segunda-feira, 27 de abril de 2026

VICTORIEN SARDOU[1]

 


 

Seu trabalho revela o distinto escritor que, jovem ainda, conquistou um lugar de honra na literatura e alia, ao talento de escritor, profundos conhecimentos de sábio. É uma outra prova de que o Espiritismo não recruta entre tolos e ignorantes[2].

Victorien Sardou nasceu em 5 de setembro de 1831 em Paris. Filho de Antoine Léandre Sardou e de Eveline Viard, tinha dois irmãos, Pierre e Geneviève. De família modesta, viviam da plantação de oliveiras, próximo a Cannes. Tendo sofrido grande revés na lavoura, depois de um inverno rigoroso, mudaram-se para Paris. O pai trabalhou como contador, professor de contabilidade, preceptor e diretor de uma escola privada. Mesmo assim, não conseguia dinheiro suficiente para manter a família.

Victorien, muito jovem, lecionou francês para estrangeiros, ensinou latim, história, matemática e escreveu artigos para enciclopédias populares. Precisou trancar a faculdade de medicina. Sua família mudou-se para Nice e ele permaneceu em Paris.

Seu começo como escritor foi difícil. Sua primeira peça, La Taverne des Étudiants, no Teatro Odéon, em 1º de abril de 1854, não foi bem recebida, pelo boato de que ele teria sido contratado pelo governo para provocar os estudantes.

À beira da miséria, lutou contra a crítica negativa de seu trabalho. Contraiu tifo e ficou à beira da morte. Socorrido pela vizinha Laurentine de Brécourt, que conhecia a célebre atriz Virginie Déjazet, conseguiu que ela se tornasse madrinha de Sardou, o que alavancou sua carreira. Logo, ele ombreava com dois grandes mestres do teatro, Émile Augier e Alexandre Dumas, filho.

Alguns episódios de sua vida chamam a atenção[3].

No ano de 1842, tinha ele onze anos, seu pai, recompensando-o por uma distinção escolar obtida, decidiu levá-lo a Versailles por estrada de ferro. Mas, no momento da partida, em radiosa manhã de maio, o menino sentiu uma das dores de cabeça que o atormentariam durante toda a sua vida. De início tentou dissimular a perturbação, todavia, em breve, as dores aumentaram a um tal ponto que, não podendo manter-se em pé, deixou-se cair. E o aborrecimento do pai, ante o passeio estragado, não fez mais do que aumentar-lhe o tormento.

Veio depois a notícia 3:

 […] o comboio que deveriam tomar tinha-se descarrilhado em Bellevue, e trinta e dois passageiros encontraram a morte na catástrofe. […]. Assim, a enxaqueca salvou a família e deixou no espírito do menino um dos motivos centrais, que iriam inspirá-lo para a trama teatral.

Outro episódio se deu aos vinte e três anos3:

Uma noite, regressando à casa e cogitando na possibilidade de mudar-se de Paris, cruza a Rue de Ia Calandre. Uma carreta sobrecarregada de sacos de carvão obstrui completamente a passagem. Sardou encosta-se a uma parede, mas o veículo não avança. Instintivamente ele atravessa a rua, indo se refugiar no lado oposto. Alguns segundos depois, um carregador de água passa pelo sítio, e, no lugar onde o escritor estivera antes, é esmagado pela carreta.

Nessa época, ele escreveu o primeiro romance, Carlin. Mais tarde, diria que era um trabalho preliminar de sua mediunidade. Sua missão estava na divulgação do Espiritismo em um meio em que só um grande dramaturgo poderia levar com responsabilidade e brilhantismo.

O Espiritismo estava na moda. Nos salões da sociedade, Victorien trazia uma ideia inovadora e revolucionária. Logo, tornou-se alvo do interesse dos artistas marginalizados e incompreendidos em uma sociedade preconceituosa, que se identificaram e procuraram conhecê-lo.

Tornou-se um dos mais dedicados discípulos de Allan Kardec. Acompanhou-o nas primeiras experiências das mesas girantes e na elaboração de O Livro dos Espíritos.

Fazemos votos para que o Sr. Sardou complete, o mais breve possível, o seu trabalho tão auspiciosamente começado. Se os astrônomos nos desvendam, por sábias pesquisas, o mecanismo do Universo, por suas revelações, os Espíritos nos dão a conhecer o seu estado moral e, como eles mesmos dizem, é com o fito de nos excitar ao bem a fim de merecermos uma vida melhor!2

No ano de 1896, no Teatro Renaissance, em Paris, estreou a primeira peça teatral espírita de que se tem notícia: Spiritisme. Como estrela principal, ninguém menos do que Sara Bernhardt, a Divina, como era conhecida, uma das mulheres mais famosas do mundo no final do século XIX e começo do XX. Considerada a primeira celebridade mundial, sua voz, segundo os críticos, semelhava ao som de uma flauta. A peça foi um sucesso. Sardou diz que Spiritisme teve a honra de ser incluída no Index da Igreja Católica Romana.

Profissionalmente foi autor de mais de 578 trabalhos, entre artigos, peças teatrais, livretos de óperas. Como médium pictógrafo, produziu ilustrações assombrosas sobre a vida em outros mundos. Acumulou espantosa documentação sobre o Espiritismo e participou de numerosas sessões experimentais, sobretudo com a famosa médium italiana, Eusápia Paladino[4].

Casou-se com Laurentine Eléonore Désirée de Moisson de Brécourt, que morreu apenas oito anos depois. Voltou a casar em 1872, com Marie Anne Corneille Soulié, filha do erudito Eudore Augustin Soulié. Em 1877, foi eleito para a Académie Française.

Morreu na manhã de 8 de novembro de 1908. Paris inteira compareceu às suas exéquias, no quadro imponente do aparato militar a que lhe dava direito a Grã-Cruz da Legião de Honra. Gaston Doumerge, em nome do Governo e Valdal, representando a Academia e Paul Hervieu, pela Sociedade de Autores, pronunciaram discursos enaltecendo a obra do dramaturgo de escol e convicto espírita.

Em 1924 foi inaugurado o seu monumento, em Paris, obra do escultor Bartolomé. Suas obras estavam traduzidas para inúmeros idiomas, mas ninguém pensava que, com ele, uma época inteira desaparecia4.



[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1858, v. 8. São Paulo: EDICEL, 1999. Habitações em Júpiter. (nota de Kardec)

[3] SARDOU, Victorien. Amargo despertar: comédia dramática em três atos. Matão: O Clarim, 1978.

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