Allan Kardec
Extraímos as passagens seguintes
da carta de um dos nossos correspondentes de Bordeaux:
“Eis aqui, meu caro senhor Allan
Kardec, um novo relato de fatos extraordinários que submeto à vossa apreciação,
rogando tenhais a bondade de interrogar o Espírito que os produziu.
“Uma jovem mulher, que
chamaremos senhora Mally, é a pessoa por intermédio da qual se deram as
manifestações que constituem o assunto desta carta. Ela reside em Bordeaux e
tem três filhos.
“Desde tenra idade, com cerca de
nove anos, tem tido visões. Certa noite, ao voltar a casa com a família, viu no
canto da escada a forma muito distinta de uma tia, falecida há quatro ou cinco
anos. Soltando uma exclamação, disse: Ah! Minha tia! E a aparição
desapareceu. Dois anos depois, ouviu uma voz que a chamava, nela julgando
reconhecer a da tia morta. O chamado era tão forte que não pôde deixar de
dizer: Entrai, minha tia! Como a porta não se abrisse, ela mesma foi
abri-la; não vendo ninguém, desceu à procura de sua mãe para se informar se
alguém tinha subido.
“Alguns anos depois encontramos
essa senhora sob o domínio de um guia ou Espírito familiar, que parece
encarregado de velar sobre sua pessoa e sobre seus filhos, e que presta uma
porção de pequenos serviços em casa, entre outros o de despertar os doentes à
hora marcada para tomar o chá ou aqueles que desejam partir; por certas
manifestações ele revela o seu estado moral. Este Espírito tem um caráter pouco
sério; entretanto, ao lado de sinais de leviandade, tem dado provas de
sensibilidade e afeição. Geralmente a Sra. Mally o vê sob a forma de uma
centelha ou de uma grande claridade, embora se manifeste a seus filhos sob a
forma humana. Uma sonâmbula pretendia ter-lhe dado esse guia, sobre o qual
parecia exercer certa influência. Quando a Sra. Mally ficava algum tempo sem se
preocupar com seu guia, este cuidava de se fazer lembrado por algumas visões
mais ou menos desagradáveis. Uma vez, por exemplo, quando ela descia sem luz,
percebeu no patamar um cadáver envolvido num sudário luminoso. Essa senhora tem
uma grande força de caráter, como veremos mais tarde; entretanto, não se pôde
forrar a essa impressão assaz penosa e, fechando firmemente a porta do quarto,
foi refugiar-se junto à mãe. De outras vezes sentia que lhe puxavam o vestido
ou experimentava roçaduras, como se alguém ou algum animal se lhe encostasse
levemente. Essas traquinagens cessavam logo que ela dirigia um pensamento ao
seu guia e, por sua vez, a sonâmbula admoestava a este último e o proibia de
atormentá-la.
“Em 1856, a terceira filha da
senhora Mally, de quatro anos de idade,
adoeceu no mês de agosto. A criança estava continuamente mergulhada num estado
de sonolência, interrompido por crises e convulsões. Durante oito dias eu mesmo
a vi, parecendo sair do seu abatimento, adquirir uma expressão sorridente e
feliz, de olhos semicerrados, sem olhar para as pessoas que a cercavam,
estender a mão por meio de um gesto gracioso, como para receber alguma coisa,
levá-la à boca e comer; depois agradecer com um sorriso encantador. Durante
esses oito dias a criança foi sustentada por esse alimento invisível e seu
corpo readquiriu a aparência do frescor habitual. Quando pôde falar, parecia
haver saído de um sono prolongado e contava visões maravilhosas.
