Saul e a Bruxa de Endor, 1828, óleo sobre tela, Smithsonian American Art Museum
Allan Kardec
Uma carta de um dos nossos
correspondentes contém o seguinte relato:
...Começo por uma
recordação de minha infância, que jamais esqueci, embora remonte a uma época já
bem afastada.
Em 1819 ou 1820,
falou-se muito em Saumur de uma aparição a um oficial da guarnição da cidade.
Aquele oficial, hospedado na casa de uma família distinta, deitou-se pela manhã
para repousar de uma noite insone. Algumas horas depois, abrindo os olhos,
percebeu uma sombra no quarto, vestida de branco.
Julgando uma
brincadeira de um de seus camaradas, levantou-se para ir ao brincalhão. A
sombra recuou à sua frente, deslizou para alcova e desapareceu. A porta, que
ele havia fechado para não ser incomodado, ainda estava fechada, e uma mocinha
da casa, doente há algum tempo, acabava de morrer naquele mesmo instante.
O fato, que resvala
no Espiritismo, lembrou a um de seus camaradas, Sr. de R..., tenente de
cavalaria, um sonho extraordinário que tivera há muito tempo e que então deu a conhecer.
Estando na guarnição
de Versalhes, o Sr. R... sonhou que via um homem cortando a garganta e
recolhendo o sangue num vaso. Levantou-se às cinco horas da manhã, muito
preocupado com o sonho e dirigiu-se ao quartel de cavalaria; estava em serviço.
Seguindo uma rua
ainda deserta, percebeu um grupo de pessoas examinando algo com muita atenção.
Aproximou-se e soube que um homem acabava de se matar e, coisa extraordinária,
disseram-lhe que tinha feito correr o sangue numa tina, cortando o pescoço. O Sr.
de R... reconheceu nas feições desse homem aquele mesmo que tinha visto durante
a noite, no sonho.
Eu só soube desses
fatos por ouvir dizer, e não conheci nenhum dos oficiais. Eis outros, que me
são quase pessoais:
Minha mãe era uma
mulher de uma piedade verdadeira e esclarecida, que na maioria das vezes só se
manifestava por uma ardente caridade, como o ordena o Espiritismo, mas sem
qualquer caráter supersticioso e impressionável. Muitas vezes me contou esta lembrança
de sua juventude. Quando moça, tinha uma amiga muito doente, ao lado da qual
passava parte das noites, para lhe prestar cuidados. Uma noite em que caía de
fadiga, o pai da doente insistiu para que fosse repousar, prometendo-lhe que se
a filha piorasse iria preveni-la. Minha mãe cedeu e deitou-se, depois de ter
trancado bem o quarto. Cerca de duas horas da manhã foi despertada pelo contato
de dois dedos gelados sobre o ombro. Ficou vivamente impressionada e não
conseguiu mais dormir. Então se vestiu para ir à sua querida doente, e já ia
abrir a sua porta quando bateram na porta da casa. Era um empregado que vinha
comunicar-lhe a morte de sua amiga, que acabava de expirar.
Certo dia do ano de
1851 eu percorria a galeria de quadros e retratos da família do magnífico
castelo de C..., conduzido pelo Dr. B..., que tinha sido médico da família.
Parei algum tempo em frente ao retrato de um homem de quarenta e poucos anos, vestido,
tanto quanto posso lembrar, com um costume azul, colete listrado de vermelho e
preto e calças cinzentas. O Sr. B... se aproximou de mim e disse: “Eis como vi
o conde de C..., quinze dias depois de sua morte.” Pedi uma explicação e eis o
que me foi respondido: “Certa noite, na bruma, mais ou menos quinze dias depois
da morte do Sr. de C..., eu saía do quarto da senhora condessa. Para sair, eu
devia seguir um longo corredor, no qual se abria a porta do gabinete do Sr. de
C... Quando cheguei em frente daquela porta, ela se abriu e o Sr. de C... saiu,
avançou para mim e marchou ao meu lado até a porta de saída.
O Sr. de B...
atribuiu o fato a uma alucinação. Mas, em todo o caso, ela se teria prolongado
muito, porque penso que no fim do corredor havia outra peça a atravessar antes
da saída.
Enfim, eis um fato
que me é inteiramente pessoal.
Em 1829, creio, em
Hagueneau, na Alsácia, eu era encarregado da direção de uma enfermaria de
convalescentes, que nos enviava a numerosa guarnição de Strasburgo, então muito
atacada por febres intermitentes. No número dos doentes eu tinha um jovem
tocador de tambor que, todas as noites, depois de meia noite, sentia alguém
deslizar em seu leito, agarrá-lo e morder-lhe o peito à altura da mama
esquerda. Os seus camaradas de quarto me disseram que nos últimos oito dias
eram despertados por seus gritos; que ao se aproximarem dele o encontravam
agitado, apavorado e só podiam acalmá-lo depois de explorar com a ponta do
sabre e constatar que não havia ninguém, nem debaixo da cama, nem nas
cercanias. Encontrei o jovem soldado com o peito um tanto inchado e doloroso do
lado esquerdo, e então atribui seu estado à ação desta causa física sobre a sua
imaginação; mas o efeito só se produzia por alguns instantes em cada vinte e
quatro horas.
Produziu-se ainda
algumas vezes, depois não mais ouvi falar do caso...
Observação –
Sabe-se quão numerosos são os fatos desse gênero; o Espiritismo os admite,
porque lhes dá a única explicação racional possível. Por certo haverá, nesse
número, alguns que, a rigor, poderiam ser atribuídos ao que se convencionou
chamar de alucinação, ou a uma preocupação do Espírito; mas já não poderia ser
assim quando são seguidos de uma ação material. São tanto mais importantes
quanto mais reconhecida sua autenticidade, e não podem, como dissemos num
artigo precedente, ser levados à conta de habilidades.
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