domingo, 4 de outubro de 2015
Carta de Allan Kardec para esposa é traduzida pela primeira vez[1]
Nos anos de 1860, 1861, 1862,
1864 e 1867, Allan Kardec, aproveitando as férias da Sociedade Espírita de
Paris, deslocou-se da capital francesa para visitar, no interesse do
Espiritismo, algumas cidades do interior da França e da Bélgica.
Conforme ele nos conta em um
opúsculo[2]
de sua lavra, tais viagens tinham o objetivo de dar instruções onde elas se
fizessem necessárias e instruí-los acerca do progresso da Doutrina Espírita nas
regiões visitadas. O codificador queria ver as coisas com seus próprios olhos,
a fim de julgar do estado real da Doutrina e a maneira pela qual era
compreendida e praticada; estudar as causas locais favoráveis ou desfavoráveis
ao seu desenvolvimento, sondar as opiniões, apreciar os efeitos da oposição e
da crítica. Desejava, acima de tudo, apertar as mãos dos confrades e
exprimir-lhes pessoalmente sua mui sincera e viva simpatia, em retribuição às
tocantes provas de amizade que lhe davam em suas cartas. Enfim, testemunhar
gratidão e admiração a pioneiros que não mediam esforços nem sacrifícios para
que a revelação nova se difundisse por toda parte.
Allan Kardec aproveitava o clima
ameno dos meses de agosto e setembro para empreender essas viagens. Até onde
sabemos, com exceção da realizada em 1867, quando temos notícias do casal em
Tours[3],
Amélie Boudet permanecia em Paris enquanto o marido se deslocava pelo interior
do país. Correspondiam-se por cartas, uma das quais temos a satisfação de
traduzir, graças ao empenho do confrade Charles Kempf, que a copiou do francês
e no-la enviou.
Eis, na íntegra, o seu conteúdo,
pela primeira vez em língua portuguesa:
Marennes, 8 de outubro
de 1862.
Minha boa Amélie,
Embora nada tenha de particular a te contar, aproveito uma pequena
pausa para te dar notícias, que, aliás, são sempre boas, visto que continuo
perfeitamente bem.
Cheguei ontem às 18 horas. O Sr. Blanchard veio buscar-me de carro à
descida do vapor. Mal tive tempo de jantar antes de comparecer à reunião, que
começou às 20h30 e se prolongou até às 23h30. Se eu não a houvesse dado por
encerrada, ninguém teria saído dali.
Havia cerca de 60 pessoas, incluindo cinco habitantes de Méchey
[Meschers-sur-Gironde?] dentre os quais o tabelião Drouhet, um de nossos
assinantes. Viajaram oito horas para chegar a Marennes, e, como tivessem
compromisso no dia seguinte, retornaram a uma hora da madrugada. É a isso que
se pode chamar zelo, fé, como a confirmar o que diziam da facilidade com que o
Espiritismo se espalha na região da Charente [Poitou-Charentes, sudoeste da
França].
Fui acolhido com muita simpatia. Hoje vou almoçar na casa da senhora em
que ocorreu a reunião. Excelente médium, sofre, da mesma forma que Anaïs, de
uma dor no pé atribuída a uma antiga entorse, mal para o qual declaram os
médicos não saber o que fazer, pois os meios utilizados para tratá-la só
fizeram agravar a moléstia. De algum tempo para cá, ela segue as prescrições de
seu guia espiritual e está melhor. Não sofreu tanto como Anaïs, porém, mal
consegue dar alguns passos em seu quarto. Pobre Anaïs, como a lamento e como
sinto por sua família! Recomende-me a eles. Parto depois do meio-dia para
Rochefort. Amanhã, dia 9, estarei em Saint Jean d’Angély, onde sou aguardado
com impaciência, conforme me escreveu de Bordeaux o presidente da sociedade
espírita. Por certo, aí não serei menos bem recebido do que alhures. Se minha
viagem é cansativa, posso dizer, do ponto de vista da satisfação, que nada tem
deixado a desejar. É uma série contínua das mais tocantes demonstrações de
simpatia. E nem falo dos discursos; dariam um volume.
Adeus, boa Amélie, deixo a pena porque vêm buscar-me para o almoço.
Escreverei de Angoulême para te avisar a hora da minha chegada.
