Seu trabalho revela o distinto escritor que, jovem
ainda, conquistou um lugar de honra na literatura e alia, ao talento de
escritor, profundos conhecimentos de sábio. É uma outra prova de que o
Espiritismo não recruta entre tolos e ignorantes[2].
Victorien Sardou nasceu em 5 de
setembro de 1831 em Paris. Filho de Antoine Léandre Sardou e de Eveline Viard,
tinha dois irmãos, Pierre e Geneviève. De família modesta, viviam da plantação
de oliveiras, próximo a Cannes. Tendo sofrido grande revés na lavoura, depois
de um inverno rigoroso, mudaram-se para Paris. O pai trabalhou como contador,
professor de contabilidade, preceptor e diretor de uma escola privada. Mesmo
assim, não conseguia dinheiro suficiente para manter a família.
Victorien, muito jovem, lecionou
francês para estrangeiros, ensinou latim, história, matemática e escreveu
artigos para enciclopédias populares. Precisou trancar a faculdade de medicina.
Sua família mudou-se para Nice e ele permaneceu em Paris.
Seu começo como escritor foi
difícil. Sua primeira peça, La Taverne des Étudiants, no Teatro Odéon,
em 1º de abril de 1854, não foi bem recebida, pelo boato de que ele teria sido
contratado pelo governo para provocar os estudantes.
À beira da miséria, lutou contra
a crítica negativa de seu trabalho. Contraiu tifo e ficou à beira da morte.
Socorrido pela vizinha Laurentine de Brécourt, que conhecia a célebre atriz
Virginie Déjazet, conseguiu que ela se tornasse madrinha de Sardou, o que
alavancou sua carreira. Logo, ele ombreava com dois grandes mestres do teatro,
Émile Augier e Alexandre Dumas, filho.
Alguns episódios de sua vida
chamam a atenção[3].
No ano de 1842, tinha ele onze anos, seu pai,
recompensando-o por uma distinção escolar obtida, decidiu levá-lo a Versailles
por estrada de ferro. Mas, no momento da partida, em radiosa manhã de maio, o
menino sentiu uma das dores de cabeça que o atormentariam durante toda a sua
vida. De início tentou dissimular a perturbação, todavia, em breve, as dores
aumentaram a um tal ponto que, não podendo manter-se em pé, deixou-se cair. E o
aborrecimento do pai, ante o passeio estragado, não fez mais do que aumentar-lhe
o tormento.
Veio depois a notícia 3:
[…] o comboio
que deveriam tomar tinha-se descarrilhado em Bellevue, e trinta e dois
passageiros encontraram a morte na catástrofe. […]. Assim, a enxaqueca salvou a
família e deixou no espírito do menino um dos motivos centrais, que iriam
inspirá-lo para a trama teatral.
Outro episódio se deu aos vinte e três anos3:
Uma noite, regressando à casa e cogitando na
possibilidade de mudar-se de Paris, cruza a Rue de Ia Calandre. Uma carreta
sobrecarregada de sacos de carvão obstrui completamente a passagem. Sardou
encosta-se a uma parede, mas o veículo não avança. Instintivamente ele
atravessa a rua, indo se refugiar no lado oposto. Alguns segundos depois, um
carregador de água passa pelo sítio, e, no lugar onde o escritor estivera
antes, é esmagado pela carreta.
Nessa época, ele escreveu o
primeiro romance, Carlin. Mais tarde, diria que era um trabalho preliminar de
sua mediunidade. Sua missão estava na divulgação do Espiritismo em um meio em
que só um grande dramaturgo poderia levar com responsabilidade e brilhantismo.
O Espiritismo estava na moda.
Nos salões da sociedade, Victorien trazia uma ideia inovadora e revolucionária.
Logo, tornou-se alvo do interesse dos artistas marginalizados e incompreendidos
em uma sociedade preconceituosa, que se identificaram e procuraram conhecê-lo.
Tornou-se um dos mais dedicados
discípulos de Allan Kardec. Acompanhou-o nas primeiras experiências das mesas
girantes e na elaboração de O Livro dos Espíritos.
Fazemos votos para que o Sr. Sardou complete, o mais
breve possível, o seu trabalho tão auspiciosamente começado. Se os astrônomos
nos desvendam, por sábias pesquisas, o mecanismo do Universo, por suas
revelações, os Espíritos nos dão a conhecer o seu estado moral e, como eles
mesmos dizem, é com o fito de nos excitar ao bem a fim de merecermos uma vida
melhor!2
No ano de 1896, no Teatro
Renaissance, em Paris, estreou a primeira peça teatral espírita de que se tem
notícia: Spiritisme. Como estrela principal, ninguém menos do que Sara
Bernhardt, a Divina, como era conhecida, uma das mulheres mais famosas do mundo
no final do século XIX e começo do XX. Considerada a primeira celebridade
mundial, sua voz, segundo os críticos, semelhava ao som de uma flauta. A peça
foi um sucesso. Sardou diz que Spiritisme teve a honra de ser incluída
no Index da Igreja Católica Romana.
Profissionalmente foi autor de
mais de 578 trabalhos, entre artigos, peças teatrais, livretos de óperas. Como
médium pictógrafo, produziu ilustrações assombrosas sobre a vida em outros
mundos. Acumulou espantosa documentação sobre o Espiritismo e participou de
numerosas sessões experimentais, sobretudo com a famosa médium italiana, Eusápia
Paladino[4].
Casou-se com Laurentine Eléonore
Désirée de Moisson de Brécourt, que morreu apenas oito anos depois. Voltou a
casar em 1872, com Marie Anne Corneille Soulié, filha do erudito Eudore
Augustin Soulié. Em 1877, foi eleito para a Académie Française.
Morreu na manhã de 8 de novembro
de 1908. Paris inteira compareceu às suas exéquias, no quadro imponente do
aparato militar a que lhe dava direito a Grã-Cruz da Legião de Honra. Gaston
Doumerge, em nome do Governo e Valdal, representando a Academia e Paul Hervieu,
pela Sociedade de Autores, pronunciaram discursos enaltecendo a obra do
dramaturgo de escol e convicto espírita.
Em 1924 foi inaugurado o seu
monumento, em Paris, obra do escultor Bartolomé. Suas obras estavam traduzidas
para inúmeros idiomas, mas ninguém pensava que, com ele, uma época inteira
desaparecia4.
[1] MUNDO ESPÍRITA - https://www.mundoespirita.com.br/?materia=victorien-sardou
[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos
Psicológicos. Ano 1858, v. 8. São Paulo: EDICEL, 1999. Habitações em
Júpiter. (nota de Kardec)
[3] SARDOU, Victorien. Amargo despertar: comédia
dramática em três atos. Matão: O Clarim, 1978.
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