terça-feira, 31 de dezembro de 2024

FENÔMENOS DE APARIÇÃO[1]

 


Allan Kardec

 

O Constitutionnel e a Patrie narraram há algum tempo o fato seguinte, de acordo com jornais dos Estados Unidos:

A pequena cidade de Liechtfield, no Kentucky, conta com numerosos adeptos da doutrina do espiritualismo magnético. Um fato incrível, que ali acaba de se passar, por certo não contribuirá pouco para aumentar o número de partidários dessa nova religião.

A família Park, composta dos pais e de três filhos que já se encontram na idade da razão, era fortemente imbuída das crenças espiritualistas. Ao contrário, a Srta. Harris, irmã da Sra. Park, não punha nenhuma fé nos prodígios sobrenaturais com os quais os parentes se entretinham incessantemente. Para a família inteira, isso era um verdadeiro motivo de desgosto e, por mais de uma vez, a boa harmonia entre as duas irmãs foi perturbada.

Há alguns dias, a Sra. Park foi acometida repentinamente de um mal súbito que, desde logo, os médicos declararam não poder debelar. A paciente era vítima de alucinações, e uma febre terrível constantemente a atormentava. A Srta. Harris passava as noites em claro. No quarto dia de sua doença, a Sra. Park levantou-se subitamente da cama, pediu água e começou a conversar com a irmã. Circunstância singular, a febre a havia deixado de repente, o pulso estava regular, exprimia-se com grande facilidade e a Srta. Harris, toda feliz, julgou que a irmã estava fora de perigo.

Depois de haver falado de seu marido e dos filhos, a Sra. Park se aproximou ainda mais da irmã, dizendo-lhe:

“Pobre irmã, vou deixar-te; sinto que a morte se aproxima. Mas, pelo menos, minha partida deste mundo servirá para te convencer. Morrerei dentro de uma hora e serei enterrada amanhã. Evita com muito cuidado não seguir meu corpo ao cemitério, porquanto meu Espírito, ainda revestido de seus despojos mortais, aparecer-te-á uma vez mais, antes que meu caixão seja recoberto de terra. Acreditarás, finalmente, no espiritualismo”.

Após ter acabado de dizer essas palavras, a doente deitou-se tranquilamente. Uma hora mais tarde, porém, como o havia anunciado, a Srta. Harris percebeu dolorosamente que o coração da enferma cessara de bater.

Vivamente emocionada pela surpreendente coincidência existente entre esse acontecimento e as proféticas palavras da defunta, decidiu seguir a ordem que lhe havia sido dada e, no dia seguinte, ficou sozinha em casa, enquanto todo mundo tomava o caminho do cemitério.

Depois de haver fechado as persianas da câmara mortuária, sentou-se numa poltrona, perto do leito de onde acabara de sair o corpo da irmã.

Apenas decorridos cinco minutos – contou mais tarde a Srta. Harris – vi como que uma nuvem branca a se destacar no fundo do apartamento. Pouco a pouco essa forma se desenhou melhor: era a de uma mulher semigelada; aproximou-se de mim lentamente; discerni o ruído de passos leves no assoalho; por fim meus olhos, espantados, se acharam em presença de minha irmã...

Seu rosto, longe de possuir essa palidez mate, que nos mortos impressiona tão desagradavelmente, era radioso; suas mãos, cuja pressão logo senti sobre as minhas, tinham conservado todo o calor da vida. Fui como que transportada a uma nova esfera por essa maravilhosa aparição. Acreditando já fazer parte do mundo dos Espíritos, apalpei meu peito e a cabeça para assegurar-me de minha existência; mas nada havia de penoso nesse êxtase.

Depois de ter ficado assim em minha frente, sorrindo mas calada, durante cerca de alguns minutos, minha irmã, parecendo fazer um esforço inaudito, disse-me com voz suave:

“Devo partir: meu anjo condutor espera-me. Adeus! Cumpri minha promessa. Crê e espera!”

O jornal – acrescenta a Patrie – do qual extraímos esse maravilhoso relato, não disse se a Srta. Harris se converteu à doutrina espiritualista. Entretanto, supomos que sim, desde que muitas pessoas se teriam deixado convencer por muito menos.

 

Por nossa conta acrescentamos que esse relato nada contém que deva espantar os que estudaram os efeitos e as causas dos fenômenos espíritas. Os fatos autênticos desse gênero são bastante numerosos e encontram sua explicação naquilo que dissemos a respeito, em várias circunstâncias; teremos ocasião de os citar, e vindos de bem menos longe que este.

Allan Kardec



[1] REVISTA ESPÍRITA – outubro/1858 – Allan Kardec

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

JOSÉ SOARES CARDOSO[1]

 


 

Natural de Cedro do São João, município sergipano, nascia no dia 5 de fevereiro de 1927 José Soares Cardoso, um dos grandes semeadores da seara espírita. Filho de Pedro dos Santos Cardoso e Maria da Pureza Soares Cardoso, era autodidata.

Saiu de sua terra natal para São Paulo em 1946, tendo exercido diversas profissões, como bancário, comerciante, representante comercial e jornalista, além de editor do informativo mensal GUIAPRESS, que circulou em Cuiabá de 1983 a 1989.

Ocupando a função de representante comercial autônomo, percorreu grande parte do Brasil, levando a inúmeras cidades do país a sua mensagem de paz e fraternidade através da poesia.

Espírita militante desde 1951, transformou os Centros Espíritas do Brasil em sua tribuna, exercendo um dos mais belos ensinamentos deixado pelo Mestre Jesus: semear o amor. De acordo com o livro “Parábolas e Ensinos de Jesus”, de Cairbar Schutel, a palavra de Deus, a semente, é uma só, mesmo que seja apregoada em toda parte, desde que o homem se achou em condições de recebê-la. A terra que recebe as sementes representa o estado intelectual e moral de cada pessoa, e dessa forma Cardoso colocou em prática a frase de Jesus:  e saiu o semeador a semear a sua semente.

 Devido a essa admirável força de vontade, esse poeta pregava o Evangelho de Jesus em versos, em diversas conferências, recitais em clubes de serviços, Lojas Maçônicas e teatros de diversas cidades. Membro da UBE - União Brasileira de Escritores, suas obras ficaram registradas em livros e discos LP, como Acordes Espirituais (1955), Onde está Deus? (1976), Sonhos e Vivências (1984), Mato Grosso em foco (1989) e o esplendoroso livro Deus conosco em prosa e verso (1991), sua última obra antes de sua desencarnação, ocorrida em 16 de junho de 1991.

Homem de profunda pureza de coração e espírito elevado, era querido por todos onde passava. Participou de inúmeras sociedades culturais e atividades artísticas no movimento espírita, encantando a todos pela beleza de suas músicas e sua voz invejável, que, durante a sua enfermidade nos últimos momentos de vida carnal, ele perdeu. Considerado por muitos como um artista autêntico e nato, buscando sempre a essência das coisas nas profundezas do seu sublimado ideal cristão, José Soares Cardoso, em seus versos, conclamava aos homens de todo mundo que vigiassem seus pensamentos a fim de possibilitar que cada um pudesse, dentro de suas limitações, promover a construção de um mundo de paz e cheio de amor.

