Bruce Greyson
Division of Perceptual Studies, Department of
Psychiatry & Neurobehavioral Sciences, University of Virginia School of
Medicine[3]
Resumo
Contexto: Quando algumas pessoas vivenciam um estado próximo
da morte, elas referem uma experiência profunda de transcender o mundo físico,
o que frequentemente as conduz a uma transformação espiritual. Estas
“experiências de quase-morte” (EQMs) são relevantes para os clínicos pois
produzem mudanças nas crenças, nas atitudes e nos valores; podem ser
confundidas com os estados psicopatológicos, embora tenham consequências
diferentes necessitando terapêuticas diferentes; e, por fim, porque podem
ampliar a nossa compreensão em relação ao fenômeno da consciência.
Objetivos: Esta revisão de literatura examina as evidências
relacionadas às explicações que têm sido propostas para o fenômeno das EQMs,
incluindo expectativa, memórias do nascimento, alterações nos gases sanguíneos,
alucinações tóxicas ou metabólicas e modelos neuroquímicos e neuroanatômicos.
Métodos: A literatura sobre EQM dos últimos 30 anos foi
revisada de modo abrangente, incluindo bases de dados médicas, de enfermagem,
psicológicas e sociológicas.
Resultados: As EQMs tipicamente produzem mudanças positivas em
atitudes, crenças e valores, mas também podem levar a problemas interpessoais e
intrapsíquicos. Esses problemas, embora tenham sido comparados a vários transtornos
mentais, diferem desses quadros psicopatológicos. Várias estratégias
terapêuticas têm sido propostas para ajudar indivíduos que apresentam consequências
problemáticas de uma EQM, mas tais intervenções ainda não foram testadas.
Conclusões: A consciência mística e o funcionamento mental
intensificado durante uma EQM, quando o funcionamento cerebral está gravemente
prejudicado, são um desafio para os modelos atuais sobre a interação
cérebro/mente e podem, eventualmente, levar a modelos mais completos para o
entendimento da consciência. (Greyson, B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1;
116-125, 2007)
Palavras-chave: Experiências de quase-morte, transformação
espiritual, diagnóstico diferencial, psicoterapia, consciência.
Abstract
Background: When some people come close to death, they report a
profound experience of transcending the physical world that often leads to
spiritual transformation. These “near-death experiences” (NDEs) are relevant to
clinicians because they lead to changes in beliefs, attitudes, and values; they
may be mistaken for psychopathological states, although producing different
sequelae requiring different therapeutic approaches; and because they may
enhance our understanding of consciousness.
Objectives: This literature review examined the evidences
regarding explanations proposed to explain NDEs, including expectation, birth
memories, altered blood gases, toxic or metabolic hallucinations, and
neurochemical and neuroanatomical models.
Methods: The literature on NDEs of the past 30 years was
examined comprehensively, including medical, nursing, psychological, and
sociological databases.
Results: NDEs typically produce positive changes in
attitudes, beliefs, and values, but may also lead to interpersonal and
intrapsychic problems. These problems have been compared to various mental
disorders, but are distinguishable from them. Various therapeutic strategies
have been proposed to help experiencers with problematic aftereffects, but have
not been tested yet.
Conclusions: The mystical consciousness and higher mental
activity during NDEs, when the brain is severely impaired, challenge current
models of brain/mind interaction and may occasionally lead to more complete
models for the understanding of consciousness. (Greyson, B. / Rev. Psiq. Clín.
34, supl 1; 116-125, 2007)
Key-words: Near-death experience, spiritual transformation,
differential diagnosis, psychotherapy, consciousness.
Quando algumas pessoas vivenciam
um estado próximo do da morte, elas referem uma experiência profunda, na qual
acreditam deixar seus corpos e ingressar em alguma outra esfera ou dimensão,
transcendendo os limites do ego e as fronteiras convencionais do tempo e do
espaço.
Tais experiências foram
descritas esporadicamente na literatura médica desde o século XIX (Greyson,
1998a) e foram identificadas como uma síndrome distinta a mais de um século
atrás (Heim, 1892). Moody introduziu o
termo experiências de quase-morte (EQM) para nomear esse fenômeno e delineou
características específicas, comumente referidas pelos americanos que sobreviveram
a uma EQM. Essas características, que definem uma experiência de quase-morte,
tanto no meio acadêmico como na linguagem popular, incluem inefabilidade, ouvir
o anúncio da própria morte, envolventes sentimentos de paz, ouvir um ruído, ver
um túnel, sentir estar fora do corpo, encontrar-se com seres não-físicos, um
“ser de luz”, realizar uma revisão da vida, retornar à vida, passar pela
experiência de contar aos outros sobre essa vivência, os efeitos dessa vivência
sobre a vida da pessoa que vivenciou uma EQM, ter novas visões da morte e a
comprovação de conhecimentos não adquiridos por meio da percepção normal
(Moody, 1975).
Pesquisas recentes sugerem que
experiências de quase-morte são referidas por 12% a 18% dos sobreviventes de
paradas cardíacas (Greyson, 2003a; Parnia et al., 2001; van Lommel et al.,
2001). Experiências de quase-morte são importantes para os médicos por três razões.
Primeiro, as EQMs desencadeiam mudanças abrangentes e duráveis em relação a
crenças, atitudes e valores dos pacientes. Segundo, podem ser confundidas com
estados psicopatológicos, embora acarretem consequências muito diferentes das
geradas nas experiências psicopatológicas e, por essa razão, requerem
diferentes abordagens terapêuticas. Terceiro, o melhor entendimento dos
mecanismos da EQM pode ampliar a nossa compreensão em relação ao fenômeno da
consciência e da sua relação com a função cerebral (Greyson, 1998b; Parnia e
Fenwick, 2002).
Um dos problemas das pesquisas
sobre EQM é que, com algumas exceções notáveis, quase todos os estudos foram
retrospectivos, o que implica dúvidas sobre a confiabilidade nas memórias
relatadas (French, 2001).
Se os relatos das EQMs forem
adornados ou pouco fiéis ao ocorrido, isto diminuirá sua importância.