“Durante a convalescença da
menina, por volta do dia 25 de agosto, ocorreu, nessa mesma casa, a aparição de
um agênere. Cerca de dez e meia da noite a Sra. Mally, segurando a
pequena pela mão, descia uma escada de serviço quando percebeu um indivíduo que
subia. A escada estava perfeitamente iluminada pela luz da cozinha, de modo que
ela pôde distinguir muito bem o indivíduo, cuja aparência era a de uma pessoa
de constituição vigorosa. Chegados ao patamar ao mesmo tempo, encontraram-se
face a face; tratava-se de um rapaz de aspecto agradável, bem vestido, com um
boné à cabeça e segurando na mão um objeto que ela não foi capaz de distinguir. Surpreendida com
esse encontro inesperado àquela hora e numa escada quase escondida, a Sra.
Mally o encarou sem dizer uma palavra e sem perguntar o que ele queria. Por sua
vez o desconhecido a observou em silêncio por alguns instantes, depois deu meia
volta e desceu a escada, esfregando no corrimão o objeto que tinha na mão e que
produzia um ruído semelhante ao de uma varinha. Assim que desapareceu a Sra.
Mally precipitou-se para a sala onde eu me encontrava nesse momento e gritou
que havia um ladrão na casa. Pusemo-nos a procurá-lo, auxiliados por meu
cachorro; todos os recantos foram examinados; asseguramo-nos de que a porta da
rua estava fechada, de modo que ninguém poderia ter entrado; aliás, se o
fizessem, não conseguiriam fechá-la sem provocar ruído. Finalmente, era pouco
provável que um malfeitor utilizasse uma escada iluminada e a uma tal hora,
onde se expunha a topar com as pessoas da casa a qualquer momento. Por outro
lado, como poderia um estranho ter sido encontrado na escada que não serve ao
público? Em todo caso, se se tivesse enganado, teria dirigido a palavra à Sra.
Mally, ao passo que lhe voltou as costas e se foi tranquilamente, como alguém
que não tem pressa nem se atrapalha no caminho. Todas essas circunstâncias não
nos deixaram a menor dúvida quanto à natureza desse indivíduo.
“Esse Espírito manifesta-se frequentemente
por meio de ruídos que se assemelham aos do tambor, a golpes violentos no
fogão, a batidas de pés nas portas, que então se abrem sozinhas e, por fim, a
ruídos parecidos com os de calhaus que fossem atirados às vidraças. Certo dia a
Sra. Mally estava à porta da cozinha quando viu um móvel à sua frente abrir-se
e fechar-se várias vezes por mão invisível; em outras ocasiões, estando ocupada
a acender o fogo, sentiu que lhe puxavam o vestido ou ainda, ao subir a escada,
que lhe agarravam o calcanhar. Por várias vezes ele escondeu as tesouras e
outros objetos de trabalho que pertenciam a ela, os quais eram depositados em
seu colo depois de já os haver procurado bastante. Um domingo a Sra. Mally
ocupava-se em temperar um pernil com dentes de alho quando, de repente, sentiu
que lhes tiravam dos dedos; julgando havê-los deixado cair, procurou-os
inutilmente; então, retomando o pernil, encontrou o alho picado num buraco
triangular, cuja pele havia sido retirada, como a revelar que mão estranha ali
o havia colocado intencionalmente.
“Estando a filha mais velha da
Sra. Mally, de quatro anos de idade, a passear com a mãe, esta percebeu que
aquela se entretinha com um ser invisível que parecia pedir-lhe bombons. A
pequena fechava a mão e dizia sempre:
– Estes são meus; compra-os,
se quiseres.
Espantada, a mãe perguntou-lhe
com quem falava.
– É com esse garoto que
deseja que eu lhe dê os meus bombons, respondeu a menina.
– Que menino é esse?
perguntou a mãe.
– Este que está aqui, ao meu
lado.
– Mas não vejo ninguém.
– Ah! Ele saiu. Veste-se de
branco e está todo encrespado.
“De outra vez, a pequena doente
de quem já falei acima divertia-se em fazer passarinhos de papel. Mamãe,
mamãe! – disse ela – não permitas que esse menino tome meu papel.
