Marco Milani /
Fernando Porto
A leitura superficial de trechos
nas obras fundamentais, isolados de seu contexto, pode gerar interpretações
doutrinariamente equivocadas quando associadas aos conceitos e práticas de
outras tradições filosóficas e religiosas. Tal é o caso da efetividade de
preces realizadas por um grupo de pessoas, como mencionada no ’O Evangelho
Segundo o Espiritismo, Capítulo XXVII, item 15.
Os Espíritos ensinam que é o
pensamento que caracteriza o poder da prece, independentemente das palavras, do
lugar e do momento em que é feita, sendo a sinceridade e a humildade suas
condições necessárias. Quando realizada em conjunto, portanto, não é a quantidade
de pessoas, mas a qualidade dos pensamentos e as intenções individuais o que
realmente importa. Havendo perfeita sintonia, a prece em comum pode amplificar
a atração do concurso dos bons Espíritos.
Os problemas interpretativos
partem, entretanto, não do reconhecimento de que a convergência sincera de
intenções seja benéfica, mas da mecanização e quantificação do processo de
comunicação entre encarnados e desencarnados sob uma imprecisa perspectiva material
e mística. Ao supor que a repetição sistemática e o agendamento temporal por
meio de horários fixos para a prece em conjunto despertarão mais atenção
espiritual ou produzirão “combinações fluídicas” para serem utilizadas em algum
processo terapêutico em larga escala, identifica-se fragilidade doutrinária
dessa concepção que reintroduz elementos de ritualismo incompatíveis com a
natureza essencialmente racional, livre e não litúrgica do Espiritismo.
A ação dos Espíritos não está
condicionada a relógios, fusos horários ou agendas organizadas por encarnados
em prece. Ao contrário, a assistência espiritual é contínua, dinâmica e
orientada por critérios superiores, alheios à pretensão de controle humano.
Esse tipo de proposta aproxima-se das práticas devocionais do igrejismo
dogmático como novenas, terços e correntes.
Kardec foi claro ao afastar
qualquer forma de culto exterior, fórmula sacramental ou rituais por meio de
mecanismos repetitivos que pretenda conferir eficácia automática à prática
espiritual.
Outro aspecto crítico é a noção
de “corrente vibratória” como instrumento de intervenção coletiva. O termo não
possui definição rigorosa nas obras espíritas fundamentais e frequentemente é
empregado de maneira vaga e simbólica como emissão difusa de bons pensamentos
com efeitos amplos e pouco definidos. Ao se afirmar que grupos organizados, em
horários fixos, formariam uma “corrente de auxílio” capaz de influenciar
cenários complexos, como conflitos geopolíticos, induz uma pueril visão
mecanicista da espiritualidade. Essa perspectiva simplifica indevidamente a
realidade e sugere que a soma de intenções simultâneas produziria efeitos
proporcionais, como se se tratasse de um fenômeno físico mensurável.
A adesão a esse tipo de prática
pode ser parcialmente explicada, do ponto de vista da psicologia social, por
fenômenos como coesão grupal e viés de confirmação. A realização simultânea de
uma atividade simbólica tende a intensificar a percepção de pertencimento e
propósito, frequentemente interpretada como evidência de efetividade. Tais
efeitos, contudo, dizem respeito à experiência subjetiva dos participantes e
não constituem, por si, demonstração de ampliação causal no plano espiritual. A
distinção entre vivência psicológica e ação espiritual efetiva é necessária
para evitar que percepções internas sejam indevidamente convertidas em
explicações sobre a dinâmica da intervenção dos Espíritos.
Outro ponto que merece reflexão
é o efeito institucional dessas práticas. Ao serem promovidas por organizações
e lideranças representativas, acabam por legitimar uma forma de espiritualidade
mística, centrada em gestos simbólicos e emocionalmente confortáveis. Isso
contribui para o empobrecimento intelectual do movimento, deslocando o eixo do
estudo sistemático das obras kardequianas e do autoconhecimento para práticas
coletivas de fácil adesão. O resultado é a formação de um público cada vez mais
distante da base doutrinária e mais suscetível a interpretações lúdicas.
É importante destacar que a
crítica aqui não se dirige à prece em si, que é amplamente reconhecida na
doutrina como recurso legítimo de elevação moral e conexão com o plano
espiritual, nem no hábito salutar de atividades agendadas previamente fora do
centro espírita, como reuniões doutrinárias de estudo realizadas por uma
família (comumente denominadas de Evangelho no Lar). O problema está na sua
transformação em prática coletivizada sob moldes que lembram rituais religiosos
tradicionais. A prece espírita é essencialmente livre, espontânea e individual,
podendo, no entanto, ser organizada ou realizada coletivamente sem perder seu
caráter pessoal. O que não se sustenta é a tentativa de conferir-lhe eficácia
especial por meio da simultaneidade organizada.
O atavismo religioso presente em
alguns adeptos talvez explique parcialmente a preferência pelo misticismo
ritualístico, mas cabe ao dirigente espírita contribuir para que a coerência
doutrinária prevaleça em nome da racionalidade.
[1] EDUCADOR ESPÍRITA - https://educadorespirita1.blogspot.com/2026/05/prece-sem-hora-marcada.html?
[2] Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.212,
mai/jun 2026, p. 29-30

Nenhum comentário:
Postar um comentário