Segundo Lenine Póvoas, que em 1983 era Presidente da Academia Matogrossense de Letras, Soares Cardoso combatia o vendaval do materialismo brandindo apenas a arma da sua poesia admirável, no desejo de trazer de volta ao bom caminho os que se perderam nas trilhas do vício, do desajuste e da violência, sempre na esperança de que os valores éticos da vida voltariam a ser aplaudidos e venerados.

 José Soares Cardoso, em sua obra Onde está Deus?, disse que em face da agressividade do mundo atual sentia que a construção dessa obra fora um dever imposto pela sua própria consciência.

Embora considerasse minúsculas suas contribuições, oferecia seus livros escritos em poesias como armas a serem utilizadas na guerra contra as guerras, na batalha contra o ódio que tanto separa os corações humanos. Alegrava-se ainda em saber que não viveu em vão, que não se calou diante da maldade, diante da indiferença e do desamor, mas que plantou com suas mãos de poeta uma semente de amor na Terra.

O Evangelho segundo o Espiritismo nos ensina que devemos procurar os verdadeiros cristãos e reconhecê-los por suas obras, pois uma árvore boa não pode dar maus frutos. Cardoso, em uma de suas poesias, mostra claramente essa passagem quando diz que

A palavra de Deus, como a semente que o lavrador dentro da terra lança, floresce um dia inesperadamente, em árvore de paz e de bonança, e que a paisagem de sol e de esperança descortina-se alegre à nossa frente, infundindo em nossa alma a confiança de semear o bem permanente.

Abri, pois, vossos ouvidos e vossos corações, meus bem-amados. Cultivai esta árvore da vida, cujos frutos proporcionam a vida eterna. Aquele que a plantou vos convida a cuidá-la com amor, que ainda a vereis dar com abundância os seus frutos divinos. Deixai-a assim como o Cristo vo-la deu: não a mutileis. Sua sombra imensa quer estender-se por todo o universo; não lhe corteis a ramagem. Seus frutos generosos caem em abundância, para alentar o viajor cansado, que deseja chegar ao seu destino.



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=744

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

NOVA PISTA SOBRE A ORIGEM DOS ANTROPOIDES[1]

 


Thaís Fernandes

 

O enigma sobre a origem dos primatas antropoides, grupo que inclui macacos e seres humanos, acaba de ter mais uma pista revelada. A descoberta de alguns dos mais antigos fósseis africanos do grupo põe em xeque a teoria de que a África teria sido o berço dos primatas superiores. A diversidade de espécies encontrada sugere que o continente foi colonizado posteriormente pelos nossos ancestrais, junto com outros mamíferos.

Ainda não há consenso sobre a época e o local de surgimento dos primeiros primatas antropoides. Fósseis encontrados no Egito sustentavam a hipótese de que esse grupo se originou na África durante o período Cretáceo (de 145 milhões e 500 mil a 65 milhões e 500 mil anos atrás). Essa teoria já havia sido questionada após a descoberta de vários antropoides basais na Ásia.

Ainda não há consenso sobre a época e o local de surgimento dos primeiros primatas antropoides

A conclusão é de um estudo publicado esta semana na Nature por uma equipe internacional de pesquisadores liderados por Jean-Jacques Jaeger, do Instituto Internacional de Paleoprimatologia e Paleontologia Humana, Evolução e Paleoambiente (França).

Os novos fósseis descritos pela equipe tiveram a idade estimada em cerca de 39 milhões de anos (Eoceno médio tardio) e foram encontrados na formação Dur At-Talah, na Líbia central, no norte da África. O mais velho antropoide africano reconhecido até agora teria vivido há cerca de 40 milhões de anos na Argélia.

 

Formação Dur At-Talah, na Líbia

Vista panorâmica da formação Dur At-Talah, na Líbia central, onde foram encontrados fósseis de alguns dos mais antigos primatas antropoides africanos (foto: MPFL).

 

Diversidade surpreendente

O achado surpreende pela diversidade de espécies – quatro ao todo, sendo três novas (Karanisia arenula, Afrotarsius libycus e Talahpithecus parvus) e uma já conhecida pela ciência (Biretia piveteaui). Elas pertencem a três diferentes clados (grupo de organismos originados de um único ancestral comum) de antropoides e a uma subordem de primatas que tem como atuais principais representantes os lêmures de Madagascar.

 

Os pesquisadores acreditam que os antropoides podem ter evoluído na Ásia

Segundo os pesquisadores, a explicação mais provável para essa diversidade é que várias espécies de antropoides tenham evoluído e se diversificado em outro continente e depois se dispersado quase simultaneamente em direção à África durante o Eoceno médio.

“Sem evidência fóssil mais antiga na África, agora estamos olhando para a Ásia como o local onde esses animais evoluíram primeiro”, diz em comunicado à imprensa um dos autores do artigo, Christopher Beard, do Museu Carnegie de História Natural, nos Estados Unidos.

Outra justificativa é que os antropoides tenham surgido na África muito antes do que se imagina. Mas os paleontólogos não acreditam que a aparição repentina de tamanha diversidade de espécies vivendo aproximadamente ao mesmo tempo no norte da África seja fruto de uma lacuna no registro fóssil africano.

Outros sítios do mesmo período já foram bem estudados na região e não apresentaram indícios do surgimento dessas novas espécies.

 

Tendência de crescimento

Primatas antropoides primitivos

Representação artística das quatro espécies de primatas antropoides encontradas na Líbia (arte: Mark A. Klingler/Carnegie Museum of Natural History, Pittsburgh, Pa).

Os quatro primatas primitivos descobertos na Líbia eram notavelmente pequenos: o peso dos adultos variava de 120 a 470 gramas. Essa característica reforça a conclusão de que os antropoides surgiram a partir de indivíduos muito pequenos, baseada na análise de um agrupamento de primatas do Eoceno médio encontrado na China.

Segundo os cientistas, essas espécies começaram a ser suplantadas por outras maiores no Eoceno tardio, e essa tendência de crescimento entre os antropoides africanos primitivos continuou no Oligoceno.

Beard diz que, quando esses pequenos antropoides surgiram, a África era um continente isolado e não havia nada que pudesse competir com eles. “Isso leva a um período de divergência evolutiva florescente entre antropoides, e uma dessas linhagens resultou nos humanos”, explica.

“Se nossos ancestrais antropoides primitivos não tivessem obtido sucesso na migração da Ásia para a África, nós simplesmente não existiríamos.”

Além dos primatas descritos no artigo, foram identificados cinco roedores no sítio localizado na Líbia. A equipe destaca agora a necessidade de estudos em outros sítios do Eoceno médio na África e para entender melhor essa época pouco documentada da história evolutiva dos primatas.




quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

O ESPÍRITO NA SUA ORIGEM[1]

 


Miramez

 

− Como pode o Espírito, que, em sua origem, é simples, ignorante e carecido de experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa e ser responsável por essa escolha?

Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir, como fazeis com a criancinha. Deixa-o, porém, pouco a pouco, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, senhor de proceder à escolha e só então é que muitas vezes lhe acontece extraviar-se, tomando o mau caminho, por desatender os conselhos dos bons Espíritos. A isso é que se pode chamar a queda do homem.

− Quando o Espírito goza do livre-arbítrio, a escolha da existência corporal dependerá sempre exclusivamente de sua vontade, ou essa existência lhe pode ser imposta, como expiação, pela vontade de Deus?