Observa-se que as memórias autobiográficas estão sujeitas a distorções ao longo
dos anos e as memórias de eventos incomuns ou traumáticos podem ser
particularmente não confiáveis em consequência das influências emocionais.
Para testar a confiabilidade dos
relatos dos pacientes que passaram por uma EQM, Greyson (2007) administrou a escala
de EQM, uma medida quantitativa, aos mesmos indivíduos em duas ocasiões, com um
intervalo de aproximadamente 20 anos; no início da década de 1980 e, então,
outra vez em 2000. Não foram encontradas evidências de que os indivíduos que
passaram por uma EQM romantizam seus relatos com o passar do tempo.
Os resultados mostraram
justamente o contrário: não se verificou nenhuma diferença estatística
significativa entre as pontuações da escala de EQM nos dois momentos de
aplicação da escala. As mudanças observadas nas pontuações da escala não foram
associadas significativamente com o intervalo do tempo decorrido desde a EQM.
Essa evidência de que os relatos das experiências de EQM são confiáveis ao
longo de um período de duas décadas sustenta a validade dos estudos em que a
EQM ocorreu em anos anteriores à investigação.
Modelos explicativos
Os investigadores identificaram
muito poucos traços ou variáveis pessoais que pudessem predizer se um indivíduo
terá uma EQM ou mesmo que tipo de EQM uma pessoa poderá ter. Os estudos
retrospectivos com pessoas que vivenciaram EQM mostraram-nos que são habitualmente
sujeitos psicologicamente saudáveis que não diferem de grupos controle em
relação a idade, gênero, etnia, religião, religiosidade ou saúde mental (Gabbard
e Twemlow, 1984; Greyson, 1991; Irwin, 1985; Sabom, 1982). Os sujeitos que
vivenciaram uma EQM são indistinguíveis da população geral quanto a inteligência,
neurotização, extroversão, ansiedade traço ou estado e medidas relevantes de
Rorschach[4]
(Locke e Shontz, 1983). Entretanto, alguns estudos sugeriram que pacientes que
passaram por uma EQM tendem a ser sujeitos facilmente hipnotizáveis, a recordar
mais frequentemente seus sonhos, a ter mais facilidade no uso da visualização
de imagens mentais (Irwin, 1985) e, também, a reconhecer de forma significativa
maior número de traumas vividos na infância, assim como as tendências
dissociativas resultantes desses traumas (Ring, 1992), do que outros da
população geral. Não está claro, entretanto, se esses traços pessoais
distintivos resultam da EQM propriamente ou se os indivíduos que têm essas
características são mais propensos a ter uma EQM, quando estão próximos da
morte.
Expectativa
Uma hipótese plausível postula
que as EQMs são produtos da imaginação, construídas pelas próprias expectativas
pessoais e culturais do indivíduo, para que ele se proteja da ameaça iminente
da morte (Greyson, 1983b; Rodin, 1980). As comparações de relatos de EQMs de diferentes
culturas sugerem que as crenças prévias têm alguma influência no tipo de
experiência que uma pessoa relatará, se vivenciar uma situação próxima à morte
(Kellehear, 1993). Entretanto, não está claro se as crenças culturais afetam a
experiência propriamente, ou simplesmente afetam a sua recordação e a sua
reprodução verbal, ou mesmo a classificação dos pesquisadores diante do relato
dos sujeitos. (118 Greyson, B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 116-125, 2007)
Alguns dados contradizem essa
hipótese da expectativa.
Frequentemente indivíduos
relatam EQMs que se opõem a suas expectativas religiosas e pessoais específicas
em relação à morte (Ring, 1984). Além disso, os indivíduos que não tiveram
nenhum conhecimento prévio sobre EQM descrevem o mesmo tipo de experiência que
as pessoas que têm familiaridade com esse fenômeno; também se observou que o
conhecimento prévio sobre EQM não parece influenciar os detalhes das suas
próprias experiências (Greyson, 1991; Greyson e Stevenson, 1980; Ring, 1980;
Sabom, 1982). As experiências que foram relatadas antes de 1975, quando o livro
de Moody primeiro cunhou o termo EQM e tornou o fenômeno bem conhecido, não
diferem daquelas que foram relatadas depois dessa data (Athappilly et al.,
2006).
E as crianças pequenas, que são
as menos prováveis de terem desenvolvido expectativas sobre a morte, relatam uma
EQM com características similares às dos adultos (Bush, 1983; Gabbard e
Twemlow, 1984; Herzog e Herrin, 1985; Morse et al., 1985; Serdahely, 1990). Mesmo
as diferenças transculturais observadas sugerem que não é a experiência nuclear
que difere, mas a maneira que os indivíduos interpretam o que experimentaram.
Parece haver uma experiência
central subjacente que é representado nas imagens, nos conceitos e nos símbolos
possuídos pelos pacientes (Roberts e Owen, 1988).
Memórias do nascimento
Sagan (1979), entre outros,
interpretou as EQMs, com suas vivências de visualização de um túnel escuro, de uma
luz brilhante e de entrada em uma outra dimensão, como uma memória do próprio
nascimento. Entretanto, muitas EQMs não são vivenciadas pela visão de um túnel
nem de uma luz, assim como muitas outras características comuns de EQM não são
explicadas por esse modelo de “memórias do nascimento”. Além disso, aos recém-nascidos
faltam a acuidade visual, a estabilidade espacial de suas imagens visuais, a agilidade
mental e a capacidade cortical de codificação para registrar as memórias da
experiência do nascimento (Becker, 1982).
Por fim, os relatos de
experiência fora do corpo e sobre a passagem através de um túnel para uma outra
dimensão são igualmente comuns tanto entre as pessoas que nasceram de parto
vaginal como entre as que nasceram de parto por cesárea (Blackmore, 1983),
contradizendo as predições do modelo “memórias do nascimento”, pois se assim
fosse, tais experiências deveriam ser raras nos indivíduos que nasceram de
parto por cesárea.
