terça-feira, 18 de agosto de 2026

CONVERSAS FAMILIARES DE ALÉM-TÚMULO – Sra. Ida Pfeiffer, Célebre Viajante[1]

 

Ida Pfeiffer


Allan Kardec

 

(Sociedade, 7 de setembro de 1859)

 

O relato seguinte é extraído da Segunda viagem ao redor do mundo, da Sra. Ida Pfeiffer, página 345.

Considerando que estou a falar de coisas muito estranhas, é preciso que faça menção de um acontecimento enigmático que se passou há vários anos em Java e que causou tanta sensação que chegou a ponto de chamar a atenção do governo.

Na residência de Chéribon havia uma casinha, na qual, segundo dizia o povo, apareciam Espíritos. Ao anoitecer, choviam pedras de todos os lados no quarto e por todos os lados cuspiam siri[2]. Tanto as pedras quanto as cuspinhadas caíam muito perto das pessoas que se encontravam no aposento, sem, contudo, atingi-las ou feri-las. Parece que tudo se dirigia principalmente contra uma criança. Tanto se falou desse caso inexplicável que o governo holandês finalmente encarregou um oficial superior, de sua confiança, para o examinar. Este postou em torno da casa homens seguros e fiéis, com a ordem de não permitirem a entrada ou a saída de quem quer que fosse. Examinou tudo escrupulosamente e, tomando em seu colo a criança designada, sentou-se no quarto fatal. Ao anoitecer, como de costume, começou a chuva de pedras e de siri: tudo caía perto do oficial e da criança, sem os atingir.

Examinaram novamente cada recanto, cada buraco, mas nada descobriram. O oficial não compreendeu patavina. Mandou reunir as pedras, marcá-las e escondê-las num local bem afastado. Foi tudo em vão: as mesmas pedras caíram novamente no aposento, à mesma hora. Finalmente, para pôr termo a essa história inconcebível, o governador mandou demolir a casa.

A pessoa que colheu esse fato, em 1853, era uma mulher verdadeiramente superior, não tanto por sua instrução e talento, senão pela incrível energia de seu caráter. À parte essa ardente curiosidade e essa coragem indômita, que dela fizeram a mais extraordinária viajante que jamais existiu, a Sra. Pfeiffer nada tinha de excêntrico. Era mulher de uma piedade suave e esclarecida, tendo dado inúmeras provas de estar longe de ser supersticiosa.

Comprometeu-se a só contar aquilo que ela mesma tivesse visto, ou obtido de fonte segura[3].

 

1. Evocação da Sra. Pfeiffer.

– Eis-me aqui.

2. Estais surpreendida com o nosso apelo e por vos encontrardes entre nós?

– Estou surpreendida com a rapidez de minha viagem.

3. Como fostes prevenida de que desejaríamos falar convosco?

– Fui trazida aqui sem de nada suspeitar.

4. Entretanto, deveríeis ter recebido um aviso qualquer

– Um arrastamento irresistível.

5. Onde estáveis quando vos chamamos?

– Junto a um Espírito que tenho a missão de guiar.

6. Tivestes consciência dos lugares que atravessáveis para vir até aqui, ou aqui vos encontrastes subitamente, sem transição?

– Subitamente.

7. Sois feliz como Espírito?

– Sim. Mais feliz do que isso é impossível.

8. De onde vinha esse gosto pronunciado pelas viagens?

– Eu havia sido marinheiro numa vida precedente e o gosto que adquiri pelas viagens naquela existência refletiu-se nesta, malgrado o sexo que eu havia escolhido para me subtrair a isso.

9. Essas viagens contribuíram para o vosso progresso como Espírito?

– Sim, porque as fiz com espírito de observação, que me faltou na existência precedente, onde não me ocupava senão do comércio e das coisas materiais: é por essa razão que imaginava avançar mais em uma vida sedentária. Mas Deus, tão bom e tão sábio em seus desígnios, que não podemos penetrar, permitiu-me utilizasse minhas inclinações em favor do progresso que eu havia solicitado.

10. Das nações que visitastes, qual a que vos pareceu mais adiantada e que vos mereceu a preferência? Não dissestes em vida que colocaríeis certas tribos da Oceania acima das nações civilizadas?

– Era uma ideia errada. Hoje prefiro a França, pois compreendo sua missão e antevejo o seu destino.

11. Que destino prevedes para a França?

– Não vos posso dizer o seu destino; mas sua missão é espalhar o progresso, as luzes e, por conseguinte, o Espiritismo verdadeiro.

12. Em que vos pareciam os selvagens da Oceania mais adiantados que os americanos?

– À parte os vícios vinculados à vida selvagem, neles eu encontrara qualidades sérias e sólidas que não encontrei nos outros.

13. Confirmais o fato que se teria passado em Java e que está relatado em uma de vossas obras?

– Confirmo-o em parte; o caso das pedras marcadas e lançadas novamente merece explicação: eram pedras semelhantes, mas não as mesmas.

14. A que atribuís esse fenômeno?

– Não sabia a que atribui-lo. Eu me perguntava se, de fato, o diabo existia, respondendo a mim mesma: Não; e fiquei nisso.

15. Agora que podeis compreender a causa, poderíeis dizer de onde vinham essas pedras? Eram transportadas ou fabricadas especialmente pelos Espíritos?

– Eram transportadas. Para eles era mais fácil trazê-las do que aglomerá-las.

16. E de onde provinha aquele siri? Era feito por eles?

– Sim; era mais fácil e, além disso, inevitável, pois que lhes seria impossível encontrá-lo já preparado.

17. Qual era o objetivo dessas manifestações?

– Como sempre, chamar a atenção e fazer constatar um fato do qual se devia falar e procurar a explicação.

 

Observação – Alguém faz observar que tal constatação não poderia levar a nenhum resultado sério entre aqueles povos; mas respondem que há um resultado real: pelo relato e pelo testemunho da Sra. Pfeiffer, o mesmo chegou ao conhecimento dos povos civilizados, que o comentam e lhe tiram consequências. Aliás, os holandeses é que foram chamados para constatá-los.

 

18. Deveria haver um motivo especial, sobretudo quanto à criança atormentada por esses Espíritos?

– A criança possuía uma influência favorável, eis tudo, pois pessoalmente não sofreu nenhum toque.

19. Desde que esses fenômenos eram produzidos por Espíritos, por que cessaram quando a casa foi demolida?

– Cessaram porque julgaram inútil continuar; não pergunteis, contudo, se eles teriam podido continuar.

20. Agradecemos por terdes vindo e respondido às nossas perguntas.

– Estou inteiramente às vossas Lordens.



[1] REVISTA ESPÍRITA – dezembro/1859 – Allan Kardec

[2] Preparação que os javaneses mascam continuamente, e que dá à boca e à saliva a cor do sangue.

[3] Ver a Revista de Paris, de 1º de setembro de 1856 e o Dicionário dos Contemporâneos, de Vapereau

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