Deus sabe esperar, não apressa a expiação. Todavia, pode impor certa existência a um Espírito, quando este, pela sua inferioridade ou má-vontade, não se mostra apto a compreender o que lhe seria mais útil, e quando vê que tal existência servirá para a purificação e o progresso do Espírito, ao mesmo tempo que lhe sirva de expiação.

Questão 262 / O Livro dos Espíritos

 

O Espírito na sua origem é simples e ignorante, contudo, ele tem a devida assistência na sua jornada inicial. Ele é guiado por benfeitores espirituais que o conduzem pelos fios do instinto, com toda a segurança. Ele, nesse estado d'alma, ainda não sabe cuidar da sua própria evolução. O seu despertamento vem pelas vias naturais, na gradação que o progresso pode dar, onde não participa seu esforço próprio, por não ter conhecimento da sua tarefa na Terra, a não ser pela intuição das leis que dormem no fundo da sua consciência, forças essas que despertam com o perpassar do tempo.

Ao raiar dos primeiros sinais de individualidade, o Espírito passa a escolher o que mais lhe convém, sem raciocinar no que poderá acontecer. As facilidades levam-no ao orgulho e ao egoísmo, e a violência cresce pelo poder da razão. Assim, o instinto que antes servir-lhe-ia de guia, se atrofia na sua origem.

É bom que não acreditemos que foi culpa da própria alma, ao escolher os caminhos que se tornarão em carma, em faltas que atraem reações compatíveis com o que foi feito. São processos criados por Deus, para educar todos os Seus filhos. Eis porque todos passamos por esses meios, e deles tiramos muito proveito no desenrolar do tempo, sob a elasticidade do espaço.

Muitos espiritualistas e espíritas custam a entender o que é livre-arbítrio. Basta pensar que Deus é onisciente e que, quando fez o Espírito, sabia desses caminhos que ele, na sua origem, deveria percorrer. Ele deixa a alma tomar esses roteiros por saber que são os melhores para o seu engrandecimento espiritual.

Como discutir com o Senhor? Ele não pede opinião aos homens, nem mesmo aos anjos para fazer as Suas leis. Ainda existem muitos segredos nas origens da alma, que no amanhã todos iremos saber. O conhecimento é gradativo. A criança se alimenta de leite materno, e o adulto de alimentos mais grosseiros; assim são os Espíritos, assim é a lei.

Todo livre-arbítrio é inspirado nas leis universais. Daí, se pode deduzir que somente Deus comanda tudo, desde a matéria primitiva na candura da sua origem, até à Sua corte celestial. A liberdade que cresce com o crescimento espiritual somente não sofre interferência quando tudo se encontra na harmonia, que corresponde às nossas necessidades. O Espírito foi feito simples e ignorante, mas, por dentro, carrega consigo, como tesouro divino, a vontade de Deus.

Podemos dizer que tudo que ocorre com o Espírito são processos de despertamento espiritual, de modo a levá-lo a conhecer a verdade. O Senhor Supremo nunca Se esquece de Seus filhos em todas as circunstâncias, e ainda nos ensina a nos ocuparmos de nós mesmos. O bem que fazemos a nós e aos outros verte de leis naturais e se afina com a consciência, de modo a nela permanecer para a eternidade. O mal nos incomoda; por isso deve sair de dentro de nós, cedendo lugar ao amor e à caridade. O óleo não se mistura com água.

Jesus Cristo, devemos dizer sempre com alegria, foi a misericórdia de Deus para a humanidade, que veio nos ensinar a acelerar nosso crescimento e nos tornar livres, mais depressa, das paixões inferiores e, com isso, saber tomar as decisões acertadas em todos os caminhos que nos compete trilhar.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 6 – João Nunes Maia

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

NATAL[1]

 


“Glória a Deus nas Alturas, paz na Terra e boa vontade para com os homens”.

Lucas, 2:14

 

As legiões angélicas, junto à Manjedoura, anunciando o Grande Renovador, não apresentaram qualquer palavra de violência.

Glória a Deus no Universo Divino. Paz na Terra. Boa vontade para com os Homens.

O Pai Supremo legando a nova era de segurança e tranquilidade ao mundo, não declarava o Embaixador Celeste investido de poderes para ferir ou destruir.

Nem castigo ao rico avarento.

Nem punição ao pobre desesperado.

Nem desprezo aos fracos.

Nem condenação aos pecadores.

Nem hostilidade para com o fariseu orgulhoso.

Nem anátema contra o gentio inconsciente.

Derramava-se o Tesouro Divino, pelas mãos de Jesus, para o serviço da Boa vontade.

A justiça do “olho por olho” e do “dente por dente” encontrara, enfim, o Amor disposto à sublime renúncia até à cruz.

Homens e animais, assombrados ante a luz nascente na estrebaria, assinalaram júbilo inexprimível...

Daquele inolvidável momento em diante a Terra se renovaria.

O algoz seria digno de piedade.

O inimigo converter-se-ia em irmão transviado.

O criminoso passaria à condição de doente.

Em Roma, o povo gradativamente extinguiria a matança nos circos.

Em Sídon, os escravos deixariam de ter os olhos vazados pela crueldade dos senhores. Em Jerusalém, os enfermos não mais seriam relegados ao abandono nos vales de imundície.

Jesus trazia consigo a mensagem da verdadeira fraternidade e, revelando-a, transitou vitorioso, do berço de palha ao madeiro sanguinolento.

Irmão, que ouves no Natal os ecos suaves do cântico milagroso dos anjos, recorda que o Mestre veio até nós para que nos amemos uns aos outros.

Natal! Boa Nova! Boa vontade!...

Estendamos a simpatia para com todos e comecemos a viver realmente com Jesus, sob os esplendores de um novo dia.


Que o nascimento de Jesus inspire sua vida e de seus familiares e amigos. Tenha um Feliz Natal.



[1] FONTE VIVA - “NATAL” – Francisco C. Xavier/Emmanuel

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

JOSÉ SALOMÃO MIZRAHY[1]

 

 

Carioca, nascido em 10 de junho de 1934, filho de Salomão Mizrahy e Rosa Mizrahy, foi criado na religião judaica com todos os seus dogmas.

Aos 22 anos, não sentia seu coração pleno e resolveu procurar outras religiões. Começou então a sua busca. Conheceu o Poder do Pensamento, mas ainda não era esse o caminho.

Em 1957, casou-se com Jamile Mizrahy. Teve três filhos: Rosa Mizrahy, Sérgio Mizrahy e Márcia Mizrahy Lima, que lhe deram cinco netos.

Foi para a Umbanda. Frequentou, durante seis meses, o Centro Estrela D´Alva, mas não se encontrou. Não era o que buscava. No Estrela D´Alva conheceu dois corações: Roberto  Chaves Martins e Tio Vadinho. Juntos foram para o Centro Espírita Bezerra de Menezes, em Botafogo, e lá, apesar de ter ficado pouco tempo, conheceu o Cristo na Doutrina Espírita e seu coração foi totalmente preenchido.

No início de 1959, começou a frequentar a Federação Espírita Brasileira (FEB), na Avenida Passos, no Rio de Janeiro, RJ. Lá conheceu Abelardo Idalgo Magalhães que o convidou a se integrar a um grupo de amigos que, mais tarde, após orientações recebidas de Chico Xavier, em Pedro Leopoldo, e terem a confirmação da orientação espiritual de Fabiano de Cristo, fundariam, em 17 de outubro de 1959, o Grupo Espírita Fabiano (GEF), no Méier, em cuja primeira diretoria José Salomão ocupou o cargo de tesoureiro e de que foi presidente por mais de 20 anos.