– Quem é? perguntou a mãe.
– Sim, este menino tomou meu
papel. E a criança pôs-se a chorar.
– Mas onde está ele?
– Ei-lo saindo pela janela.
Era um menino muito danado.
“Esta mesma menina um dia
saltava na ponta dos pés até perder o fôlego, malgrado a proibição da mãe, que
temia lhe fizesse mal. De repente parou e exclamou: Ah! O guia da mamãe’
Perguntaram-lhe o que isso significava e ela disse que vira um braço detê-la
quando pulava, forçando-a a manter-se quieta. Acrescentou que não tinha medo e
que imediatamente pensou no guia de sua mãe. Os fatos dessa natureza repetem-se
frequentemente e se tornaram familiares às crianças, que não experimentam
nenhum medo, pois o pensamento do guia de sua mãe lhes vem espontaneamente.
“A intervenção desse guia
manifestou-se em circunstâncias mais sérias. A Sra. Mally tinha alugado uma
casa ajardinada na comuna de Caudéran. A casa era isolada e rodeada de vastas
campinas. Ela morava com as três crianças e uma preceptora. A comuna era então
infestada de bandidos, que depredavam a vizinhança e naturalmente cobiçavam uma
casa que sabiam habitada por duas senhoras que viviam sozinhas; assim, vinham pilhar
todas as noites, tentando forçar as portas e janelas. Durante três anos a Sra.
Mally morou nessa casa, em constantes sobressaltos; mas todas as noites ela se
recomendava a Deus e, após a prece, seu guia se manifestava sob a forma de uma
centelha. Por várias vezes durante a noite, quando os ladrões tentavam arrombar
a porta, uma súbita claridade iluminava o quarto e ela ouvia uma voz a
dizer-lhe: Nada temas; eles não entrarão. Com efeito, jamais conseguiram
penetrar na casa. No entanto, por excessiva precaução, ela se munia de armas de
fogo. Certa noite, percebendo que rondavam a casa, deu dois tiros de revólver
que atingiram um deles, pois ouviu gemidos, mas no dia seguinte haviam desaparecido.
Esse fato foi relatado nos seguintes termos por um jornal de Bordeaux:
Informaram-nos de um fato
que demonstra certa coragem por parte de uma jovem que reside na comuna de Caudéran:
Uma senhora que ocupa uma casa isolada nessa comuna tem
em sua companhia uma moça encarregada da educação das crianças. Numa das noites
precedentes, essa senhora tinha sido vítima de uma tentativa de roubo. No dia
seguinte decidiram melhor prevenir-se e, se necessário, vigiariam durante a noite.
Fizeram o que haviam combinado. Assim, quando os ladrões
se apresentaram para concluir a tarefa da véspera, encontraram quem os
recebesse. Apenas tiveram o cuidado de não conversar com os moradores da casa
sitiada. A moça a quem temos aludido desconfiou da presença deles, abriu a
porta e deu um tiro de revólver, que deve ter atingido um dos larápios,
porquanto no dia seguinte encontraram traços de sangue no jardim.
Até o momento não foi possível encontrar os autores dessa
segunda tentativa.
“Falarei apenas de memória de
outras manifestações ocorridas nessa mesma casa de Caudéran, enquanto ali permaneceram
aquelas senhoras. Muitas vezes, durante a noite, ouviam-se ruídos estranhos,
semelhantes ao de bolas rolando no assoalho ou de lenha atirada ao chão. Na
manhã seguinte, entretanto, tudo era encontrado em perfeita ordem.
“Dignai-vos, senhor, caso
julgueis conveniente, de evocar o guia da Sra. Mally e interrogá-lo a respeito
das manifestações de que acabo de vos notificar. Principalmente perguntai-lhe
se a sonâmbula, que pretende ter dado esse guia, tem o poder de o retomar, e se
ele se retiraria, caso a sonâmbula viesse a falecer”.
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