Alterações nos gases sanguíneos
Uma suposição comum tem sido a
de que a anóxia ou hipóxia, fatores comuns no processo de morte cerebral, devem
ser implicadas nas EQMs (Blackmore, 1993; Rodin, 1980). Entretanto, EQMs
ocorrem sem anóxia ou hipóxia, como em doenças não-fatais e em acidentes que
quase ocorreram, dos quais o indivíduo sai ileso.
Além disso, as vivências
associadas à hipóxia são somente superficialmente similares às EQMs. Whinnery (1997)
comparou as EQMs aos devaneios que ocorrem durante os períodos breves de
inconsciência induzidos por aceleração rápida em pilotos de caça, embora tenha referido
que seu modelo não explica todos os fenômenos de EQM. As características
principais compartilhadas entre a hipóxia induzida por aceleração e as EQMs são
a visão do túnel e de luzes brilhantes, a sensação de estar flutuando, as
sensações agradáveis e de prazer, breves fragmentos de imagens visuais e
algumas raras vezes a sensação de deixar o corpo. Comparando-se os citados
devaneios com as EQMs, aqueles incluem visões de pessoas vivas, mas nunca de
pessoas mortas, assim como neles não há referências às revisões da vida nem à
memória panorâmica (Whinnery, 1997). Também se deve observar que as EQMs não
incluem sintomas típicos de hipóxia, tais como convulsões mioclônicas, amnésia
retrógrada para os eventos ocorridos antes da perda de consciência, movimentos
automáticos, efeitos da memória, formigamento nas extremidades e em torno da
boca, confusão e desorientação após despertar, assim como sensação de não
conseguir movimentar o corpo ao acordar. A hipóxia ou a anóxia produz
geralmente alucinações idiossincrásicas e assustadoras e conduzem o indivíduo à
agitação e à agressividade, estados completamente diferentes dos sentimentos de
paz que são consistentes e universalmente descritos em EQM. Além disso, os
resultados de pessoas que tiveram próximas da morte mostraram que aquelas que
referem uma EQM não têm níveis mais baixos de oxigênio do que aquelas que não
tiveram uma EQM (Sabom, 1982; van Lommel et al., 2001).
Outros autores sugeriram que a
hipercapnia pode contribuir para as EQMs (Jansen, 1997; Morse et al., 1989).
Entretanto, as características semelhantes a uma EQM, que têm sido relatadas na
hipercapnia, como a sensação de sair do corpo, a visão de uma luz brilhante, a
escuridão no vazio, a revisão da vida, o sentimento de paz, são raras e
isoladas. Além disso, têm ocorrido relatos de EQM em pacientes cujos níveis de
dióxido de carbono não estavam elevados (Morse et al., 1989; Parnia et al.,
2001; Sabom, 1982). Por fim, se a anóxia e hipercapnia representam um fator
importante para as EQMs, as EQMs deveriam ser muito mais comuns do que as
observadas após parada cardíaca (Kelly et al., 2006; van Lommel et al., 2001).
Alucinações tóxicas ou metabólicas
Como os indivíduos que
vivenciaram uma EQM relatam eventos que não podem ser vistos nem vivenciados
por aqueles à sua volta, é plausível a hipótese de que as EQMs sejam
alucinações provocadas pela medicação comumente prescrita a pacientes
terminais, ou por distúrbios metabólicos, ou por mau funcionamento cerebral em
pessoas próximas à morte (Greyson, B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 116-125,
2007 119).
Entretanto, muitas EQMs são
descritas por indivíduos que não estavam com disfunções orgânicas nem
metabólicas que pudessem causar alucinações, assim como pacientes que recebem medicação,
na verdade, referem menos EQMs do que os pacientes que não a recebem (Greyson,
1990; Osís e Haraldsson, 1977; Sabom, 1982).
Além disso, o mau funcionamento
cerebral, do ponto de vista orgânico, produz geralmente turvação da consciência,
irritabilidade, medo, agressividade e visões idiossincráticas, bastante
diferentes do pensamento claro e de sentimento de paz, calma, e conteúdos
previsíveis típicos da EQM. Pacientes com delírio normalmente veem pessoas
vivas, ao passo que os pacientes próximos à morte e sem alterações do nível de
consciência quase invariavelmente veem pessoas falecidas (Osis e Haraldsson,
1977). Os pacientes febris ou anóxicos, quando próximos da morte, referem menos
EQMs e experiências menos elaboradas do que os pacientes que não estão fazendo
uso de fármacos e que não estão febris nem anóxicos (Osis e Haraldsson, 1977;
Ring, 1980; Sabom, 1982). Tais achados podem sugerir que o delírio induzido por
drogas ou problemas metabólicos, em vez de causar uma EQM, de fato a inibe, ou,
então, que os pacientes delirantes tendem a não recordar as próprias experiências
após se recuperarem (Kelly et al., 2006).
Neuroquímica
As EQMs têm sido
especulativamente atribuídas a vários neurotransmissores no cérebro, mais frequentemente
as endorfinas ou outros opioides endógenos liberados sob estresse (Blackmore,
1993; Carr, 1982; Saavedra-Aguilar e Gómez-Jeria, 1989). Entretanto, as
endorfinas produzem alívio da dor e sensação de bem-estar que persiste por
horas, ao passo que nas EQMs a paz e a cessação da dor são sentidas de forma
breve, frequentemente por alguns segundos.
Um modelo mais abrangente sugere
que um agente endógeno neuroprotetor similar à quetamina (a existência desse
agente é uma hipótese ainda não comprovada) pode ser liberado em condições de
estresse, agindo nos receptores do N-metil-D-aspartato (NMDA). A quetamina pode
provocar sentimentos de se estar fora do corpo e algumas sensações como se
sentir atravessando um túnel escuro em direção à luz, acreditar que morreu ou
que está se comunicando com Deus (Jansen, 1997).
Entretanto, as experiências com
quetamina geralmente envolvem imagens bizarras e assustadoras, normalmente reconhecidas
como ilusões (Fenwick, 1997), e nos achados sobre EQM geralmente as
experiências são relatadas como prazerosas, felizes e “mais reais que o real”.
