quinta-feira, 2 de julho de 2026

AGRADAR A DEUS[1]

 


Miramez

 

Sacrifícios

Dar-se-á que alguma vez possam ter sido agradáveis a Deus os sacrifícios humanos praticados com piedosa intenção?

Não, nunca. Deus, porém, julga pela intenção. Sendo ignorantes os homens, natural era que supusessem praticar ato louvável imolando seus semelhantes. Nesses casos, Deus atentava unicamente na ideia que presidia ao ato e não neste. À proporção que se foram melhorando, os homens tiveram que reconhecer o erro em que laboravam e que reprovar tais sacrifícios, com que não podiam conformar-se as ideias de Espíritos esclarecidos. Digo - esclarecidos, porque os Espíritos tinham então a envolvê-los o véu material; mas, por meio do livre-arbítrio, possível lhes era vislumbrar suas origens e fim, e muitos, por intuição, já compreendiam o mal que praticavam, se bem que nem por isso deixassem de praticá-lo, para satisfazer às suas paixões.

Questão 670 / O Livro dos Espíritos

 

Deus criou os Espíritos simples e ignorantes, contudo, colocou em cada criatura todos os valores espirituais para serem acordados e é no desenvolvimento desses valores que passamos por processos difíceis de serem vencidos. Toda subida exige esforço, e o Senhor já nos fez assim para nos dar oportunidade de conquistar, na nossa vida transitória, a nossa felicidade. Deus nos fez para o bem e somente nos deseja o amor, porém, o que passamos para alcançar essa estabilidade, são testes os quais julgamos ser infelicidade, dado o nosso pouco entendimento.

Quando usamos expressão que Deus não quer isso ou aquilo, nos esquecemos de que Ele somente não quer o que não existe. O Senhor Todo Poderoso deixa que aconteça tudo o que a história nos revela, para educação da humanidade, de modo que todos os povos encontrem a si mesmos, sentindo a necessidade de viver somente no bem, experimentando o que chamamos de mal.

A linguagem humana é bastante pobre para que tudo, todas as nuances das leis de Deus, sejam explicadas. Muita coisa é deixada para amanhã, depois que o progresso nos deixar saldos elevados em todas as direções. É por esse progresso que Deus falará mais claramente aos que estão preparados para ouvir.

Os seres humanos, num passado não muito distante, passaram a sacrificar seus próprios irmãos, oferecendo aos deuses esse sacrifício, para acalmar sua fúria - como poderá um deus estar furioso,  depois de praticarem o sacrifício dos animais. A inferioridade queria sangue; correndo sangue, os deuses se acalmariam. Se tudo o que acontece é com a permissão do Deus único e soberano, o que devemos pensar nisso? Ele permitiu, e tudo que permite servir-nos-á de lições. O Livro dos Médiuns, em mensagem dada por Erasto, discípulo de Paulo de Tarso, no capítulo XXII, nos diz:

Deus colocou os animais ao vosso lado como auxiliares, para vos alimentarem, para vos vestirem, para vos secundarem.

Se a carne precisa de carne, como nos fala Erasto, necessário é matar para comer, e encontramos esse ato por todo o reino animal: os peixes alimentando-se dos seus irmãos, assim também os animais das matas e os pássaros. Quem ensinou ao tigre matar e comer a gazela? Quem ensinou ao gavião a caçar as aves indefesas para se alimentarem? E a cobra em busca do batráquio? Certas tribos de índios comiam carne humana. Devemos meditar, para então entendermos o que pode ser a vida e como ela se processa para o devido despertamento dos valores do Espírito. O "não matarás", estabelecido por lei, funciona na sua integralidade apenas para os Espíritos já evoluídos, despertados e que trabalham com amor.

E as guerras e os vícios humanos, que muitos chamam de hábitos? A mente em desenvolvimento passa por tudo isso, e Deus criou o Espírito para passar por tudo isso. Sendo onisciente, Ele sabia do modo que o ser humano e os animais iriam usar seus instintos e sua inteligência. Se Ele permitiu, é porque tem de ser assim, e esta forma é que é a melhor maneira para nós, para a nossa felicidade.

Se a carne já não te faz bem, é sinal de que deves deixá-la, e amar mais os animais, de modo a colocá-los como sendo os nossos irmãos, pois, somos filhos do mesmo Pai. Ainda existe muito o que estudar sobre as leis de Deus, sem o fanatismo que nos leva à cegueira.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 14 – João Nunes Maia

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