A partir daí, José Salomão passou a frequentar tanto o GEF como a FEB, quando conheceu Dr. Wantuil de Freitas que o convidou a colaborar no Departamento Editorial. Por várias décadas, foi seu diretor, ocupando cargos na Tesouraria e no Setor Gráfico.

Foi membro do Conselho Superior da FEB, representante dos Estados do Pará e Espírito Santo, no Conselho Federativo Nacional (CFN), assessor do presidente Francisco Thiesen, redator e gerente da revista “Reformador”, membro da Comissão de Construção da Sede da FEB, em Brasília, e médium do Grupo Ismael. Na FEB, sempre esteve muito ligado ao trabalho de divulgação da Doutrina Espírita junto à Editora, à revista “Reformador”, e a muitos projetos gráficos, como as Campanhas.

Por iniciativa dele, a FEB começou a participar de Feiras Internacionais do Livro, a partir de 1985, contando até 2003 com a força de trabalho da equipe do Grupo Espírita Fabiano, naqueles eventos.

Pela GEF, participou também de inúmeras atividades assistenciais, como o Posto Assistencial Auta de Souza, no interior de Belford Roxo, onde também funcionava a Escola de Alfabetização Esmeralda Bittencourt; visitação para a implantação do Evangelho no Lar; construção de barracos e reforma de casas; creche Maria de Nazaré, entre outras.

Em outra iniciativa pioneira, na década de 1960, conseguiu de Chico Xavier a cessão dos direitos autorais dos livros “Relicário de luz” e “Dicionário da alma”, ambos organizados por Esmeralda Campos Bittencourt, publicados pelo Grupo Espírita Fabiano, respectivamente, nos anos de 1962 e 1964.  Em 15 de novembro de 1972, o GEF transferiu, por doação, os direitos autorais dos livros citados para a Federação Espírita Brasileira.

No início dos anos 80, José Salomão foi convocado para novos testemunhos de coragem, paciência e resignação ante a manifestação  de uma enfermidade incurável, progressiva e degenerativa: a esclerose múltipla.

Após mais de 30 anos de tratamento, já com a saúde muito debilitada, José Salomão Mizrahy, nascido judeu, desencarnou espírita-cristão, em 21 de janeiro de 2014, no Hospital Casa  de Portugal, no Rio de Janeiro, com 80 anos incompletos.



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=751

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

DESUMANIZAÇÃO NO MOVIMENTO ESPÍRITA[1]

 


Dora Incontri

 

O assunto é pesado, mas não podemos nos omitir em tecer algumas reflexões em torno de um episódio ocorrido dias atrás na Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP). Chequei a informação em diversas fontes, antes escrever esse texto. Resumindo, para quem não soube ou não leu nas redes sociais, um companheiro espírita, Claudio Arouca, ficou desaparecido mais de 48 horas e a última notícia que se tinha dele era de que ele estava na FEESP. A família, depois de algumas horas do desaparecimento, desesperada, procurou a instituição e, pelo que narraram, não foi acolhida, não lhe foram fornecidas as gravações das câmeras e ninguém procurou pelo desaparecido. Apenas 48 horas depois, receberam da própria FEESP um telefonema dizendo que o corpo tinha sido encontrado no banheiro. Mas nem assim, foram melhor tratados. Não puderam ter acesso imediato ao familiar que havia morrido de um enfarte, porque estava havendo uma festa na Federação.

Só depois de muitas horas, o corpo já em putrefação, de que não puderam fazer nem velório, foi retirado. Além de todo surrealismo da situação, ainda foram destratados pela diretoria.

Esse episódio não me surpreende porque há muito que a FEESP é uma instituição onde a briga por cargos e poder já levou até a polícia lá para dentro, onde a impessoalidade é a tônica da uma instituição que cresceu tanto que perdeu o caráter de acolhimento humano – o que se revela no extremo de uma situação como essa, que aqui comentamos.

O problema é que a desumanização de instituições espíritas tem sido um sintoma muito grave de parte do movimento.

Sem dúvida que esse movimento reflete um cenário do mundo pós-moderno, hipercapitalista, em que o ser humano está cada vez mais perdendo as referências de ser humano. Justamente na semana desse acontecido, havia lido uma reportagem pavorosa no El País, em que se conta de pessoas que têm sido encontradas mortas há 3, 4, 5 anos na Espanha, mumificadas pelo clima seco e de que ninguém deu pela falta delas. Nenhum contato na vizinhança, pessoas sem familiares, sozinhas, solitárias, abandonadas.

Há algo mais estarrecedoramente desumano e triste do que essa morte sem nenhum afeto, sem nenhuma presença, sem nenhum cuidado?

E, de repente, vemos um fato como esse do companheiro Claudio Arouca (que os Espíritos bons cuidem dele como devem estar cuidando!), ocorrer dentro de uma instituição que se diz espírita!

Cabe-nos, portanto, questionarmos o que estamos fazendo enquanto movimento para nos diferenciarmos e resistirmos a essas tendências do mundo pós-moderno, em que o ser humano nada vale e não é notado olhos nos olhos e respeitado enquanto pessoa?

Kardec achava que os melhores centros espíritas (e isso está no Livro dos Médiuns) são centros pequenos, familiares, onde todos se conhecem e se gostam, pensam de forma afinada, estejam em sintonia afetiva e espiritual. Ora, no Brasil, há centros que viraram Igrejas, frequentados por multidões, impessoais – tem até alguns com catraca eletrônica – onde não há nenhum aconchego, nenhum olho no olho e se alguém que, mesmo frequentando a instituição há anos, tiver um comportamento fora da regra, é reenviado ao atendimento fraterno e se reincidente, expulso sem compaixão.

Claro que nada disso tem a ver com princípios como fraternidade, amor ao próximo, caridade ou o que se queira evocar. São centros em que a burocracia tomou o lugar da relação humana e afetiva. Ora, é evidente que num contexto desses, os Espíritos superiores não podem atuar.

É que se observa nesse caso da FEESP. Das pessoas que foram contactadas pela família (não sei quantas foram), por que não houve nenhuma que sentiu qualquer inspiração que o desaparecido estivesse ali na casa? Os Espíritos amigos do desencarnado e da família não tiveram a mínima brecha positiva para inspirar alguém. A desumanidade leva ao endurecimento e ao empedramento da mediunidade.

Tudo muito triste. Mas é necessária uma reação enérgica e vital. Saibamos de novo nos reunir em grupos pequenos, saibamos de novo cultivar amizades sólidas em grupos afins, em que cuidemos uns dos outros, com preocupação e empatia, sintonia e abertura para a inspiração do Alto.

Ainda é tempo de retomarmos o Espiritismo caseiro, onde os Espíritos bons se comunicam, em que todos estudam e participam espontaneamente, sem hierarquias e disputa por cargos. Que o amor despojado seja a tônica das relações entre encarnados e entre encarnados e desencarnados!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

OS ACIDENTES[1]

 


Miramez

 

Com todos os acidentes, que nos sobrevêm no curso da vida, se dá o mesmo que com a morte, que não pode ser evitada, quando tem que ocorrer?