Outros modelos implicaram a
serotonina, a adrenalina, a vasopressina e o glutamato (Jansen, 1997; Morse et
al., 1989; Saavedra-Aguilar e Gómez-Jeria, 1989). Essas especulações são
baseadas em agentes químicos ou em efeitos endógenos hipotéticos, cuja
existência não foi comprovada e muito menos fundamentada por dados empíricos.
Neuroanatomia
As EQMs também foram
relacionadas de forma especulativa a várias regiões anatômicas do cérebro, mais
frequentemente ao lobo temporal direito (Morse et al., 1989; Saavedra-Aguilar e
Gómez-Jeria, 1989), com base na suposta similaridade entre EQM e epilepsia do
lobo temporal. Entretanto, vivências semelhantes a uma EQM, quase nunca são
observadas em convulsões do lobo temporal (Devinsky et al., 1989; Rodin, 1989),
e a estimulação elétrica dos lobos temporais pode desencadear fragmentos de
música, cenas isoladas e repetitivas que parecem familiares, audição de vozes,
experiências de medo ou outras emoções negativas, visões bizarras, imagens
oníricas, além de ampla escala de sensações somáticas que nunca foram relatadas
em EQMs (Gloor, 1990; Horowitz e Adams, 1970). Os relatos dos fenômenos induzidos
por estimulação magnética transcraniana dos lobos temporais, que mostraram vaga
semelhança com uma EQM (Persinger, 1994), não foram replicados e têm sido
atribuídos à sugestão.
Outros neurocientistas têm
discutido sobre a participação da área relacionada à atenção no lobo frontal, da
área da orientação no lobo parietal, do tálamo, do hipotálamo, da amídala, do
hipocampo e dos filamentos de Reissner na espinha vertebral (Carr, 1982;
Saavedra-Aguilar e Gómez-Jeria, 1989). Esses mecanismos neurológicos especulativos,
para os quais, há pouca evidência empírica, se houver, podem sugerir caminhos
cerebrais por meio dos quais uma EQM possa ser expressada ou interpretada, mas
não implicam necessariamente mecanismos causais (Kelly et al., 2006).
Modelos multifatoriais
Apesar das inconsistentes
fundamentações para as afirmações de que uma EQM seria similar às experiências associadas
com atividade anormal do lobo temporal, anóxia, quetamina, ou endorfinas,
diversas teorias multifatoriais, baseadas nessas fundamentações, combinam livremente
tais causas especulativas para explicar qualquer uma das constelações de
características, que são observadas em uma dada EQM. Por exemplo, argumenta-se
que o isolamento sensorial ou o mau funcionamento corporal resultaria sensação
de se estar fora do corpo; em seguida, as endorfinas produziriam sensações de
analgesia e de sentimentos de paz; e, finalmente, com o aumento progressivo da
anóxia, o sistema visual ficaria comprometido e produziria a ilusão do túnel de
luz, assim como os episódios epilépticos do lobo temporal estimulariam uma
revisão da vida; enquanto as visões de pessoas falecidas e de outras dimensões
são simplesmente alucinações produzidas pelas expectativas do indivíduo, sobre
o qual acontecerá (120 Greyson, B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 116-125, 2007)
durante a morte (Blackmore, 1993; Saavedra-Aguilar e Gómez-Jeria, 1989).
Embora os fatores fisiológicos,
psicológicos e socioculturais possam realmente interagir de forma complexa,
conjuntamente com uma EQM, as teorias propostas até o momento consistem
basicamente de especulações sem embasamento, em relação ao que pode acontecer
durante uma EQM. Não se conseguiu demonstrar que nenhum dos mecanismos
neurofisiológicos propostos ocorreu em EQM, e alguns, tais como o papel da
expectativa ou da presença e efeitos da anóxia, são inconsistentes com os dados
disponíveis (Kelly et al., 2006). Mesmo se forem encontradas evidências empíricas
para alguns desses modelos fisiológicos de EQM, esses achados seriam
filosoficamente ambíguos: correlacionar um estado cerebral com uma experiência não
implica necessariamente que esse estado cerebral seja a causa da experiência;
uma outra interpretação pode ser a de que o estado cerebral pode permitir o acesso
à experiência ou simplesmente refleti-la, e esta é uma interpretação proposta
por alguns investigadores que promovem estudos neurofisiológicos de EQM (Kelly
et al., 2006).
Resultados das experiências de quase-morte (EQM)
- Efeitos positivos
Independentemente da sua causa,
as EQMs podem alterar de forma permanente e dramática as atitudes, as crenças e
os valores dos indivíduos que passam por essa experiência. Em relação aos
efeitos pós-EQM, a literatura tem se concentrado nas transformações pessoais benéficas
que frequentemente advêm dessa experiência. Os resultados que são tipicamente
relatados, pós-EQM, incluem a ampliação da espiritualidade, da preocupação com
outras pessoas, da valorização da vida e a diminuição do medo da morte, do
materialismo e da competitividade (Sabom, 1982).
Nos estudos
que comparam as atitudes dos indivíduos, antes e após uma EQM, os resultados
indicaram que após essa experiência os pacientes referiram diminuição do medo
da morte, sensação de relativa invulnerabilidade, sentimento de importância ou
de potencial para uma “missão” a cumprir e fortalecimento da crença na vida
após a morte (Noyes, 1980).
Eles também referiram maior
apreço pela vida, renovação do sentido da vida, aumento da confiança e da
flexibilidade para lidar com as adversidades da vida, valorização do amor e do
serviço ao próximo e diminuição da preocupação com status pessoal e bens materiais,
aumento do sentimento de compaixão pelos outros, valorização da espiritualidade
e redução significativa do medo da morte (Ring, 1980, 1984). Uma EQM conduz às
mudanças positivas significativas em relação à finalidade e ao sentido da vida,
assim como favorece a aceitação da morte (Bauer, 1985). Essas mudanças
profundas nas atitudes e no comportamento dos pacientes que vivenciam uma EQM
vêm sendo corroboradas em estudos de longo prazo e também nas entrevistas com amigos
e parentes (Ring, 1984).
