritismo, no capítulo XVII, a mensagem “O Homem no Mundo” rejeita a
ideia de uma vida mística afastada da realidade social. O espírita trabalha,
constitui família, administra seus bens, convive socialmente, diverte-se e faz
escolhas próprias da condição humana.
A espiritualização não exige
representar o papel de santo.
O problema moral não está,
necessariamente, em frequentar determinados ambientes, usufruir lazer, possuir
bens, escolher uma forma de vestir ou decidir o que colocar no próprio prato. A
questão está no uso da liberdade, no respeito ao próximo e na responsabilidade
pelos próprios atos.
Essa distinção deveria ser
elementar nos centros espíritas.
O dirigente pode organizar a
instituição, estabelecer regras para suas atividades e exigir dos trabalhadores
o cumprimento de compromissos assumidos. Mas autoridade administrativa não
significa autoridade sobre consciências. O dirigente espírita não é diretor da
vida privada dos colaboradores e frequentadores.
Por isso, é especialmente
inadequado quando alguém se sente autorizado a interrogar ou censurar a vida
privada de alguém “em nome do Espiritismo”.
Esse comportamento é
contraditório quando parte de quem afirma defender liberdade e fraternidade.
Vigiar o outro pode revelar justamente aquilo que o Espiritismo recomenda
combater: orgulho, presunção moral e intolerância.
Em O Livro dos Espíritos,
nas questões 836 e 837, verificamos que ninguém tem o direito de criar
obstáculos à liberdade de consciência de outra pessoa e, ainda, que constranger
alguém a agir contra aquilo que pensa favorece a hipocrisia.
A advertência é direta. Se uma
pessoa modifica exteriormente sua conduta apenas para evitar censura ou
reprimenda dentro de uma instituição, não houve transformação moral. Houve
submissão social.
Kardec também afirma que a
convicção não se impõe. O papel de quem esclarece é apresentar princípios,
argumentos e consequências. A decisão pertence ao indivíduo.
Isso não significa relativismo
moral. Liberdade de consciência não quer dizer que todas as ações sejam
equivalentes. O Espiritismo oferece critérios para a conduta: justiça,
caridade, responsabilidade, respeito ao próximo e combate ao egoísmo e ao
orgulho. Mas existe enorme diferença entre orientar e controlar.
A exigência moral deveria
dirigir-se prioritariamente a nós mesmos. Para os outros, deveriam prevalecer
respeito, compreensão e persuasão.
Infelizmente, algumas
comunidades religiosas fazem o contrário. Demonstram tolerância com as próprias
imperfeições e rigor na fiscalização dos hábitos alheios. Assim nasce a falsa
santidade: cria-se um modelo exterior de pessoa espiritualizada e passa-se a
medir os outros por ele.
Uma pessoa pode falar
suavemente, aparentar fraternidade e ser profundamente intolerante. Pode seguir
normas sociais e alimentar orgulho, vaidade ou desejo de domínio. Pode vigiar
as ações alheias e descuidar da própria agressividade.
Kardec oferece outro critério:
reconhece-se o verdadeiro espírita por entender os princípios e valores
doutrinários e colocá-los em prática pela transformação moral e pelos esforços
para domar as más inclinações. O foco está no trabalho sobre si mesmo, não na
vigilância sobre os demais.
O centro espírita deve ser
espaço de estudo, reflexão, convivência fraterna e desenvolvimento da autonomia
moral. Não deveria produzir pessoas dependentes da aprovação de dirigentes para
decidir como viver, votar, vestir-se, divertir-se ou alimentar-se.
Dirigentes espíritas possuem
responsabilidades, não superioridade espiritual. Podem coordenar atividades e
oferecer orientação. Não receberam mandato para governar escolhas privadas.
Quem procura o Espiritismo não
entrega sua liberdade moral ao entrar pela porta de um centro. A Doutrina
esclarece. A consciência decide. A pessoa responde por suas preferências e
atos.
O Espiritismo não fabrica santos
aparentes. Contribui para formar pessoas mais conscientes, responsáveis e
moralmente melhores.
E quem realmente compreende a
liberdade de consciência deveria preocupar-se menos com a vida dos outros e
muito mais com o governo de si mesmo.

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