São de ordinário coisas muito insignificantes, de sorte que vos podeis prevenir deles e fazer que os eviteis algumas vezes, dirigindo o vosso pensamento, pois nos desagradam os sofrimentos materiais. Isso, porém, nenhuma importância tem na vida que escolhestes. A fatalidade, verdadeiramente, só existe quanto ao momento em que deveis aparecer e desaparecer deste mundo.

 

Haverá fatos que forçosamente devam dar-se e que os Espíritos não possam conjurar, embora o queiram?

Há, mas que tu viste e pressentiste quando, no estado de Espírito, fizeste a tua escolha. Não creias, entretanto, que tudo o que sucede esteja escrito, como costumam dizer. Um acontecimento qualquer pode ser a consequência de um ato que praticaste por tua livre vontade, de tal sorte que, se não o houvesses praticado, o acontecimento não seria dado. Imagina que queimas o dedo. Isso nada mais é senão resultado da tua imprudência e efeito da matéria. Só as grandes dores, os fatos importantes e capazes de influir no moral, Deus os prevê, porque são úteis à tua depuração e à tua instrução.

 

Questão 859 / O Livro dos Espíritos

 

A nossa mente é força poderosa que pode criar situações nos nossos destinos. Os acidentes em geral são produzidos pela nossa invigilância, então, a lei nos cobra, por ser ela instrumento da Justiça. Os nossos benfeitores da eternidade sempre nos falam sobre o respeito às leis, e devemos atendê-los, confiando mais na força divina dentro de nós, emergindo pelos processos da nossa consciência.

Podes verificar que quando uma pessoa dirige um veículo e sempre desrespeita os sinais, mesmo que não tenha provação cármica de passar por um acidente de veículos, ele está criando essa condição pelo desrespeito aos sinais que significam ordem nas raias humanas. Quando acontece um acidente, apesar de toda a atenção do motorista, é a força da cobrança do passado, usando o ambiente do presente.

O que devemos fazer no momento é, pois, respeitar todas as leis, porque elas criam em nosso coração a harmonia que nos defende dos males que provêm da invigilância. Esses acidentes que ocorrem na vida são coisas insignificantes, que nascem da nossa incompreensão das leis, e é nesse proceder que aprendemos a entender todas as situações que surgem para nos educar.

Os benfeitores espirituais não gostam dos sofrimentos humanos por coisas que podem ser evitadas. Eles sempre avisam, por muitos meios, para os homens evitarem os perigos, a não ser certas provas que trazem para os seres humanos lições que somente elas poderão e terão a força de corrigir certos desvios arraigados na conduta humana.

A fatalidade existe, mas é bom que compreendas onde ela se expressa como tal. No final da resposta de O Livro dos Espíritos, a Entidade superior disse o seguinte:

A fatalidade, verdadeiramente, só existe quanto ao momento em que deveis aparecer e desaparecer deste mundo.

Medita bem sobre esta resposta, que compreenderás os nossos pensamentos com mais facilidade. A morte é uma fatalidade, mas a data de sua ocorrência pode ser mudada por Aquele que é puramente a vida. Reencarnar é uma fatalidade, mas as épocas são variáveis para todos os seres. A existência das leis, se podemos dizer, é uma fatalidade para todos nós, encarnados e desencarnados, desde quando precisamos delas. Ao encontrarmos a verdade, tornando-nos livres, já somos a lei e somos a vida, o caminho e a verdade. A liberdade de escolha do que deves passar revestido pela carne é, ou pode ser, uma fatalidade gerada pela tua escolha, que pode ser mudada, desde que Deus ache conveniente. A alma, pelo seu procedimento, piora ou melhora sua situação.

Em cada mensagem colocamos um traço do que pensamos da verdade, para que possas te cientificar de que o Espiritismo cresce nas suas exposições, e que o progresso se estampa nos seus conceitos, como força de Deus para a paz e a esperança de todas as criaturas. Não deves te maravilhar dos feitos e do avanço da Doutrina dos Espíritos porque, com o tempo, a força do Espiritismo dominará todo o mundo mental das criaturas e mostrará a todos grandes coisas, como disse Jesus, registrado por João no capítulo cinco, versículo vinte e oito:

Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão.

As palavras de Jesus, que os Espíritos superiores estão divulgando a todos, estão indo até os túmulos e desligando os Espíritos ali chumbados aos restos mortais, mostrando a eles a esperança de nova vida. Outras maravilhas deverão surgir, para glória d'Aquele que criou a própria vida!



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 17 – João Nunes Maia

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

FISICALISMO E A ALMA[1]

 


Dr. Douglas M. Stokes

 

O fisicalismo, a doutrina de que o mundo consiste em partículas de matéria-energia girando em obediência cega às leis da física, tornou-se a posição metafísica ascendente da ciência ocidental moderna. A maioria dos cientistas atuantes toma como certo que não há espaço nessa visão de mundo para as noções de almas, deuses ou vidas após a morte.

Este artigo explora a natureza das almas, vidas após a morte e possíveis deuses que seriam compatíveis com a ciência fisicalista moderna. Detalhes completos dos argumentos, com referências completas, podem ser encontrados no arquivo pdf. O que se segue aqui é um breve resumo.

 

Thanatopos

Faremos uma distinção entre oito tipos de almas, ou thanatopos (um termo mais neutro que não carrega a bagagem conceitual do termo "almas").

 

A Pessoa

A Pessoa é a união dos traços de personalidade de alguém, como memórias, emoções e habilidades, e o corpo físico atual, ou uma réplica dele. Alguém pode pensar que a Pessoa deve deixar de existir após a morte do corpo físico por definição. No entanto, é um dogma central das tradições religiosas abraâmicas, judaísmo, cristianismo e islamismo, que a Pessoa será divinamente ressuscitada no Dia do Julgamento. No entanto, a maioria dos praticantes dessas religiões pode nem saber sobre esse dogma da ressurreição, muito menos subscrevê-lo. Uma forma mais plausível de ressurreição para um cientista fisicalista moderno seria ter sua personalidade baixada em uma réplica cibernética ou clone de seu corpo.

 

Corpo de sonho ou corpo astral

O Corpo de Sonho ou Corpo Astral é um corpo de imagem que habita um sonho coletivo ou plano astral, que carrega muitos dos elementos de personalidade da pessoa falecida. No entanto, em vista da correspondência próxima entre sonhos e atividade cerebral no mundo presente, é difícil ver como um estado de sonho contíguo à vida presente de alguém poderia ser mantido após a dissolução do cérebro.

 

Personalidade

Evidências de casos de mediunidade e reencarnação sugerem que alguns traços de personalidade podem persistir após a morte. No entanto, a intrincada dependência de traços de personalidade, memórias e emoções na atividade cerebral, que foi amplamente demonstrada nas últimas décadas de pesquisa neuropsicológica, torna difícil imaginar como tais traços de personalidade podem persistir após a dissolução do cérebro no momento da morte. 

 

Centro da Consciência Pura

O eu essencial de alguém não é o fluxo de memórias, emoções e pensamentos que fluem pela mente. Esses conteúdos mentais são fugazes e mudam constantemente, enquanto o eu essencial de alguém permanece. O mesmo é verdade para o corpo físico, pois o material que compõe o corpo está passando por constantes mudanças. Se alguém persiste em intervalos de tempo macroscópicos, não deve ser o conteúdo do fluxo de consciência, mas sim o leito do rio por onde esse fluxo flui.