Os pacientes que vivenciaram a
uma EQM, quando comparados com os que não passaram por essa experiência, referiram
grande aumento do altruísmo, diminuição do medo da morte, aumento da crença na
existência de vida após a morte, aumento do interesse e do sentimento religioso,
diminuição do desejo de sucesso material e da aprovação pelos outros (Flynn,
1982). Comparando as pessoas que vivenciaram uma EQM com as que chegaram
próximo da morte, mas não passaram por essa experiência, os indivíduos que
tiveram uma EQM passaram a dar valor significativamente mais baixo ao status,
ao sucesso profissional, aos aspectos materiais e à fama (Greyson, 1983a), e a
morte passou a ser vista de forma menos ameaçadora (Greyson, 1992).
- Alucinações auditivas recorrentes
Após ter passado por uma EQM,
alguns indivíduos referem “vozes internas” contínuas que são experimentadas como
reais, mas não são ouvidas por outras pessoas (Greyson, 1993b, 1997a; Liester,
1998; Moody, 1975; Ring, 1980), e que são comparáveis com as alucinações
auditivas benignas, observadas em 10% a 47% da população geral saudável
(Bentall, 2000; Greyson e Liester, 2004).
Em um estudo que comparou as
“vozes internas” dos sujeitos que passaram por uma EQM e as alucinações auditivas
de pacientes psicóticos, 97% dos indivíduos que vivenciaram uma EQM referiram
alguma atitude positiva em relação às suas alucinações auditivas, mas somente 52%
dos pacientes psiquiátricos referiram alguma atitude positiva. Por outro lado,
enquanto somente 51% dos indivíduos que passaram por uma EQM relataram alguma atitude
negativa em relação às suas alucinações auditivas, 98% dos pacientes psiquiátricos
referiram atitudes negativas. As diferenças marcantes, na comparação entre as
alucinações auditivas dos pacientes que passaram por uma EQM e os pacientes
esquizofrênicos, sugerem que as “vozes internas”, frequentemente ouvidas após uma
EQM, são muito valiosas para esses indivíduos e frequentemente associadas à
melhora no funcionamento psicossocial, e não à piora (Greyson e Liester, 2004).
- Efeitos negativos
Embora indivíduos que tenham
passado por uma EQM possam sofrer se a EQM conflitar com as suas crenças e atitudes
prévias, a ênfase da mídia leiga nos benefícios da EQM inibe a busca por ajuda
daqueles pacientes que estão com problemas. Algumas vezes as pessoas que passaram
por uma EQM duvidam de sua própria sanidade mental, mas com frequência receiam
discutir esse assunto com seus amigos ou profissionais de saúde, pelo medo de
serem ridicularizadas ou rejeitadas. (Greyson,B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1;
116-125, 2007 121).
Algumas vezes também os
profissionais de saúde reagem negativamente quando os pacientes que vivenciaram
uma EQM relatam suas experiências, o que os desencoraja de procurar ajuda para
mais bem compreender essa experiência (Greyson, 1997a; Greyson e Harris, 1987).
A maioria dos pacientes que
passaram por uma EQM gradualmente vai se ajustando, por si mesma, à experiência
que teve e aos seus efeitos. Entretanto, essa adaptação frequentemente requer
que eles adotem novos valores, atitudes e interesses. Familiares e amigos podem
ter dificuldades em compreender as novas crenças e os novos comportamentos dos
que passaram pela EQM. Por um lado, familiares e amigos evitam esses pacientes,
os quais acreditam estar sob alguma influência não bem-vinda. Pelo outro lado,
familiares e amigos influenciados pela mídia leiga sobre os efeitos positivos
de uma EQM podem colocar esses pacientes em um pedestal e esperar por mudanças
irreais. Algumas vezes, os amigos esperam paciência e capacidade de perdoar
sobre-humanas desses indivíduos que passaram por uma EQM, ou curas milagrosas e
poderes proféticos, e acabam por rejeitar os indivíduos que passaram por uma
EQM e que não atendem a essas expectativas não realistas (Greyson, 1997a;
Greyson e Harris, 1987).
Após uma EQM,
os pacientes podem ter problemas emocionais, como raiva e depressão, por terem sido
ressuscitados e “mandados de volta”, talvez contra a própria vontade. Esses
pacientes frequentemente apresentam dificuldades para conciliar a experiência
de EQM com os ensinamentos de suas crenças religiosas tradicionais, ou seus
valores e estilos de vida prévios. Como as vivências da EQM tornam-se centrais
para a autoidentidade desses pacientes e parecem diferenciá-los das outras pessoas
que convivem com eles, tais sujeitos acabam por se definirem basicamente como
“sobreviventes de uma EQM”. Como a maioria de suas novas atitudes e crenças é
tão diversa daqueles que os circundam, esses pacientes podem superar a
preocupação de que são, de algum modo, anormais, apenas redefinindo para si próprios
o que é normal. Os indivíduos que vivenciaram uma EQM podem se sentir distantes
ou separados das pessoas que não passaram por experiências similares e temer
ser ridicularizados ou rejeitados por tais pessoas – às vezes, naturalmente,
com muita razão. A dificuldade em reconciliar as novas atitudes e crenças com
as expectativas da família e dos amigos pode interferir na manutenção dos
antigos papéis e estilo de vida, pois estes não têm mais o mesmo significado.
Esses pacientes podem sentir que é impossível comunicar aos outros o
significado e o impacto de uma EQM em suas vidas.
Frequentemente, experimentam um
sentido do amor incondicional durante a EQM e não conseguem mais aceitar as
condições e as limitações dos relacionamentos humanos (Greyson, 1997a; Greyson
e Harris, 1987).
Os pesquisadores observaram que
a incongruência entre os valores adotados pelos que passaram por uma EQM e os
valores de seus cônjuges tem resultado taxas relativamente elevadas de divórcio
nesta população (Bush, 1991). A “morte social” que ocorre quando a personalidade
conhecida do sobrevivente de EQM morre pode ser tão desorganizadora para a
família, quanto seria a morte física desse indivíduo (Insinger, 1991). Os
efeitos de uma EQM “podem incluir depressão duradoura, término de
relacionamentos, interrupção da carreira, sentimentos de intenso isolamento,
incapacidade para agir no mundo e longos anos de esforço para adaptar-se às
alterações na percepção da realidade” (Bush, 1991, p. 7).