Esqueci-me de falar que as pessoas da casa na qual vou almoçar
disseram-me que se sentiriam encantadas em te conhecer e muito felizes se me
acompanhasses na próxima viagem. Saúdam-te em meu nome, assim como à esposa de…
[Assinado] Allan
Kardec
[P. S.] Rogo
transmitas aos membros da Sociedade [Parisiense de Estudos Espíritas] quanto
lamento não ter podido retornar a Paris para participar das primeiras sessões;
o interesse do Espiritismo me reterá alguns dias ainda longe de meus colegas.
Que aceitem minhas desculpas…
Estas cartas de Allan Kardec a
Amélie Boudet são mais comuns do que se pensa. Reformador já publicou uma
delas, datada de setembro de 1863 até então inédita no Brasil. Nessa ocasião,
ele se encontrava recolhido em seu retiro de Sainte-Adresse, nas praias da
Normandia, envolvido com a preparação, em segredo, da edição princeps da “Imitação
do evangelho segundo o espiritismo”[4],
que viria a lume no ano seguinte.
[2] KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862 e outras viagens
de Kardec. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2007. pt. Viagem
Espírita em 1862, cap. Impressões Gerais, p. 46 e 47.
[3] SAUSSE, Henri. Biografia de Allan Kardec. Trad. Evandro
Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2012. Prefácio de Léon Denis à edição de
1927, p. 13.
[4] KEMPF, Charles. Como Allan Kardec preparou O evangelho
segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Reformador, ano 132, n.
2.224, p. 17(399)-20(402), jul. 2014.
sábado, 3 de outubro de 2015
Restabelecendo o equilíbrio nas relações corpo-espírito[1]
Entre duas formas de exagero, a compreensão espírita – Charlatanismo e
superstições no passado e no presente – Desenvolvimento cíclico da mente
humana.
A natureza humana é um conjunto
de ações e reações espirituais e materiais. Interpretá-la apenas através de um
dos seus aspectos é cair fatalmente no erro. De um lado, temos a alma, o espírito
encarnado, que é o senhor e o diretor do corpo. De outro lado, o organismo
físico, na plenitude da sua vitalidade animal.
Na antiguidade, e
particularmente na Idade Média, a mentalidade popular, apegada ao sentimento do
maravilhoso, atribuía tudo ao espírito, subestimando a ação do corpo. Vieram
daí os exageros de toda espécie, criando superstições e temores, de que se
originaram muitas crenças, rituais e dogmas religiosos.
A partir do Renascimento, o
problema foi praticamente invertido nos seus termos. O acurado racionalismo medieval
explodiu no Renascimento em novas formas de interpretação da vida. A filosofia
deixou de ser a antiga serva da teologia, e a revolta intelectual contra a
tradição e a autoridade abalou profundamente a mentalidade popular. Os homens
passaram a desconfiar das explicações místicas, a repelir superstições, e
chegaram, no mundo moderno, ao exagero oposto, dando supremacia ao corpo e
negando ou subestimando a ação do espírito.
Foi exatamente quando mais se
acentuava essa nova forma de exagero, de parcialidade, que o Espiritismo surgiu
no mundo, dando pleno cumprimento à promessa do Consolador, formulada por
Jesus. A função do Espiritismo é restabelecer o equilíbrio, conduzindo o homem
à verdade. Sua advertência pode ser interpretada assim: “Nem tanto à terra, nem
tanto ao mar”. O Espiritismo demonstrou, cientificamente, servindo-se das
mesmas armas do materialismo – como disse Kardec – que a existência da alma não
era uma superstição. E provou, de maneira insofismável, que a ação dos
espíritos desencarnados sobre os homens é tão real, como a ação dos raios e
emanações invisíveis da natureza.
No seu maravilhoso livro A
Gênese - os Milagres e as Predições, segundo o Espiritismo, Kardec analisa a
razão por que o Espiritismo só podia aparecer em meados do século passado, e conclui:
“O Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos dois elementos
constitutivos do universo, toca forçosamente na maioria das ciências, e não
podia surgir senão depois da elaboração delas. Surgiu, pois, pela própria força
das coisas, diante da impossibilidade de tudo se explicar somente com a ajuda
das leis da matéria”.
Dessa maneira, podemos
apresentar a evolução da mente humana como um perfeito processo cíclico: partindo
da aceitação intuitiva da ação do mundo invisível sobre o homem, a mente passa
a negar esse fato num estágio superior do seu desenvolvimento para, afinal,
voltar a admitir a verdade primitivamente intuída, mas já agora através da
razão amadurecida e das provas experimentais.