 

Doutrina Budista de 'Sem Mente' ou 'Sem Alma'

Certas escolas do budismo negam a existência de um eu contínuo, assim como alguns filósofos e cientistas modernos, como Daniel Dennett, Susan Blackmore e Thomas Metzinger. A adesão budista a essa doutrina parece entrar em conflito com a assinatura do budismo à doutrina da reencarnação. O que é que reencarna se a mente é simplesmente um fluxo de cognita fugaz sem eu ou observador? Além disso, a postulação simultânea de uma vida após a morte e a negação de um eu contínuo parecem contraditórias. A noção budista de "não eu" parece absurda. O mesmo é verdade para qualquer doutrina que fale de experiência sem um experimentador.

 

Uma Hierarquia de Almas

A doutrina de múltiplas almas ou eus dentro de uma única pessoa é encontrada na mitologia egípcia antiga e na filosofia aristotélica e, mais recentemente, foi proposta nos escritos de neurocientistas modernos, como Jonathan Edwards, que propõe que até mesmo células biológicas únicas, como os neurônios, são conscientes.

 

Mente ou Consciência Coletiva

A doutrina de que o próprio indivíduo é parte de uma mente ou consciência coletiva, promulgada por pensadores tão díspares como C.G. Jung e Pierre Teilhard de Chardin, e os renomados entomologistas Bert Hölldobler e E.O. Wilson, que propõem que coletivos como colônias de formigas devem ser considerados como "superorganismos" únicos.

 

Nada

Claro, muitos cientistas, filósofos e leigos negam que qualquer coisa da Pessoa sobreviva à morte. No que diz respeito à Pessoa, a vida após a morte seria um estado de Puro Nada. Se neste ponto você está assustado com a perspectiva de que a morte consiste em experimentar sua própria não existência pela eternidade, fique tranquilo. Você não pode experimentar nada se não existir. A não existência não pode ser experimentada mais do que uma garota de um braço pode segurar seu próprio punho. Além disso, em um estado de puro nada, você não terá mais problemas para incomodá-lo. Assim, o nada pode ser um estado de pura bem-aventurança. Infelizmente, o puro nada pode não ter poder de permanência. Em seu livro recente A Universe from Nothing,  o físico Lawrence Krauss sugere que o universo pode ser o resultado de uma flutuação no falso vácuo quântico que precedeu nosso universo. Claro, isso não é literalmente criação ex nihilo, pois o falso vácuo quântico e as próprias leis da física tiveram que existir antes que nosso universo se tunelasse para a existência.

 

Panpsiquismo

Parece haver uma aceitação crescente da doutrina do panpsiquismo entre filósofos e cientistas, que postula que toda matéria e energia possuem consciência ou percepção. O panpsiquismo aprimora o problema de como a consciência poderia surgir da matéria insensível, uma questão incômoda para a qual a ciência moderna não pode fornecer nenhuma resposta. Sob a visão panpsiquista, a consciência não surgiu ou evoluiu da matéria. Ela estava lá desde o início.

Sob a visão panpsiquista, cada próton ou elétron em seu corpo possui alguma forma de consciência. De fato, sob a teoria bem estabelecida da mecânica quântica, essas partículas estão cada uma emaranhadas com um grande número de partículas espalhadas por uma ampla região do espaço, e seu comportamento é governado por uma função de onda complexa que leva esses emaranhamentos em consideração. Em outras palavras, essas partículas respondem a (e, portanto, podem ser ditas como cientes de) outros eventos que ocorrem em uma região relativamente ampla do espaço-tempo. Muitas dessas partículas, como os prótons, são essencialmente imortais.

Nós nos experimentamos como centros simples e indivisíveis de consciência. Você poderia de fato ser algo como um próton? Se sim, é provável que você tenha entrado em seu corpo bem depois de seu nascimento, pois as partículas materiais em nossos corpos estão sendo continuamente recicladas. Também é provável que você saia de seu corpo muito antes de sua morte. Neste caso, a vida após a morte seria qualquer sistema de partículas materiais em que você ficasse "preso" depois de escapar de seu corpo atual, seja um animal, uma planta ou parte de uma nuvem circulante na atmosfera da lua de Saturno, Titã.

Nossos eus centrais, se concebidos como centros de consciência pura, parecem intuitivamente ser unitários e não divisíveis em componentes. A ilusão de que alguém habitou continuamente seu cérebro atual por décadas provavelmente surge das memórias armazenadas em seu conectoma (padrões de conexões neuronais) combinadas com sua construção cognitiva da entidade social conhecida aqui como a Pessoa.

Se, como centros de consciência pura, nos for concedida pelo menos alguma forma de paridade com tais entidades aparentemente (para nós) irracionais e insignificantes como quarks e elétrons, então é provável que nós, como eles, sejamos reciclados de sistema para sistema, caindo continuamente nas profundezas obscuras de um sistema de consciência primitiva após o outro, mas talvez de tempos em tempos nos unindo em um "supersistema", comparado ao qual nossa consciência humana atual parecerá a de uma ameba. Isso corresponderia a uma forma de reencarnação, provavelmente sem memória da encarnação anterior.

O eu que (parece) persistir por longos períodos de tempo (do nascimento à morte na visão popular e mais comum) não é o conglomerado de nossos pensamentos, sentimentos, memórias e sensações em si, que estão constantemente mudando, mas sim o campo de consciência pura no qual essas qualia atuam seu drama. Em outras palavras, somos recipientes de consciência em vez dos conteúdos desses recipientes, as telas de cinema em vez dos filmes.

Quando Descartes observou, 'Eu penso, logo existo', seu erro pode não estar na segunda cláusula (a afirmação da existência de um self contínuo e unificado). A experiência de si mesmo como um campo contínuo de consciência é imediatamente dada. Se alguém não pode nem mesmo saber que é um campo de consciência que continua de momento a momento (pelo menos ao longo dos últimos cinco minutos ou mais), então não pode saber nada. Para apoiar a conclusão de Descartes, o conhecimento da própria existência, pelo menos de momento a momento, não pode ser duvidado.

A evidência de um eu contínuo não é que ele pensa, o que pode não ser capaz de fazer sem a assistência maciça de um cérebro, mas que ele tem sentimentos e experiências.

 

A Simplicidade da Alma

Muitos filósofos propuseram que a alma ou eu é um centro indivisível de consciência pura. O filósofo D.H. Lund e muitos outros notam que a maneira pela qual uma coisa composta é destruída (isto é, dissolução de seus elementos) não é possível para almas, que carecem de partes em sua visão.

O famoso filósofo e matemático e filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz propôs que o universo consiste em centros de consciência pura, que ele chamou de mônadas. Essas mônadas formam uma hierarquia, na qual a mônada suprema é Deus. Leibniz chamou as mônadas de "almas" e propôs que cada ser humano era governado por uma "superalma".

 

Consciência e Matéria

Muitas pessoas tiveram dificuldade em conceituar como a mente poderia interagir com a matéria em vista das diferenças fundamentais entre elas. (Descartes e muitos filósofos subsequentes consideraram a mente como imaterial e sem qualquer extensão espacial). No entanto, cada um de nós parece estar de alguma forma "preso" em um cérebro humano ocupando uma região específica no espaço, ainda que temporariamente. Assim, parece que o eu, construído como um campo de consciência, tem algumas propriedades espaciais, mesmo que seja apenas a propriedade de estar, pelo menos temporariamente, preso em um cérebro humano ocupando uma região específica no espaço.

