terça-feira, 21 de abril de 2026

Conversas Familiares de Além-Túmulo - UM OFICIAL DO EXÉRCITO DA ITÁLIA[1]

 

  General Lazare Hoche, 1801


Allan Kardec

SEGUNDA ENTREVISTA –

Sociedade, 1º de julho de 1859

[Vide o número de julho]

 

1. Evocação

 – Eis-me aqui. Falai.

2. Prometestes voltar a ver-nos e aproveitamos o ensejo para vos pedir algumas explicações complementares.

 – De bom grado.

3. Depois da vossa morte chegastes a assistir a alguns combates?

– Sim, ao último.

4. Quando, como Espírito, testemunhais um combate e vedes os homens se matarem mutuamente, experimentais algum sentimento de horror, da mesma forma que também o experimentaríamos se presenciássemos cenas semelhantes?

– Sim; mesmo como homem eu já o experimentava. Entretanto, o respeito humano reprimia esse sentimento como indigno de um soldado.

5. Há Espíritos que sentem prazer vendo essas cenas de carnificina?

– Poucos.

6. Que sentimento experimentam, a essa visão, os Espíritos de ordem superior?

– Grande compaixão; quase desprezo. Aquilo que vós mesmos experimentais quando vedes os animais se dilacerarem entre si.

7. Assistindo a um combate e vendo homens morrer, testemunhais a separação entre a alma e o corpo?

– Sim.

8. Nesse momento vedes dois indivíduos: o Espírito e o corpo?

– Não; que é então o corpo?

  Mas nem por isso o corpo deixa de estar lá; não deve ser distinto do Espírito?

– Um cadáver, sim; mas não é mais um ser.

9. Qual a aparência que então assume o Espírito?

– Leve.

10. O Espírito afasta-se imediatamente do corpo? Dignai-vos descrever tão explicitamente quanto possível como as coisas se passam e como as veríamos, caso fôssemos testemunhas.

– Há poucas mortes realmente instantâneas. O Espírito, cujo corpo foi atingido por uma bala, a maior parte do tempo argumenta consigo mesmo: “Vou morrer, pensemos em Deus e no Céu. Adeus, Terra que eu amava”. Depois desse primeiro sentimento a dor o arranca do corpo e só então podemos distinguir o Espírito, que se move ao lado do cadáver. Isso parece tão natural que a visão do corpo morto não produz nenhum efeito desagradável. Tendo sido toda a vida transportada para o Espírito, apenas este chama a atenção; é com o Espírito que conversamos ou é a ele que damos ordens.

 

Observação – Poderíamos comparar esse efeito ao produzido por um grupo de banhistas; o espectador não presta nenhuma atenção às roupas deixadas à margem.

 

11. Surpreendido por uma morte violenta, geralmente por algum tempo o homem não se julga morto. Como se explica a sua situação, e como pode ter ele ilusões, já que deve sentir perfeitamente que seu corpo não é mais material e resistente?

– Ele o sabe; não há ilusão.

 

Observação – Isto não é perfeitamente exato. Sabemos que em certos casos os Espíritos se iludem, julgando não estar mortos.

 

12. Uma tempestade violenta desabou no fim da batalha de Solferino. Foi por uma circunstância fortuita ou por um desígnio providencial?

– Toda circunstância fortuita resulta da vontade de Deus.

13. Essa tempestade tinha um objetivo? Qual seria?

– Sim, por certo: fazer cessar o combate.

14. Foi provocado no interesse de uma das partes beligerantes? Qual?

– Sim; sobretudo para os nossos inimigos.

Por que isso? Poderíeis explicar mais claramente?

– Perguntais-me por quê? Acaso ignorais que, sem essa tempestade, nossa artilharia não teria deixado escapar um só austríaco?

15. Se tal tempestade foi provocada, deve ter tido agentes. Quais eram esses agentes?

 – A eletricidade.

16. É o agente material. Mas haverá Espíritos que tenham por tarefa conduzir os elementos?

– Não; a vontade de Deus é suficiente. Ele não necessita de ajudantes tão elementares.

(Ver o artigo Tempestades)

 

O GENERAL HOCHE

(Sociedade – 22 de julho de 1859)

1. Evocação

– Estou convosco.

2. A Sra. J... nos disse que vos tínheis comunicado espontaneamente com ela. Com que intenção o fizestes, desde que ela não vos havia chamado?

