General Lazare Hoche, 1801
Allan Kardec
SEGUNDA
ENTREVISTA –
Sociedade, 1º de
julho de 1859
1. Evocação
– Eis-me aqui.
Falai.
2. Prometestes voltar a ver-nos e aproveitamos o ensejo para
vos pedir algumas explicações complementares.
– De bom grado.
3. Depois da vossa morte chegastes a assistir a alguns
combates?
– Sim, ao último.
4. Quando, como Espírito, testemunhais um combate e vedes os
homens se matarem mutuamente, experimentais algum sentimento de horror, da
mesma forma que também o experimentaríamos se presenciássemos cenas
semelhantes?
– Sim; mesmo como homem eu já o experimentava.
Entretanto, o respeito humano reprimia esse sentimento como indigno de um
soldado.
5. Há Espíritos que sentem prazer vendo essas cenas de
carnificina?
– Poucos.
6. Que sentimento experimentam, a essa visão, os Espíritos
de ordem superior?
– Grande compaixão; quase desprezo. Aquilo que vós mesmos
experimentais quando vedes os animais se dilacerarem entre si.
7. Assistindo a um combate e vendo homens morrer,
testemunhais a separação entre a alma e o corpo?
– Sim.
8. Nesse momento vedes dois indivíduos: o Espírito e o
corpo?
– Não; que é então o corpo?
Mas nem por isso o corpo deixa de estar lá;
não deve ser distinto do Espírito?
– Um cadáver, sim; mas não é mais um ser.
9. Qual a aparência que então assume o Espírito?
– Leve.
10. O Espírito afasta-se imediatamente do corpo? Dignai-vos
descrever tão explicitamente quanto possível como as coisas se passam e como as
veríamos, caso fôssemos testemunhas.
– Há poucas mortes realmente instantâneas. O Espírito,
cujo corpo foi atingido por uma bala, a maior parte do tempo argumenta consigo
mesmo: “Vou morrer, pensemos em Deus e no Céu. Adeus, Terra que eu amava”.
Depois desse primeiro sentimento a dor o arranca do corpo e só então podemos
distinguir o Espírito, que se move ao lado do cadáver. Isso parece tão natural
que a visão do corpo morto não produz nenhum efeito desagradável. Tendo sido
toda a vida transportada para o Espírito, apenas este chama a atenção; é com o
Espírito que conversamos ou é a ele que damos ordens.
Observação – Poderíamos comparar esse efeito
ao produzido por um grupo de banhistas; o espectador não presta nenhuma atenção
às roupas deixadas à margem.
11. Surpreendido por uma morte violenta, geralmente por
algum tempo o homem não se julga morto. Como se explica a sua situação, e como
pode ter ele ilusões, já que deve sentir perfeitamente que seu corpo não é mais
material e resistente?
– Ele o sabe; não há ilusão.
Observação – Isto não é perfeitamente exato.
Sabemos que em certos casos os Espíritos se iludem, julgando não estar mortos.
12. Uma tempestade violenta desabou no fim da batalha de
Solferino. Foi por uma circunstância fortuita ou por um desígnio providencial?
– Toda circunstância fortuita resulta da vontade de Deus.
13. Essa tempestade tinha um objetivo? Qual seria?
– Sim, por certo: fazer cessar o combate.
14. Foi provocado no interesse de uma das partes
beligerantes? Qual?
– Sim; sobretudo para os nossos inimigos.
Por que isso? Poderíeis explicar mais claramente?
– Perguntais-me por quê? Acaso ignorais que, sem essa
tempestade, nossa artilharia não teria deixado escapar um só austríaco?
15. Se tal tempestade foi provocada, deve ter tido agentes.
Quais eram esses agentes?
– A eletricidade.
16. É o agente material. Mas haverá Espíritos que tenham por
tarefa conduzir os elementos?
– Não; a vontade de Deus é suficiente. Ele não necessita
de ajudantes tão elementares.
O GENERAL HOCHE
(Sociedade – 22 de
julho de 1859)
1. Evocação
– Estou convosco.
2. A Sra. J... nos disse que vos tínheis comunicado espontaneamente
com ela. Com que intenção o fizestes, desde que ela não vos havia chamado?
– É ela quem me traz aqui; eu desejava ser chamado por
vós e sabia que, dirigindo-me à sua casa, seríeis informado e provavelmente me
evocaríeis.