- Atitudes em relação ao suicídio
Em marcante contraste às
adaptações à vida após uma EQM, algumas vezes difíceis, esta experiência, por
si própria, pode suscitar tranquilidade em relação à morte, incluindo um
sentimento positivo, ausência de ansiedade ou de dor, aparente reencontro com
entes amados já falecidos e a experiência do amor incondicional. Esta “romantização”
da morte tem sido especulada como um potencial incentivo à ideação suicida (van
Del, 1977), e observou-se que as pessoas que vivenciaram uma EQM demonstram
menos medo da morte do que as que não vivenciaram essa experiência (Sabom,
1982) e viam a morte como algo menos ameaçador (Greyson, 1992).
Entretanto, os pacientes que
passaram por uma EQM tipicamente apresentam, em seguida à experiência, uma paradoxal,
mas evidente, diminuição da ideação suicida (Greyson, 1981; Ring, 1984). Embora
uma EQM possa “romantizar” a morte, por outro lado fundamenta a vida de sentido
e propósito: reduz a ideação suicida basicamente ao promover um sentido de
unidade com algo que transcende a personalidade, ressignificando as falhas e as
perdas pessoais, realçando o propósito e a alegria de viver e ampliando a autoestima
(Greyson, 1993a).
Experiências de quase-morte e saúde mental
Conforme exposto anteriormente,
os estudos retrospectivos de EQM mostraram, em sua maioria, que os sujeitos que
vivenciaram essa experiência são psicologicamente saudáveis e que, em medidas
de saúde mental, não diferem dos de grupos controle (Gabbard e Twemlow, 1984;
Greyson, 1991; Irwin, 1985; Locke e Shontz, 1983). Entretanto, as EQMs têm sido
especulativamente associadas a graves condições psicopatológicas.
- Despersonalização
As EQMs foram descritas como um
tipo de despersonalização, ou um sentimento de estranhamento ou de irrealidade,
que imita o estado de morte e que sacrifica uma parte da personalidade para
evitar a morte real, muito embora a despersonalização não esclareça a ampliação
da agilidade mental nem a consciência mística, observadas nas EQMs (Noyes e
Kletti, 1977) (122 Greyson, B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 116-125, 2007).
Outras diferenças entre a
despersonalização e uma EQM estão na distribuição dos pacientes por idade e
gênero na percepção da despersonalização como um estado onírico, desagradável e
com separação entre o “eu” que observa e o “eu” funcionante (Gabbard e Twemlow,
1984).
- Dissociação
As EQMs vêm sendo comparadas com
o fenômeno de dissociação, ou seja, a separação de pensamentos, sentimentos ou
experiências do curso normal da consciência e da memória, o que é uma resposta
de adaptação ao trauma, comum em pessoas sem outras alterações patológicas.
Muitas EQMs compartilham com a dissociação, a desconexão da percepção,
cognição, emoção e identidade do fluxo predominante de consciência do indivíduo
(Greyson, 1997b). Pesquisadores têm especulado o fato de que as pessoas que
passaram por uma EQM talvez tenham tendência a dissociar em resposta eventos
catastróficos, mas não os estressores da vida diária (Irwin, 1993; Ring, 1992).
Sintomas de dissociação são mais comuns entre sujeitos que vivenciaram uma EQM
do que entre indivíduos que estiveram próximos da morte sem EQM, embora os
escores dos pacientes que vivenciaram uma EQM ainda estejam dentro da média
esperada para a população normal e bem abaixo dos encontrados em transtornos
dissociativos clínicos (Greyson, 2000). O perfil do sintoma dissociativo dos indivíduos
que passaram por uma EQM sugere resposta psicofisiológica normal ao estresse,
um desvio de atenção do ambiente físico para um estado alterado de consciência,
mais que um tipo patológico de dissociação ou uma manifestação de transtorno
dissociativo.
- Transtorno do estresse pós-traumático
O transtorno do estresse
pós-traumático (TEPT) é uma entre as muitas possíveis respostas psicológicas e
biológicas ao trauma, as quais envolvem um padrão bifásico de se reviver o
trauma: memórias intrusivas alternadas com entorpecimento e evitação de
situações que lembrem o trauma. As EQMs podem levar a sintomas típicos de TEPT,
como recordações intrusivas e recorrentes do evento, pesadelos repetidos sobre
o evento, diminuição do interesse em atividades antes importantes, indiferença
para com outras pessoas e percepção restrita do futuro (Greyson, 1997a, 2001).
Posto que dissociações ocorridas durante um trauma frequentemente resultam
posteriormente em TEPT, é plausível suspeitar de TEPT após EQMs que são
semelhantes a uma dissociação peritraumática. De fato, a incidência de sintomas
de TEPT entre os indivíduos que passaram por uma EQM é maior que entre os
sobreviventes de uma morte iminente sem EQM, embora os escores dos sintomas do
TEPT nos sujeitos que vivenciaram uma EQM estejam dentro da normalidade e distantes
do que se observa no TEPT clínico (Greyson, 2001). Embora a EQM compartilhe com
o TEPT aumento de pensamentos intrusivos, imagens, sentimentos e sonhos, a EQM se
diferencia por não gerar evitação, entorpecimento psíquico nem inibição
comportamental. Dessa forma, essas alterações ocasionadas por uma EQM são mais sugestivas
de uma resposta não específica a eventos catastróficos que um TEPT.
- Outras condições patológicas
As EQMs têm sido confundidas, às
vezes, com autoscopia, observada em uma variedade de lesões cerebrais.
Entretanto, as EQMs diferem de
autoscopia, pois naquelas os pacientes se percebem fora de seu corpo físico,
que é observado inativo. Na autoscopia, o paciente relata ver um “duplo” ativo
do próprio corpo (Gabbard e Twemlow, 1984). As EQMs também têm similaridades
superficiais com as alucinações provocadas por substâncias psicoativas, mas são
mais complexas do que a imaginação mental induzida por drogas e, frequentemente,
mais dotadas de significado pessoal (Bates e Stanley, 1985), e também ocorrem
na ausência dessas substâncias psicoativas.
