domingo, 4 de outubro de 2015

Espíritos Familiares


Carta de Allan Kardec para esposa é traduzida pela primeira vez[1]






Evandro Noleto Bezerra - enoletob@gmail.com - 26/08/2015

Nos anos de 1860, 1861, 1862, 1864 e 1867, Allan Kardec, aproveitando as férias da Sociedade Espírita de Paris, deslocou-se da capital francesa para visitar, no interesse do Espiritismo, algumas cidades do interior da França e da Bélgica.
Conforme ele nos conta em um opúsculo[2] de sua lavra, tais viagens tinham o objetivo de dar instruções onde elas se fizessem necessárias e instruí-los acerca do progresso da Doutrina Espírita nas regiões visitadas. O codificador queria ver as coisas com seus próprios olhos, a fim de julgar do estado real da Doutrina e a maneira pela qual era compreendida e praticada; estudar as causas locais favoráveis ou desfavoráveis ao seu desenvolvimento, sondar as opiniões, apreciar os efeitos da oposição e da crítica. Desejava, acima de tudo, apertar as mãos dos confrades e exprimir-lhes pessoalmente sua mui sincera e viva simpatia, em retribuição às tocantes provas de amizade que lhe davam em suas cartas. Enfim, testemunhar gratidão e admiração a pioneiros que não mediam esforços nem sacrifícios para que a revelação nova se difundisse por toda parte.
Allan Kardec aproveitava o clima ameno dos meses de agosto e setembro para empreender essas viagens. Até onde sabemos, com exceção da realizada em 1867, quando temos notícias do casal em Tours[3], Amélie Boudet permanecia em Paris enquanto o marido se deslocava pelo interior do país. Correspondiam-se por cartas, uma das quais temos a satisfação de traduzir, graças ao empenho do confrade Charles Kempf, que a copiou do francês e no-la enviou.
Eis, na íntegra, o seu conteúdo, pela primeira vez em língua portuguesa:

Marennes, 8 de outubro de 1862.

Minha boa Amélie,
Embora nada tenha de particular a te contar, aproveito uma pequena pausa para te dar notícias, que, aliás, são sempre boas, visto que continuo perfeitamente bem.
Cheguei ontem às 18 horas. O Sr. Blanchard veio buscar-me de carro à descida do vapor. Mal tive tempo de jantar antes de comparecer à reunião, que começou às 20h30 e se prolongou até às 23h30. Se eu não a houvesse dado por encerrada, ninguém teria saído dali.
Havia cerca de 60 pessoas, incluindo cinco habitantes de Méchey [Meschers-sur-Gironde?] dentre os quais o tabelião Drouhet, um de nossos assinantes. Viajaram oito horas para chegar a Marennes, e, como tivessem compromisso no dia seguinte, retornaram a uma hora da madrugada. É a isso que se pode chamar zelo, fé, como a confirmar o que diziam da facilidade com que o Espiritismo se espalha na região da Charente [Poitou-Charentes, sudoeste da França].
Fui acolhido com muita simpatia. Hoje vou almoçar na casa da senhora em que ocorreu a reunião. Excelente médium, sofre, da mesma forma que Anaïs, de uma dor no pé atribuída a uma antiga entorse, mal para o qual declaram os médicos não saber o que fazer, pois os meios utilizados para tratá-la só fizeram agravar a moléstia. De algum tempo para cá, ela segue as prescrições de seu guia espiritual e está melhor. Não sofreu tanto como Anaïs, porém, mal consegue dar alguns passos em seu quarto. Pobre Anaïs, como a lamento e como sinto por sua família! Recomende-me a eles. Parto depois do meio-dia para Rochefort. Amanhã, dia 9, estarei em Saint Jean d’Angély, onde sou aguardado com impaciência, conforme me escreveu de Bordeaux o presidente da sociedade espírita. Por certo, aí não serei menos bem recebido do que alhures. Se minha viagem é cansativa, posso dizer, do ponto de vista da satisfação, que nada tem deixado a desejar. É uma série contínua das mais tocantes demonstrações de simpatia. E nem falo dos discursos; dariam um volume.
Adeus, boa Amélie, deixo a pena porque vêm buscar-me para o almoço. Escreverei de Angoulême para te avisar a hora da minha chegada.
Esqueci-me de falar que as pessoas da casa na qual vou almoçar disseram-me que se sentiriam encantadas em te conhecer e muito felizes se me acompanhasses na próxima viagem. Saúdam-te em meu nome, assim como à esposa de…

