terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

CONVERSAS FAMILIARES DE ALÉM-TÚMULO -Voltaire e Frederico[1]

 

Gravura do século XVIII: Frederico II visita Voltaire

Allan Kardec                                                                                                                 

 

Diálogo obtido através de dois médiuns que serviram de intérpretes a cada um desses dois Espíritos, em sessão da Sociedade

18 de março de 1859.

 

Questões prévias dirigidas a Voltaire

1. Em que situação vos encontrais como Espírito?

– Errante, mas arrependido.

2. Quais são as vossas ocupações como Espírito?

– Rasgo o véu do erro que em vida imaginava ser a luz da verdade.

3. Que pensais de vossos escritos em geral?

– Meu Espírito estava dominado pelo orgulho; aliás, eu tinha por missão impulsionar um povo na infância; minhas obras são a consequência disso.

4. Que direis particularmente do vosso Joana d'Arc?

– É uma diatribe, embora eu tenha feito coisas piores.

5. Quando encarnado pensáveis no futuro após a morte?

– Não acreditava senão na matéria, bem o sabeis; e ela morre.

6. Professáveis o ateísmo no verdadeiro sentido da palavra?

– Eu era orgulhoso; negava a divindade por orgulho, com o que sofri e de que me arrependo.

7. Gostaríeis de conversar com Frederico, que também concordou em atender ao nosso apelo? Esta conversa seria instrutiva para nós.

– Se Frederico quiser, eu me prontifico.

– Vedes, meu caro monarca, que reconheço meus erros e que estou longe de falar como nas minhas obras. Outrora, ofertávamos o espetáculo das nossas torpezas; agora somos obrigados a oferecer o do nosso arrependimento e do nosso desejo de conhecer a grande e pura verdade.

FredericoEu vos supunha menos bom do que realmente sois.

VoltaireUma potência, que somos obrigados a adorar e reconhecer em toda a sua soberania força nossa alma a proclamar, para aqueles de quem talvez abusamos, uma doutrina completamente oposta à que havíamos professado.

FredericoÉ verdade, meu caro Arouet, mas não finjamos mais. É inútil: caíram todos os véus.

VoltaireDeixamos tantos desastres à nossa retaguarda que precisaremos de muitas lágrimas, a fim de obtermos o perdão e sermos absolvidos. Nunca estaríamos suficientemente unidos para fazer esquecer e reparar os males que causamos.

FredericoConfessemos também que o século que nos admirava foi muito pobre de julgamento e que bem pouco é preciso para deslumbrar os homens: nada mais que um pouco de audácia.

VoltairePor que não? Fizemos tanto barulho em nosso século!

FredericoFoi esse barulho que, caindo de repente num completo silêncio, nos atirou na reflexão amarga, quase no arrependimento. Eu choro a minha vida, mas como me aborreço por não ser mais Frederico! E tu, de não seres mais o Sr. De Voltaire!

VoltaireFalai então por vós, majestade.

FredericoSim, eu sofro; mas não o repitais novamente.

VoltaireEntão abdicai! Mais tarde fareis como eu.

FredericoNão posso...

VoltairePedis-me que seja vosso guia; sê-lo-ei ainda. Tratarei apenas de não vos desencaminhar no futuro. Se puderdes ler, procurai aqui o que vos possa ser útil. Não são as altezas que vos interrogam, mas Espíritos que procuram e encontram a verdade com o auxílio de Deus.

FredericoTomai-me então pela mão; traçai-me uma linha de conduta, se o puderdes... esperemos... mas será para vós... Quanto a mim estou muito perturbado, e isso já dura um século.

VoltaireAinda me excitais o orgulho de valer mais do que vós. Isso não é generoso. Tornai-vos bom e humilde para que eu mesmo seja humilde.

FredericoSim, mas o sinete que a minha condição de majestade deixou-me no coração impede-me sempre de humilhar-me como tu. Meu coração é firme como um rochedo, árido como um deserto, seco como uma arena.

VoltaireSeríeis então um poeta? Eu não vos conhecia esse talento, Senhor.