– É ela quem me traz aqui; eu desejava ser chamado por vós e sabia que, dirigindo-me à sua casa, seríeis informado e provavelmente me evocaríeis.

3. Dissestes a ela que estáveis acompanhando as operações militares da Itália; isso nos parece natural. Poderíeis dizer-nos o que pensais a respeito?

– Elas produziram grandes resultados. No meu tempo combatíamos mais longamente.

4. Assistindo a essa guerra, nela desempenhais algum papel ativo?

– Não; simples espectador.

5. Como vós, outros generais do vosso tempo lá estiveram convosco?

– Sim, bem o podeis imaginar.

6. Poderíeis designar alguns?

– Seria inútil.

7. Dizem que Napoleão I achava-se presente, no que não temos dificuldade em acreditar. À época das primeiras guerras da Itália ele era apenas general. Poderíeis dizer-nos se nesta ele via as coisas do ponto de vista do general ou do imperador?

– De ambos, e ainda de um terceiro: do de diplomata.

8. Quando vivíeis, vossa posição hierárquica como militar era mais ou menos igual à dele. Como ele ascendeu bastante depois de vossa morte, poderíeis dizer-nos, como Espírito, se o considerais vosso superior?

– Aqui reina a igualdade. O que perguntais com isso?

 

Observação – Por igualdade sem dúvida ele entende que os Espíritos não levam em conta as distinções terrenas, com as quais de fato pouco se preocupam e que não têm nenhum peso entre eles. A igualdade moral, porém, está longe de reinar; entre eles há uma hierarquia e uma subordinação baseadas nas qualidades adquiridas, e ninguém pode subtrair-se ao ascendente daqueles que são mais elevados e mais puros.

 

9. Acompanhando as peripécias da guerra, prevíeis a paz assim tão próxima?

– Sim.

10. Para vós tratava-se de uma simples previsão ou tínheis um conhecimento prévio seguro?

– Não. Haviam me dito.

11. Sois sensível à recordação que guardamos de vós?

– Sim, mas pouco fiz por merecê-la.

12. Vossa viúva acaba de morrer. Vós vos reunistes a ela imediatamente?

– Eu a esperava. Hoje vou deixá-la: a existência me chama.

13. Será na Terra que deveis ter uma nova existência?

– Não.

14. O mundo para o qual deveis ir é-nos conhecido?

– Sim; Mercúrio.

15. Do ponto de vista moral, esse mundo é superior ou inferior à Terra?

– Inferior. Eu o elevarei. Contribuirei para fazê-lo entrar numa nova posição.

16. Atualmente conheceis o mundo para onde deveis ir?

– Sim, muito bem. Talvez melhor do que o conhecerei quando o habitar.

 

Observação – Esta resposta é perfeitamente lógica. Como Espírito ele vê esse mundo em seu conjunto; quando nele estiver encarnado não o verá senão do ponto de vista restrito da sua personalidade e da posição social que ocupar.

 

17. Do ponto de vista físico, os habitantes desse mundo são tão materiais quanto os da Terra?

– Sim, completamente; mais ainda.

18. Fostes vós que escolhestes esse mundo para vossa nova existência?

– Não, não. Eu teria preferido uma terra calma e feliz. Lá encontrarei torrentes de mal a combater e furores de crime a punir.

 

Observação – Quando nossos missionários cristãos vão aos povos bárbaros para tentar fazer que neles penetrem os germes da civilização, não cumprem uma função análoga? Por que, então, nos admirarmos de que um Espírito elevado vá a um mundo atrasado com vistas a fazê-lo avançar?

 

19. Essa existência vos é imposta por constrangimento?

– Não; comprometi-me com ela. Fizeram-me compreender que o destino, a Providência, se assim quiserdes, ali me chamava. É como a morte antes de subir ao céu: é preciso sofrer e, infelizmente, não sofri bastante.

20. Sois feliz como Espírito?

– Sim, sem dificuldades.

21. Quais foram as vossas ocupações como Espírito, desde o momento em que deixastes a Terra?

– Visitei o mundo, a Terra inteiramente. Isso demandou um período de alguns anos. Aprendi as leis que Deus emprega para conduzir todos os fenômenos que concorrem para a vida. Depois, fiz o mesmo em várias esferas.

22. Nós vos agradecemos por terdes atendido ao nosso apelo.

– Adeus. Não mais me vereis.



[1] REVISTA ESPÍRITA – setembro/1859 – Allan Kardec

Nenhum comentário:

Postar um comentário