[Assinado] Allan Kardec

[P. S.] Rogo transmitas aos membros da Sociedade [Parisiense de Estudos Espíritas] quanto lamento não ter podido retornar a Paris para participar das primeiras sessões; o interesse do Espiritismo me reterá alguns dias ainda longe de meus colegas. Que aceitem minhas desculpas…

Estas cartas de Allan Kardec a Amélie Boudet são mais comuns do que se pensa. Reformador já publicou uma delas, datada de setembro de 1863 até então inédita no Brasil. Nessa ocasião, ele se encontrava recolhido em seu retiro de Sainte-Adresse, nas praias da Normandia, envolvido com a preparação, em segredo, da edição princeps da “Imitação do evangelho segundo o espiritismo”[4], que viria a lume no ano seguinte.


[2] KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862 e outras viagens de Kardec. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2007. pt. Viagem Espírita em 1862, cap. Impressões Gerais, p. 46 e 47.
[3] SAUSSE, Henri. Biografia de Allan Kardec. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2012. Prefácio de Léon Denis à edição de 1927, p. 13.
[4] KEMPF, Charles. Como Allan Kardec preparou O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Reformador, ano 132, n. 2.224, p. 17(399)-20(402), jul. 2014.

sábado, 3 de outubro de 2015

Vamos combater nossos vícios


Restabelecendo o equilíbrio nas relações corpo-espírito[1]




Entre duas formas de exagero, a compreensão espírita – Charlatanismo e superstições no passado e no presente – Desenvolvimento cíclico da mente humana.

A natureza humana é um conjunto de ações e reações espirituais e materiais. Interpretá-la apenas através de um dos seus aspectos é cair fatalmente no erro. De um lado, temos a alma, o espírito encarnado, que é o senhor e o diretor do corpo. De outro lado, o organismo físico, na plenitude da sua vitalidade animal.
Na antiguidade, e particularmente na Idade Média, a mentalidade popular, apegada ao sentimento do maravilhoso, atribuía tudo ao espírito, subestimando a ação do corpo. Vieram daí os exageros de toda espécie, criando superstições e temores, de que se originaram muitas crenças, rituais e dogmas religiosos.
A partir do Renascimento, o problema foi praticamente invertido nos seus termos. O acurado racionalismo medieval explodiu no Renascimento em novas formas de interpretação da vida. A filosofia deixou de ser a antiga serva da teologia, e a revolta intelectual contra a tradição e a autoridade abalou profundamente a mentalidade popular. Os homens passaram a desconfiar das explicações místicas, a repelir superstições, e chegaram, no mundo moderno, ao exagero oposto, dando supremacia ao corpo e negando ou subestimando a ação do espírito.
Foi exatamente quando mais se acentuava essa nova forma de exagero, de parcialidade, que o Espiritismo surgiu no mundo, dando pleno cumprimento à promessa do Consolador, formulada por Jesus. A função do Espiritismo é restabelecer o equilíbrio, conduzindo o homem à verdade. Sua advertência pode ser interpretada assim: “Nem tanto à terra, nem tanto ao mar”. O Espiritismo demonstrou, cientificamente, servindo-se das mesmas armas do materialismo – como disse Kardec – que a existência da alma não era uma superstição. E provou, de maneira insofismável, que a ação dos espíritos desencarnados sobre os homens é tão real, como a ação dos raios e emanações invisíveis da natureza.
No seu maravilhoso livro A Gênese - os Milagres e as Predições, segundo o Espiritismo, Kardec analisa a razão por que o Espiritismo só podia aparecer em meados do século passado, e conclui: “O Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos dois elementos constitutivos do universo, toca forçosamente na maioria das ciências, e não podia surgir senão depois da elaboração delas. Surgiu, pois, pela própria força das coisas, diante da impossibilidade de tudo se explicar somente com a ajuda das leis da matéria”.
Dessa maneira, podemos apresentar a evolução da mente humana como um perfeito processo cíclico: partindo da aceitação intuitiva da ação do mundo invisível sobre o homem, a mente passa a negar esse fato num estágio superior do seu desenvolvimento para, afinal, voltar a admitir a verdade primitivamente intuída, mas já agora através da razão amadurecida e das provas experimentais.
O charlatanismo e a superstição figuram em larga escala no processo de formação das religiões antigas e modernas. São explorações da credulidade, devidas à imperfeição das criaturas humanas. Hoje, existe também o charlatanismo na ciência, e existem formas de superstição nascidas de teorias científicas.
Uma dessas formas, e das mais nefastas, é a que considera os desequilíbrios psíquicos como simples manifestações de desordens orgânicas.
Essa superstição se origina da negação do elemento espiritual, considerado como produto ou secreção da matéria, e conduz à destruição de todo e qualquer sentimento religioso. Contra essa forma moderna de superstição, que é o inverso das superstições do passado, só um remédio se mostra realmente eficaz: a demonstração científica da realidade do espírito. Essa demonstração é feita pelo Espiritismo e pelas teorias científicas dele decorrentes: a metapsíquica, a chamada ciência psíquica inglesa, e a parapsicologia.
As ciências biológicas atuais, resultantes da revolta intelectual do Renascimento, mostram-se impregnadas da superstição materialista. Mas a contribuição espírita vem ganhando terreno nos meios culturais do presente, como se vê no crescente interesse pela parapsicologia em todo o mundo, e mesmo nos meios religiosos mais adiantados, onde já se compreende que o Espiritismo traz uma nova mensagem para o mundo moderno.