FredericoTu finges, tu... Não peço a Deus senão uma coisa: o esquecimento do passado... uma encarnação de prova e de trabalho.

VoltaireÉ melhor. Uno-me também a vós, mas sinto que terei de esperar muito tempo a minha remissão e o meu perdão.

FredericoBem, meu amigo, então oremos juntos uma vez.

VoltaireEu o faço sempre, desde que Deus se dignou levantar a mim o véu da carne.

FredericoQue pensas destes homens que nos chamam aqui?

VoltaireEles podem nos julgar e nós não podemos senão humilhar-nos diante deles.

FredericoEles me incomodam, eu... seus pensamentos são muito diversos.

[A Frederico] – Que pensais do Espiritismo?

– Sois mais sábios do que nós. Não viveis um século além do nosso? E embora no Céu desde esse tempo, nele apenas acabamos de entrar.

Agradecemos por terdes atendido ao nosso apelo, assim como o vosso amigo Voltaire.

Voltaire - Viremos quando quiserdes.

FredericoNão me evoqueis demasiadamente... Não sou simpático.

Por que não sois simpático?

FredericoEu desprezo e me sinto desprezível.

 

25 de março de 1859

 

1. Evocação de Voltaire.

 – Falai.

2. Que pensais de Frederico, agora que ele não se acha mais aqui?

– Ele raciocina muito bem, mas não quis explicar-se. Como vos disse, ele despreza, e esse desprezo que nutre a todos o impede de abrir o coração, temendo não ser compreendido.

3. Muito bem! Teríeis a bondade de completar e dizer o que ele entendia por estas palavras: “desprezo e me sinto desprezível”?

– Sim. Ele se sente fraco e corrompido, como todos nós, e talvez ainda compreenda mais do que nós, por ter abusado, mais que os outros, dos dons de Deus.

4. Como o julgais como monarca?

– Hábil.

5. Pensais que seja um homem de bem?

– Não se pode perguntar isso; não conheceis as suas ações?

6. Não nos poderíeis dar uma ideia mais exata do que fizestes das vossas ocupações, como Espírito?

– Não. A todo instante de minha vida descubro um novo ponto de vista do bem; esforço-me por o praticar, ou, antes, aprender a praticá-lo. Quando se teve uma existência como a minha, há muitos preconceitos a combater, muitos pensamentos a repelir ou a mudar completamente, antes de alcançar a verdade.

7. Gostaríamos de obter uma dissertação vossa, sobre assunto de vossa escolha. Poderíeis dar-nos uma?

– Sobre o Cristo, sim, se o quiserdes.

8. Nesta sessão?

– Mais tarde; esperai. Numa outra.

 

8 de abril de 1859

 

1. Evocação de Voltaire.

– Eis-me aqui.

2. Teríeis a bondade de nos dar hoje a dissertação que prometestes?

– Sustento o que prometi; apenas serei breve: Meus caros amigos, quando me achava entre vossos antepassados, tinha opiniões e, para sustentá-las e fazê-las prevalecer entre meus contemporâneos, muitas vezes simulei uma convicção que em verdade não possuía. Foi assim que, desejando atacar os defeitos e os vícios em que tombava a religião, sustentei uma tese que hoje me condena a refutá-la.

Ataquei muitas coisas puras e santas, que a minha mão profana deveria ter respeitado. Assim, investi contra o próprio Cristo, esse modelo de virtudes sobre-humanas, pode-se dizer. Sim, pobres homens, talvez haveremos de nos igualar um pouco com o nosso modelo, mas jamais teremos o devotamento e a santidade que ele demonstrou; estará sempre acima de nós, pois foi melhor antes de nós. Ainda estávamos mergulhados no vício da corrupção e ele já estava sentado à direita de Deus. Aqui, perante vós, eu me retrato de tudo quanto a minha pena traçou contra o Cristo, porque o amo; sim, eu o amo. Lamentava não ter podido fazê-lo ainda.



[1] REVISTA ESPÍRITA – agosto/1859 – Allan Kardec

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