O charlatanismo e a superstição
figuram em larga escala no processo de formação das religiões antigas e
modernas. São explorações da credulidade, devidas à imperfeição das criaturas humanas.
Hoje, existe também o charlatanismo na ciência, e existem formas de superstição
nascidas de teorias científicas.
Uma dessas formas, e das mais
nefastas, é a que considera os desequilíbrios psíquicos como simples
manifestações de desordens orgânicas.
Essa superstição se origina da
negação do elemento espiritual, considerado como produto ou secreção da
matéria, e conduz à destruição de todo e qualquer sentimento religioso. Contra
essa forma moderna de superstição, que é o inverso das superstições do passado,
só um remédio se mostra realmente eficaz: a demonstração científica da
realidade do espírito. Essa demonstração é feita pelo Espiritismo e pelas
teorias científicas dele decorrentes: a metapsíquica, a chamada ciência
psíquica inglesa, e a parapsicologia.
As ciências biológicas atuais,
resultantes da revolta intelectual do Renascimento, mostram-se impregnadas da
superstição materialista. Mas a contribuição espírita vem ganhando terreno nos
meios culturais do presente, como se vê no crescente interesse pela
parapsicologia em todo o mundo, e mesmo nos meios religiosos mais adiantados,
onde já se compreende que o Espiritismo traz uma nova mensagem para o mundo
moderno.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Cada pessoa tem 'nuvem' particular de micróbios, diz pesquisa[1]

James Gallagher Editor de
Saúde da BBC News - 23 setembro 2015
Neste exato momento, você está
envolto por uma "nuvem" única, formada por milhares de bactérias,
suas próprias bactérias, segundo um estudo feito por cientistas da Universidade
do Oregon, nos Estados Unidos.
Ao entrar na nuvem de uma outra
pessoa, você é atingido por uma "chuva" de bactérias em sua pele e
vai respirá-las, até chegarem ao seu pulmão.
Essa descrição está em um
estudo, divulgado na publicação científica PeerJ, que analisou 11 pessoas e
concluiu que é possível identificá-las pelos micróbios.
Outras pesquisas já haviam
mostrado a extensão do nosso microbioma – conjunto de bactérias, vírus e fungos
no nosso corpo.
Esse grupo pode ser transmitido
por meio de contato direto, pelo ar ou por células mortas presentes na poeira.
Você pode dar um
passo para trás, por favor?
Os participantes do estudo
permaneceram em uma câmara fechada por quatro horas, onde o ar era bombardeado
para dentro por meio de um filtro, para evitar contaminação.
Já os filtros dentro do cômodo
coletavam amostras da "nuvem" das pessoas. E cientistas então
analisaram as bactérias coletadas.
"Acreditamos que vamos ser
capazes de detectar o microbioma humano no ar que rodeia uma pessoa, mas
ficamos surpresos em descobrir que podíamos identificar a maioria das pessoas
do grupo apenas pelas amostras da nuvem de micróbios", disse um dos
pesquisadores, Dr. James Meadow.
O microbiólogo Ben Neuman, da
Universidade de Reading, disse à BBC: "Você pode sentir o cecê ('cheiro'
de corpo) de uma pessoa e ainda sabe que todas aquelas coisas estão rastejando
em você – que maravilha!"
Segundo ele, essa
"descoberta nojenta" faz sentido, já que há uma crescente percepção
do microbioma, e mostra que, ao trocarmos bactérias, "estamos mudando um
ao outro".
Para Neuman, seria útil saber
quais bactérias podem "voar" pelo ar. Mas ele deixa claro que não há
com o que se preocupar.
Um banho extra?
O microbiólogo argumenta que não
é o caso de se tomar mais banhos por dia.
"Não ajudaria. Precisamos
apenas superar isso e seguir adiante."
Na nuvem, há grupos de bactérias
como a Streptococcus, que é comum em
bocas, e outras que são encontradas em peles, como a Propionibacterium e Corynebacterium.
Os pesquisadores afirmam que
essa combinação pode ter uma "aplicação forense", para se detectar se
alguém passou por um determinado local.
No entanto, ainda não está claro
o quanto o microbioma de cada um pode mudar ao longo do tempo.
Adam Altrichter, um dos pesquisadores
do projeto disse à BBC: "Precisamos entender que não somos seres
assépticos e isso é algo completamente natural e saudável".
Segundo ele, o tamanho das
nuvens ainda não foi medido, mas é estimado que ela se estenda por 30
centímetros.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
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