Disto não se segue que o eu em sua totalidade esteja confinado a uma localização espacial no cérebro humano ou região circunscrita do espaço. Mesmo partículas elementares de matéria, como elétrons e prótons, normalmente não têm nenhuma localização particular no espaço-tempo até que sejam forçadas a adotar uma por meio de um ato de observação.

 

Mistério

Há posições filosóficas que evitam os absurdos científicos do materialismo eliminativo que nega a consciência, a rejeição arrogante do mundo material por filósofos idealistas e as dificuldades do dualista em explicar as interações entre uma mente imaterial e um cérebro material.

Um deles é o panpsiquismo (acima), que soluciona o problema filosófico intratável de explicar como a consciência pode surgir da matéria insensível: ela estava lá o tempo todo.

Depois, há a doutrina estranhamente atraente do "misterianismo", cujo proponente mais notável é Colin McGinn. Ele argumenta que os glóbulos de 100 bilhões de neurônios pulsantes, semelhantes a amebas, que compõem o wetware biológico de nossos cérebros evoluíram para descobrir como prender melhor uma cabeça de machado de pedra a um pedaço de pau para espancar o cérebro do nosso vizinho até a insensibilidade, em vez de nos permitir entender os reinos para os quais a consciência do nosso vizinho fugiu depois que completamos nossa obra. Na visão de McGinn, o papel da consciência e a natureza da alma permanecerão para sempre além do alcance de nossos cérebros primitivos de primatas. Ele até sugere que as mentes conscientes podem ser remanescentes de um mundo não espacial que precedeu o Big Bang, e ele levanta a hipótese de que podemos não estar mentalmente equipados para resolver o problema de como mentes e cérebros interagem.

 

Mentes Colmeias

E se nossos neurônios pudessem se mover? O coletivo deles poderia então ser considerado um cérebro ainda mais complexo? Hölldobler e Wilson propõem que comunidades de insetos compreendem 'superorganismos' e que a seleção evolutiva atua na colônia como uma unidade, em vez de nos insetos individuais. Toda a humanidade e suas conexões de Internet podem ser consideradas como um único supercérebro, talvez associado a esferas globais de consciência? O biólogo celular Jonathan C.W. Edwards e Willard Miranke, um cientista da computação especializado em redes neurais, propuseram que cada neurônio no cérebro está associado ao seu próprio centro de consciência. Devido à complexidade da entrada para cada neurônio, cada um desses centros de consciência provavelmente se identificaria com o corpo como um todo e, portanto, cairia na ilusão de que é o único eu consciente 'encarregado' de todo o corpo.

Partículas elementares como elétrons e quarks às vezes ficam embutidas em cérebros físicos; essas partículas persistem e permanecem presas por intervalos de tempo 'longos' como minutos e horas. Se um elétron pode 'encarnar' em um corpo por um período de tempo, então ser expelido e então ser 'reencarnado' em outro corpo ou sistema físico, então nós também podemos. Nós mesmos podemos ser entidades materiais ou quase materiais que podem ficar presas em cérebros individuais temporariamente. Podemos ser uma partícula ou campo já conhecido pela ciência física, embora seja mais provável que sejamos uma entidade ainda a ser descoberta e explicada.

Nós nos experimentamos diretamente como campos unificados de consciência que persistem, ainda que brevemente, por meio de mudanças em nossos estados cerebrais e composição corporal. Achamos que persistimos como os mesmos eus ao longo da vida de nossos corpos. Nisso podemos estar errados. Se as memórias são, como indica um corpo esmagador de evidências científicas, armazenadas como padrões de conexões sinápticas entre neurônios em nossos cérebros, como você sabe que é o mesmo campo de consciência que habitava seu corpo quando adormeceu? Se você pode se apegar ao seu cérebro algum tempo após a concepção e se desligar dele no momento da morte, é lógico que você também pode se apegar a ele muito depois do nascimento e deixá-lo bem antes da morte. Nossa associação com nossos corpos pode ser apenas temporária. Conforme observado acima, se estamos sendo continuamente reciclados, então quando acordamos de manhã, podemos não estar nos mesmos corpos que estávamos no dia anterior. Se nossas memórias, pensamentos e emoções são em grande parte uma função de nossos estados cerebrais, não nos lembraríamos de nossa existência como, digamos, um corvo no dia anterior.

 

Criadores

Se o verdadeiro eu de alguém é Atman, ou consciência pura, há algum Brahman ou Consciência maior para ele se fundir, ou ser idêntico? Nos últimos tempos, os cientistas deram as costas aos conceitos de divindades e um Criador. Argumentos para um Designer foram amplamente abandonados como regressivos. Afinal, se houve um Designer, quem O projetou (ou Ela ou Eles ou Isso)? Se houve um 'pré-universo', então o que o precedeu?

A resposta para alguns é consciência. O proeminente matemático e físico Sir James Jeans, ponderando as sutilezas da matemática das leis da física e a aparente dependência de eventos materiais sobre a observação por mentes conscientes, observou que o "universo começa a parecer mais um grande pensamento do que uma grande máquina". Outro grande físico, Sir Arthur Eddington, observou, "a matéria do mundo é matéria mental".

Mais recentemente, Henry Stapp afirma que, sob a mecânica quântica, o mundo tem uma estrutura essencialmente 'semelhante a uma ideia'. Richard Conn Henry, um físico da Universidade Johns Hopkins, afirma que o universo é 'inteiramente mental' por natureza e 'consiste em nada além de ideias'. De fato, a realidade básica do mundo parece ser uma de ondas de probabilidade quânticas habitando um espaço matemático abstrato e multidimensional, em vez de elétrons e prótons sólidos, semelhantes a mármores, ziguezagueando em um continuum espaço-tempo quadrimensional que imaginamos ser os firmes alicerces de nossa existência material.

 

Uma Hierarquia de Eus

A noção de que a mente humana pode ser composta de uma montagem de centros de consciência interagindo é antiga. Pode ser rastreada até Aristóteles, que postulou a existência de uma "alma vegetativa", uma "alma sensível" e uma "alma racional" em cada pessoa. F.W.H. Myers levantou a hipótese da existência de vários eus independentes dentro da mente inconsciente ou "subliminar". William McDougall propôs que a mente humana normal é composta de uma hierarquia de "personalidades co-conscientes", cada uma desempenhando sua própria função separada.

Como observado acima, a busca por uma "causa primeira" do universo provavelmente será regressiva. Se Deus criou o universo, então o que criou Deus? Se nosso universo surgiu de um vácuo quântico e é, portanto, um "almoço grátis", como muitos físicos atuais afirmam, de onde vieram as regras que o vácuo quântico deve obedecer?

 

Conclusões

Nós nos apegamos à nossa forma atual de existência pensando que não há outra, mas quando você para pensar sobre o assunto, corpos humanos, com seus males, necessidades e subjugação em trabalhos repetitivos e irracionais, podem não ser os melhores lugares do universo para se habitar. Na verdade, eles podem ser "mini Infernos", aberrações no grande esquema cósmico. Mas podemos não habitar tais Infernos (ou tais Céus que possam existir) pelo tempo que pensamos. Talvez a melhor coisa a fazer seja seguir o conselho do poeta Robert Frost e parar momentaneamente os "cavalos" que estamos atualmente montando para apreciar a beleza da neve que cai. Como Frost sugere, pode haver quilômetros a percorrer (embora talvez não tantos quanto se possa pensar) antes de dormirmos (e entrarmos em mais um sonho).