3. Dissestes a ela que estáveis acompanhando as operações
militares da Itália; isso nos parece natural. Poderíeis dizer-nos o que pensais
a respeito?
– Elas produziram grandes resultados. No meu tempo
combatíamos mais longamente.
4. Assistindo a essa guerra, nela desempenhais algum papel
ativo?
– Não; simples espectador.
5. Como vós, outros generais do vosso tempo lá estiveram
convosco?
– Sim, bem o podeis imaginar.
6. Poderíeis designar alguns?
– Seria inútil.
7. Dizem que Napoleão I achava-se presente, no que não temos
dificuldade em acreditar. À época das primeiras guerras da Itália ele era
apenas general. Poderíeis dizer-nos se nesta ele via as coisas do ponto de
vista do general ou do imperador?
– De ambos, e ainda de um terceiro: do de diplomata.
8. Quando vivíeis, vossa posição hierárquica como militar
era mais ou menos igual à dele. Como ele ascendeu bastante depois de vossa
morte, poderíeis dizer-nos, como Espírito, se o considerais vosso superior?
– Aqui reina a igualdade. O que perguntais com isso?
Observação – Por igualdade sem dúvida ele
entende que os Espíritos não levam em conta as distinções terrenas, com as quais
de fato pouco se preocupam e que não têm nenhum peso entre eles. A igualdade
moral, porém, está longe de reinar; entre eles há uma hierarquia e uma
subordinação baseadas nas qualidades adquiridas, e ninguém pode subtrair-se ao
ascendente daqueles que são mais elevados e mais puros.
9. Acompanhando as peripécias da guerra, prevíeis a paz
assim tão próxima?
– Sim.
10. Para vós tratava-se de uma simples previsão ou tínheis
um conhecimento prévio seguro?
– Não. Haviam me dito.
11. Sois sensível à recordação que guardamos de vós?
– Sim, mas pouco fiz por merecê-la.
12. Vossa viúva acaba de morrer. Vós vos reunistes a ela imediatamente?
– Eu a esperava. Hoje vou deixá-la: a existência me
chama.
13. Será na Terra que deveis ter uma nova existência?
– Não.
14. O mundo para o qual deveis ir é-nos conhecido?
– Sim; Mercúrio.
15. Do ponto de vista moral, esse mundo é superior ou inferior
à Terra?
– Inferior. Eu o elevarei. Contribuirei para fazê-lo entrar
numa nova posição.
16. Atualmente conheceis o mundo para onde deveis ir?
– Sim, muito bem. Talvez melhor do que o conhecerei
quando o habitar.
Observação – Esta resposta é perfeitamente
lógica. Como Espírito ele vê esse mundo em seu conjunto; quando nele estiver
encarnado não o verá senão do ponto de vista restrito da sua personalidade e da
posição social que ocupar.
17. Do ponto de vista físico, os habitantes desse mundo são
tão materiais quanto os da Terra?
– Sim, completamente; mais ainda.
18. Fostes vós que escolhestes esse mundo para vossa nova
existência?
– Não, não. Eu teria preferido uma terra calma e feliz.
Lá encontrarei torrentes de mal a combater e furores de crime a punir.
Observação – Quando nossos missionários
cristãos vão aos povos bárbaros para tentar fazer que neles penetrem os germes da
civilização, não cumprem uma função análoga? Por que, então, nos admirarmos de
que um Espírito elevado vá a um mundo atrasado com vistas a fazê-lo avançar?
19. Essa existência vos é imposta por constrangimento?
– Não; comprometi-me com ela. Fizeram-me compreender que
o destino, a Providência, se assim quiserdes, ali me chamava. É como a morte
antes de subir ao céu: é preciso sofrer e, infelizmente, não sofri bastante.
20. Sois feliz como Espírito?
– Sim, sem dificuldades.
21. Quais foram as vossas ocupações como Espírito, desde o
momento em que deixastes a Terra?
– Visitei o mundo, a Terra inteiramente. Isso demandou um
período de alguns anos. Aprendi as leis que Deus emprega para conduzir todos os
fenômenos que concorrem para a vida. Depois, fiz o mesmo em várias esferas.
22. Nós vos agradecemos por terdes atendido ao nosso apelo.
– Adeus. Não mais me vereis.

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