Miramez
Sacrifícios
Dar-se-á que alguma vez possam ter sido agradáveis a Deus
os sacrifícios humanos praticados com piedosa intenção?
Não, nunca. Deus, porém, julga pela intenção. Sendo
ignorantes os homens, natural era que supusessem praticar ato louvável imolando
seus semelhantes. Nesses casos, Deus atentava unicamente na ideia que presidia
ao ato e não neste. À proporção que se foram melhorando, os homens tiveram que
reconhecer o erro em que laboravam e que reprovar tais sacrifícios, com que não
podiam conformar-se as ideias de Espíritos esclarecidos. Digo - esclarecidos,
porque os Espíritos tinham então a envolvê-los o véu material; mas, por meio do
livre-arbítrio, possível lhes era vislumbrar suas origens e fim, e muitos, por
intuição, já compreendiam o mal que praticavam, se bem que nem por isso
deixassem de praticá-lo, para satisfazer às suas paixões.
Questão 670 / O Livro dos Espíritos
Deus criou os Espíritos simples
e ignorantes, contudo, colocou em cada criatura todos os valores espirituais
para serem acordados e é no desenvolvimento desses valores que passamos por
processos difíceis de serem vencidos. Toda subida exige esforço, e o Senhor já
nos fez assim para nos dar oportunidade de conquistar, na nossa vida
transitória, a nossa felicidade. Deus nos fez para o bem e somente nos deseja o
amor, porém, o que passamos para alcançar essa estabilidade, são testes os
quais julgamos ser infelicidade, dado o nosso pouco entendimento.
Quando usamos expressão que Deus
não quer isso ou aquilo, nos esquecemos de que Ele somente não quer o que não
existe. O Senhor Todo Poderoso deixa que aconteça tudo o que a história nos
revela, para educação da humanidade, de modo que todos os povos encontrem a si
mesmos, sentindo a necessidade de viver somente no bem, experimentando o que
chamamos de mal.
A linguagem humana é bastante
pobre para que tudo, todas as nuances das leis de Deus, sejam explicadas. Muita
coisa é deixada para amanhã, depois que o progresso nos deixar saldos elevados
em todas as direções. É por esse progresso que Deus falará mais claramente aos
que estão preparados para ouvir.
Os seres humanos, num passado
não muito distante, passaram a sacrificar seus próprios irmãos, oferecendo aos
deuses esse sacrifício, para acalmar sua fúria - como poderá um deus estar
furioso, depois de praticarem o
sacrifício dos animais. A inferioridade queria sangue; correndo sangue, os
deuses se acalmariam. Se tudo o que acontece é com a permissão do Deus único e
soberano, o que devemos pensar nisso? Ele permitiu, e tudo que permite servir-nos-á
de lições. O Livro dos Médiuns, em mensagem dada por Erasto, discípulo
de Paulo de Tarso, no capítulo XXII, nos diz:
Deus colocou os animais ao vosso lado como auxiliares,
para vos alimentarem, para vos vestirem, para vos secundarem.
Se a carne precisa de carne,
como nos fala Erasto, necessário é matar para comer, e encontramos esse ato por
todo o reino animal: os peixes alimentando-se dos seus irmãos, assim também os
animais das matas e os pássaros. Quem ensinou ao tigre matar e comer a gazela?
Quem ensinou ao gavião a caçar as aves indefesas para se alimentarem? E a cobra
em busca do batráquio? Certas tribos de índios comiam carne humana. Devemos
meditar, para então entendermos o que pode ser a vida e como ela se processa
para o devido despertamento dos valores do Espírito. O "não matarás",
estabelecido por lei, funciona na sua integralidade apenas para os Espíritos já
evoluídos, despertados e que trabalham com amor.
E as guerras e os vícios
humanos, que muitos chamam de hábitos? A mente em desenvolvimento passa por
tudo isso, e Deus criou o Espírito para passar por tudo isso. Sendo onisciente,
Ele sabia do modo que o ser humano e os animais iriam usar seus instintos e sua
inteligência. Se Ele permitiu, é porque tem de ser assim, e esta forma é que é
a melhor maneira para nós, para a nossa felicidade.
Se a carne já não te faz bem, é
sinal de que deves deixá-la, e amar mais os animais, de modo a colocá-los como
sendo os nossos irmãos, pois, somos filhos do mesmo Pai. Ainda existe muito o
que estudar sobre as leis de Deus, sem o fanatismo que nos leva à cegueira.
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