Embora o transtorno
esquizotípico de personalidade possa incluir distorções cognitivas e
perceptuais, há um marcante padrão de déficits interpessoais, o qual não é
observado nos pacientes que vivenciam uma EQM (Gabbard e Twemlow, 1984; Irwin,
1985; Locke e Shontz, 1983). As EQMs podem ser diferenciadas dos transtornos psicóticos
breves por seu início agudo, seguindo um estressor precipitante, pelo bom
funcionamento pré-mórbido desses sujeitos e pela atitude exploratória positiva
da experiência (Lukoff, 1985).
- Problema espiritual ou religioso
O Manual de Diagnóstico e
Estatística dos Transtornos Mentais, da Associação Psiquiátrica Americana, na
sua quarta edição, advertiu contra a interpretação equivocada de experiências
espirituais ou religiosas como transtornos mentais e distinguiu desses
transtornos mentais uma outra categoria de problemas classificados como “outras
circunstâncias que podem ser foco de atenção clínica”, os quais incluem uma
subcategoria específica “problemas espirituais ou religiosos”, um exemplo do que
é uma EQM (Lukoff et al., 1992). Da mesma forma que o diagnóstico de um
episódio de depressão maior não deve ser dado quando os sintomas depressivos
resultam de um luto normal não complicado, assim também uma EQM e seus efeitos
não devem ser vistos como evidência de um transtorno mental, mas como reação normal
a um estressor que ameace a vida (Turner et al., 1995). Uma das funções
pretendidas na categoria diagnóstica “problema religioso ou espiritual” foi
ancorar a extremidade não-patológica de um espectro de diagnóstico diferencial
e direcionar diagnósticos clínicos para a literatura relevante de diagnóstico e
de tratamento (Turner et al., 1995).(Greyson,B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1;
116-125, 2007 123),
- EQM em pacientes psiquiátricos
Conforme citado anteriormente,
os estudos sobre EQM têm mostrado que esses indivíduos são psicologicamente saudáveis,
sem sintomas proeminentes de transtornos psiquiátricos que possam ser
diagnosticados. Uma outra maneira de olhar uma possível associação entre EQM e doença
mental é o estudo da prevalência da EQM entre pacientes psiquiátricos. Chegar
próximo da morte é um evento traumático, que pode conduzir a sofrimento psicológico
clinicamente significativo, diminuição da capacidade funcional e necessidade de
serviços psiquiátricos.
Em uma grande amostra de
pacientes consecutivos, que se apresentaram pela primeira vez a uma clínica
psiquiátrica ambulatorial, 33% deles relataram ter estado perto da morte, entre
os quais 22% (7% da população total de pacientes) tiveram EQMs (Greyson, 2003b).
Em todas as medidas de sofrimento psicológico nesta amostra, as contagens foram
mais elevadas para os pacientes que estiveram perto da morte, comparando-os com
os que não estiveram. Entretanto, entre os pacientes que estiveram perto da
morte, em todas as medidas de sofrimento psicológico, as pontuações foram mais
baixas para aqueles que referiram ter passado por uma EQM do que para aqueles
que não passaram por uma EQM.
Assim, a
experiência de vivenciar uma proximidade com a morte estava associada com maior
sofrimento psicológico, mas o fato de se passar por uma EQM parece ter um
efeito protetor para o trauma (Greyson, 2003b). O percentual de pacientes neste
estudo que referiu uma EQM foi comparável com os achados na população geral
(Greyson, 1998a), sugerindo que a doença mental por si só não está associada
com o desenvolvimento de experiências de quase-morte.
- Tratamento de problemas relacionados à EQM
A maneira pela qual um
psicoterapeuta responde a um indivíduo que passou por uma EQM pode ter enorme influência
na evolução do caso, ou seja, se haverá aceitação da experiência e está se
transformará em um estímulo para o crescimento psicoespiritual, ou se será considerada
uma experiência bizarra, que não deva ser compartilhada com os outros, por medo
de ser rotulado como mentalmente doente. A literatura sobre problemas relacionados
à EQM inclui vinhetas clínicas que ilustram pedidos para que se realize
intervenção psiquiátrica em relação aos problemas secundários a uma EQM e que suscitam
perguntas não somente sobre o diagnóstico diferencial das condições comórbidas,
mas também do relacionamento causal entre elas, isto é, se as EQMs podem
predispor o sujeito a determinados transtornos mentais e se determinadas doenças
mentais predispõem pacientes que vivenciaram uma EQM a problemas espirituais (Clark,
1984; Greyson, 1997a).
Embora não
haja nenhum estudo controlado sobre os resultados de intervenções terapêuticas
aos problemas relacionados com uma EQM, os clínicos desenvolveram um consenso
de estratégias psicoterapêuticas (Greyson, 1997a; Greyson e Harris, 1987). Por
exemplo, é geralmente útil incentivar os pacientes, que passaram por uma EQM, a
verbalizar sua confusão e seu sofrimento, a refletir e clarificar mais que
interpretar as percepções e emoções dos pacientes. Também se recomenda o
oferecimento de informações objetivas sobre a vivência da EQM, favorecendo o
entendimento tanto dos pacientes como dos familiares, evitando o sentimento de
vítima no paciente e ajudando particularmente o indivíduo nas aflições perante
as perdas do ego. Os pacientes que considerarem sua EQM inefável podem
expressar seus conflitos usando meios não-verbais de expressão ou por meio da
hipnose e da imaginação dirigida (Greyson, 1997a; Greyson e Harris, 1987).
Mudanças nos valores, crenças e
atitudes podem requerer modificações nas relações familiares; o foco na
terapia, no “aqui e agora”, pode ajudar os pacientes a integrar as vivências
experimentadas durante a EQM em suas vidas diárias. A terapia de família ou de
casal pode ser indicada quando mudanças no paciente demandam mudanças em
relacionamentos íntimos, assim como mudanças na carreira (Greyson, 1997a).