[1] O Mistério do Bem e do Mal – J. Herculano Pires

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Eu, Eu mesma e Eu espírito


Cada pessoa tem 'nuvem' particular de micróbios, diz pesquisa[1]





James Gallagher Editor de Saúde da BBC News - 23 setembro 2015
 

Neste exato momento, você está envolto por uma "nuvem" única, formada por milhares de bactérias, suas próprias bactérias, segundo um estudo feito por cientistas da Universidade do Oregon, nos Estados Unidos.
Ao entrar na nuvem de uma outra pessoa, você é atingido por uma "chuva" de bactérias em sua pele e vai respirá-las, até chegarem ao seu pulmão.
Essa descrição está em um estudo, divulgado na publicação científica PeerJ, que analisou 11 pessoas e concluiu que é possível identificá-las pelos micróbios.
Outras pesquisas já haviam mostrado a extensão do nosso microbioma – conjunto de bactérias, vírus e fungos no nosso corpo.
Esse grupo pode ser transmitido por meio de contato direto, pelo ar ou por células mortas presentes na poeira.

Você pode dar um passo para trás, por favor?
Os participantes do estudo permaneceram em uma câmara fechada por quatro horas, onde o ar era bombardeado para dentro por meio de um filtro, para evitar contaminação.
Já os filtros dentro do cômodo coletavam amostras da "nuvem" das pessoas. E cientistas então analisaram as bactérias coletadas.
"Acreditamos que vamos ser capazes de detectar o microbioma humano no ar que rodeia uma pessoa, mas ficamos surpresos em descobrir que podíamos identificar a maioria das pessoas do grupo apenas pelas amostras da nuvem de micróbios", disse um dos pesquisadores, Dr. James Meadow.
O microbiólogo Ben Neuman, da Universidade de Reading, disse à BBC: "Você pode sentir o cecê ('cheiro' de corpo) de uma pessoa e ainda sabe que todas aquelas coisas estão rastejando em você – que maravilha!"
Segundo ele, essa "descoberta nojenta" faz sentido, já que há uma crescente percepção do microbioma, e mostra que, ao trocarmos bactérias, "estamos mudando um ao outro".
Para Neuman, seria útil saber quais bactérias podem "voar" pelo ar. Mas ele deixa claro que não há com o que se preocupar.

Um banho extra?
O microbiólogo argumenta que não é o caso de se tomar mais banhos por dia.
"Não ajudaria. Precisamos apenas superar isso e seguir adiante."
Na nuvem, há grupos de bactérias como a Streptococcus, que é comum em bocas, e outras que são encontradas em peles, como a Propionibacterium e Corynebacterium.
Os pesquisadores afirmam que essa combinação pode ter uma "aplicação forense", para se detectar se alguém passou por um determinado local.
No entanto, ainda não está claro o quanto o microbioma de cada um pode mudar ao longo do tempo.
Adam Altrichter, um dos pesquisadores do projeto disse à BBC: "Precisamos entender que não somos seres assépticos e isso é algo completamente natural e saudável".
Segundo ele, o tamanho das nuvens ainda não foi medido, mas é estimado que ela se estenda por 30 centímetros.