Lucas Rabello
A imagem cinematográfica da
morte geralmente envolve discursos dramáticos ou revelações bombásticas no
último suspiro. Mas a realidade observada por profissionais que acompanham
pessoas no fim da vida é bem diferente, e talvez mais tranquila do que se imagina.
Julie McFadden, uma enfermeira especializada em cuidados paliativos da
Califórnia, acumula 16 anos de experiência ao lado de pacientes terminais.
Ela compartilha observações
fascinantes e reconfortantes sobre o que realmente acontece, e o que é dito,
nos momentos que antecedem a morte, desmistificando a ideia de um evento
abrupto e assustador.
Uma das primeiras surpresas que
Julie relata é a aparente capacidade que alguns pacientes têm de “escolher” o
momento da partida. Isso desafia a lógica médica convencional. Ela presenciou
situações em que indivíduos declaravam claramente quando partiriam, muitas
vezes ligando o evento a acontecimentos significativos.
Pacientes disseram coisas como
“Vou morrer depois dessa data” ou “Esperarei pelo casamento da minha filha”. Em
um caso marcante, um paciente anunciou calmamente “Vou morrer esta noite” e, de
fato, faleceu horas depois, sem que estivesse em um processo ativo de morte
iminente naquele momento.
Julie confessa que esse fenômeno
a deixa perplexa – não há intervenção médica ou ação do paciente que explique
como isso ocorre. É um mistério que desafia a compreensão, mas oferece um
vislumbre de uma possível agência humana mesmo no limiar final.
Quanto às palavras finais, a
enfermeira Julie é categórica: elas raramente se assemelham aos dramáticos
clímax dos filmes. Não costuma haver uma declaração grandiosa de
arrependimentos profundos ou segredos guardados revelados no último instante.
Em vez disso, ela identifica um
padrão de quatro expressões simples, porém profundamente significativas, que
surgem com frequência surpreendente nos dias ou horas que antecedem a morte:
·
Obrigado: Uma expressão de gratidão,
muitas vezes dirigida a familiares, cuidadores ou simplesmente pela vida
vivida.
·
Eu perdoo: Buscando liberar
ressentimentos e encontrar paz, perdoando aqueles que possam ter causado dor.
·
Por favor, me perdoe: O desejo de ser
perdoado por eventuais mágoas causadas, buscando reconciliação e alívio.
·
Adeus: Um reconhecimento da partida e uma
despedida serena dos entes queridos.
Além dessas frases específicas,
Julie observa outros padrões comuns. Muitos pacientes chamam por entes queridos
já falecidos, como pais, cônjuges ou amigos de longa data. É frequente
ouvirem-se nomes de pessoas que partiram anos ou décadas antes. A expressão “Eu
te amo” também é dita com tranquilidade, mas novamente, não necessariamente no
exato momento do último suspiro, e sim como parte do processo de despedida.
Outro fenômeno intrigante
relatado pela enfermeira é a regressão linguística. Pacientes bilíngues ou que
viveram a maior parte da vida falando uma segunda língua podem,
inexplicavelmente, voltar a se comunicar apenas no seu idioma materno à medida
que a morte se aproxima. Julie cita o exemplo de alguém cuja língua nativa era
o italiano, mas que viveu 50 anos em um país de língua inglesa.
Nos seus últimos dias, essa
pessoa pode começar a falar exclusivamente em italiano, para surpresa da
família que não a ouvia usar a língua há décadas. Casos semelhantes envolvem
idiomas ou dialetos regionais específicos, como o iídiche de uma cidade natal
não visitada há 80 anos, ressurgindo como forma única de expressão.
Frequentemente, os pacientes
também expressam o desejo de “ir para casa”. Julie explica que esse conceito de
“casa” raramente se refere ao endereço físico atual.
Pode simbolizar uma sensação
profunda de paz, um retorno às origens ou uma referência metafórica à transição
para o que vem depois. Frases como “Preciso ir para casa”, “Estou indo para
casa” ou até mesmo “Preciso fazer as malas” ou “Está na hora da minha viagem”
são comuns. É como se estivessem se preparando para uma jornada final para um
lugar de pertencimento definitivo.
Ao conviver diariamente com
pessoas que enfrentam o fim da vida, Julie McFadden também ouve reflexões sobre
arrependimentos. Um tema surge com força esmagadora: a falta de apreço pela
saúde quando ela estava presente. Muitos expressam o desejo de ter valorizado
mais a capacidade de ver, comer sem dificuldade, engolir, caminhar livremente
ou viver sem dor constante.
A rotina da vida saudável é
frequentemente tomada como garantida até que se perde. Outro arrependimento
recorrente, especialmente entre homens, é o de ter “trabalhado demais” ou
dedicado tempo excessivo ao trabalho em detrimento da vida pessoal e familiar.
Muitas mulheres, por sua vez, compartilham o pesar de terem passado anos
preocupadas excessivamente com dietas e a imagem corporal, desejando ter
aceitado e apreciado mais seus corpos.
As observações da enfermeira
Julie pintam um quadro da morte como um processo, não um evento instantâneo,
ecoando o que outros especialistas em cuidados paliativos, como a médica
Kathryn Mannix, também defendem. É um período marcado por expressões de amor,
gratidão, perdão e despedida, pela conexão com memórias profundas (inclusive
linguísticas) e pelo desejo de paz e “retorno”. Os grandes dramas e segredos
inconfessáveis dos roteiros de cinema cedem lugar a frases simples que carregam
o peso de uma vida inteira e ao reconhecimento tardio das coisas que realmente
importaram.
[1] https://misteriosdomundo.org/enfermeira-revela-as-4-frases-finais-que-ouve-as-pessoas-dizerem-antes-de-morrer/?fbclid=IwY2xjawPrPKNleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFkTVp0U2J5SGJtT2phYjFHc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHnVFjIq22T43_oBqBMwrzUC-cqKw3UxVUiaNRqw579JJ70ME3-jwSIdwXfSD_aem_yZYprdHRnXUInsEcwMFPtg
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