 

Traduzido com Google Tradutor

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

JOSÉ PASSINI[1]

 


 

Era natural de Nova Itapirema, interior de São Paulo, mas residiu vários anos na cidade mineira de Juiz de Fora. Espírita desde a infância, considerava a Doutrina codificada por Kardec como uma bússola em sua vida.

Segundo ele, o Espiritismo podia ser comparado a um farol que iluminava seus caminhos:

Ele me faz assumir, dizia, cada vez mais, a minha condição de Espírito imortal, temporariamente encarnado, isto é, conscientizando-me da minha cidadania espiritual.

Dirigiu a Associação Médico-Espírita de Juiz de Fora, e a Revista O Médium.

Foi reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora, entre os anos 1990 e 1994.

Foi homenageado com a Medalha JK, a maior honraria da Universidade, em 2010 e com a Medalha do Mérito Comendador Henrique Guilherme Fernando Halfeld, conferida pela Prefeitura de Juiz de Fora.

Doutor em Linguística, seu extenso currículo revela a ocupação de diversos cargos em Casas Espíritas. Fazia parte da equipe do programa Opinião Espírita (rádio e TV) e do Departamento de Evangelização da Criança da Aliança Municipal Espírita de Juiz de Fora.

Foi diligente trabalhador na divulgação da Doutrina Espírita, sendo um expositor incansável. Foi também um ardoroso esperantista, tendo realizado vários encontros para a divulgação do Esperanto.

Retornou à Pátria Espiritual, na madrugada de 19 de maio de 2023, aos 97 anos. A Universidade Federal de Juiz de Fora decretou luto de 3 dias pela sua desencarnação.



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=3320

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

MEMÓRIA, ONDE ESTÁS QUANDO TE ESCONDES DE MIM?[1]

 


Nubor Orlando Facure

 

Se há uma coisa fugidia são as nossas memórias.

Todos já nos sentimos perdidos quando elas se escondem na hora que mais precisamos. Mas, se há uma função complexa dentro e fora de nós, é justamente a memória. Digo dentro e fora, porque sou daqueles que acreditam na existência de memórias extracerebrais.

Vamos fazer uma leitura simplificada sobre onde encontrar minhas memórias:

Memória celular - Se memória for a recordação de um fato que aconteceu no passado, podemos dizer que ela existe, inclusive, nos nossos glóbulos brancos e anticorpos. Eles entram em contato com o vírus do sarampo e constroem uma resposta química para essa invasão. Um novo ataque, numa epidemia de sarampo, eles reconhecem o invasor e tomam medidas para sua expulsão.

Os neurônios e a memória - Neurônio aprende com a repetição do estímulo. Há dois fenômenos nesse processo.

O primeiro é a "sensibilização". Repetindo um choque o neurônio fica superexcitável a cada vez que recebe o estimulo elétrico.

O segundo é a "habituação". De tanto repetir uma picada incômoda, você se acostuma.

O cérebro e a memória - Suponha que eu detecte com os olhos a visão de um objeto que passa voando na minha frente.

Observo detalhes e percebo que é um pássaro. Agora vejo suas cores. Ele bate as asas. Voa num vaivém, ora para um lado, ora para o outro. Peito amarelo, dá um piado estridente cantando: seria um Bem-te-vi?

O cérebro tem áreas específicas para cada tarefa: para vermos o objeto; para sabermos onde ele está. Há outras áreas para percebermos suas cores e outras ainda para vermos seus movimentos

A seguir, todos esses detalhes são comparados com meus arquivos no hipocampo, onde guardo memórias aprendidas. Ali, nos hipocampos, vejo os pássaros que já vi no passado e os guardo arquivados.

Noto que não era um Bem-te-vi, pois é totalmente diferente: deve ser um sabiá. Foram o tamanho do bico e o canto sonoro do sabiá.

E a seguir, o que vai ocorrer? Percorro o caminho inverso: do hipocampo para todo o cérebro. Ali confirmo uma a uma as diferenças do sabiá com o Bem-te-vi.

Na verdade, nossas memórias não são arquivadas, ou engavetadas. Os detalhes de todas as coisas do mundo são esparramadas por todo o córtex cerebral. No futuro, quando passar por mim um pássaro piando, eu saberei quem é. Já o conheci antes.

Um detalhe aqui, outro ali. Meu cérebro fica cheio de informações que o mundo vai jogando para dentro de suas conexões.

Mas, vale repetir: o cérebro não coloca as informações numa gaveta ou numa pasta de arquivos. Ele distribui as peças do quebra-cabeças e ocupa várias áreas no córtex.

Isso traz vantagens: quando vejo uma cruz na torre, lembro-me logo da Igreja matriz. Quando vejo a ambulância, logo me vem a lembrança do pronto-socorro onde trabalhei.

Quando a gente esquece um fato, ele pode ser resgatado com uma pequena pista, às vezes o cheiro de madeleine, famoso bolinho francês. Um sapatinho de cristal me lembra a Cinderela.

 

O perispírito e a memória

O perispírito é um corpo de natureza espiritual e fluídica (semimaterial)

As memórias nesse corpo podem utilizar-se de dois sistemas. Um deles se sobrepõe ao cérebro físico, funcionando com a mesma fisiologia dos neurônios e suas conexões, transmissão de impulso elétrico e liberação química nas sinapses

Um outro sistema é decorrente das propriedades "metafísicas" do perispírito. Ele é dirigido por ação direta do pensamento. Memória no perispírito é vibração, por isso ele se desloca no espaço e no tempo seguindo a força dos nossos desejos. Ele atua sobre objetos inanimados dando-lhes "propriedades" próprias dos seres vivos. Vivifica os objetos.

Algumas descrições clínicas podem facilitar nosso entendimento:

Indivíduos hipnotizados podem deslocar sua atividade mental ou, mais precisamente, seu perispírito para um acidente de que participou no passado distante. Durante o fenômeno hipnótico ele vivencia o passado como se fosse o presente. Poderá fazer descrições detalhadas do ambiente do desastre que na ocasião não percebera.

O perispírito não tem limites em sua memória. Ele nos permite vivenciar de novo os detalhes do passado, repete o momento como se estivesse no presente.

Os obsessores, utilizando os recursos da hipnose, podem manter suas vítimas fixadas na cena de um crime, perpetuando a culpa. É a memória cristalizada.

Nos fenômenos de sonho lúcido observa-se que as percepções se ampliam e as recordações se expandem. A mente transita com o perispírito durante esse tipo de sonho.

 

O Espírito e a memória

Não conhecemos a natureza do Espírito. Sabemos ser o princípio inteligente.

Fonte dos nossos saberes. Senhor do nosso passado multimilenar.

Numa linguagem física podemos dizer que tudo no Universo é energia e vibração. Ensina a filosofia chinesa que qualquer partícula conta em suas vibrações toda a história do Universo.

Mas, que "partícula" vibra no Espírito?

Uma centelha do pensamento de Deus.



[1] O CONSOLADOR - Ano 18 - N° 896 - 3 de Novembro de 2024 - https://www.oconsolador.com.br/ano18/896/ca5.html