Diante da EQM, uma experiência tão estranha à vida cotidiana, explorar problemas
e soluções com companheiros que também vivenciaram essa experiência pode
reduzir o sentido bizarro associado ao fenômeno. Alguns pacientes podem sentir-se
melhor explorando o assunto em uma psicoterapia de grupo, composta por
pacientes que também passaram por uma EQM, ou em um grupo de autoajuda específico,
o que pode favorecer a normalização da experiência (Greyson e Harris, 1987).
Alguns autores têm advertido
contra a prescrição de medicações para determinados pacientes no meio do despertar
espiritual espontâneo, o que pode congelar o processo em andamento e impedir
quaisquer desenvolvimentos reparadores futuros (Wilber, 1984). Como alternativa,
podem ser indicadas as práticas contemplativas, tais como a meditação ou a
oração, que ajudam o indivíduo em crises espirituais (Wilber, 1984).
Experiências de quase-morte e consciência
Algumas das características
fenomenológicas das EQMs são difíceis de ser explicadas nos termos de nossa compreensão
atual sobre os processos psicológicos ou fisiológicos. Por exemplo, os
pacientes às vezes relatam que observaram seus corpos de pontos diferentes no
espaço e podem descrever com precisão o que estava acontecendo no entorno
deles, quando estavam ostensivamente inconscientes (Sabom, 1982, 1998); ou eles
perceberam eventos posteriormente confirmados que ocorreram a uma distância que
não poderia ser alcançada por seus órgãos dos sentidos (Clark, 1984; Ring e
Lawrence, 1993), incluindo indivíduos cegos que descreveram percepções visuais
exatas durante sua EQM (124 Greyson, B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 116-125,
2007) (Ring e Cooper, 1999).
Sabom (1998) descreveu com
detalhes a EQM de uma mulher que se submeteu à cirurgia sob parada cardíaca e
hipotermia. Durante tal cirurgia, ela preencheu todos os critérios aceitos para
morte cerebral, mas mesmo assim descreveu com exatidão os muitos detalhes
específicos e inesperados de sua operação. A monitorização fisiológica
meticulosa dessa paciente forneceu evidências contrárias a explicações especulativas
comuns para uma EQM, tais como a atividade elétrica do lobo temporal e a
reconstrução baseada em conversações ouvidas durante a operação ou em
observações anteriores e posteriores a ela ter sido anestesiada.
Além disso, alguns pacientes que
passaram por uma EQM referem ter encontrado parentes e amigos falecidos, e
também algumas crianças que passaram por EQM descrevem ter encontrado pessoas
que não conheciam, mas que foram identificadas posteriormente por meio de
retratos, como parentes falecidos, que o paciente nunca havia visto antes
(Badham e Badham, 1982).
Outros indivíduos que passaram
por uma EQM relatam ter encontrado pessoas recentemente falecidas, de cuja morte
ainda não haviam tido conhecimento (Badham e Badham, 1982; Moody, 1975; Ring,
1980; Sabom, 1982).
Esses aspectos das EQMs
apresentam dados que não podem ser explicados pelos modelos fisiológicos nem psicológicos
atuais, ou por expectativas culturais ou religiosas (Blackmore, 1993).
Tais características
transcendentais ou místicas e a ocorrência de um funcionamento mental ampliado,
quando o cérebro está gravemente danificado, desafiam a suposição comum da
neurociência, a qual afirma que a consciência é unicamente o produto de
processos cerebrais, ou que a mente é meramente um epifenômeno de eventos
neurológicos. Uma analogia pode ser estabelecida com a mecânica newtoniana, que
parece explicar a física da vida diária. Foi apenas a investigação de circunstâncias
extraordinárias, envolvendo distâncias, velocidades ou massas, extremamente
pequenas ou grandes, que revelou os limites do modelo newtoniano e a
necessidade de se desenvolver modelos explanatórios adicionais. Isto também se
aplica à questão da compreensão do relacionamento mente-cérebro: a exploração de
circunstâncias extraordinárias, tais como uma EQM, pode revelar as limitações
desse modelo atual de compreensão e da necessidade de se desenvolver um modelo explicativo
mais abrangente.
Um modelo adequado das
interações mente/cérebro precisa ser capaz de explicar como a consciência pode funcionar
de forma tão complexa durante uma EQM, observando-se que o ato de pensar, a
percepção sensorial e a memória continuam a ocorrer durante uma parada cardíaca
ou sob anestesia geral; os modelos fisiológicos atuais, que explicam o
funcionamento da mente, consideram tais eventos impossíveis (Kelly et al.,
2007).
Discussões científicas sobre o
fenômeno da consciência, para serem intelectualmente responsáveis, precisam levar
esses dados em consideração. Apenas quando os pesquisadores abordarem o estudo
das EQMs com essas questões em mente, haverá progressos na nossa compreensão do
fenômeno das EQMs, além de conjecturas neurocientíficas insatisfatórias. Da
mesma forma, apenas quando os neurocientistas examinarem os atuais modelos de
funcionamento mental à luz das EQMs, haverá progressos na nossa compreensão do
fenômeno da consciência e das suas relações com o cérebro.
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15:231-258, 1997.
§ Wilber, K. - The developmental spectrum and
psychopathology: part II, treatment modalities. J Transpers Psychol
16:137-166, 1984.
Traduzido com Google Tradutor
[2] Tradução: Ana Catarina de Araújo Elias e Alexandre
Augusto Correa Macedo
[3] Endereço para correspondência: Division of Perceptual
Studies. University
of Virginia Health System. P.O. Box 800152. Charlottesville, VA 22908-0152,
EUA.E-mail: cbg4d@virginia.edu (Greyson,B. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 116-125, 2007 117)
[4] Teste
de Rorschach é um método de avaliação psicológica que analisa a personalidade a
partir da forma como o paciente organiza e interpreta imagens abstratas e
simétricas (manchas de tinta). O teste Teste Psicológico de Rorschach é
utilizado para compreender traços de comportamento, funcionamento cognitivo,
esquizofrenia e outros aspectos emocionais profundos.
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