sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

GESTÃO DA NOSSA EVOLUÇÃO[1]

 


Marcelo Anátocles Ferreira - janeiro/2026

 

É comum a concepção de que somente depois da desencarnação será possível uma avaliação dos nossos passos, da nossa vida espiritual e da nossa evolução. Alguns aguardam uma espécie de Juízo Final, quando seremos julgados por Deus e encaminhados para os locais de merecimento. Outros entendem que somente após o fim da estrada terrena será possível, ao lado dos nossos benfeitores, fazer uma avaliação do nosso caminho.

Sem dúvida, a avaliação de nossa mais recente encarnação só poderá ser feita no final, quando, fora do corpo, poderemos ter noção exata do todo nela realizado. No entanto, todos nós podemos – e seria muito bom se fizéssemos isso de tempos em tempos – fazer balanços para avaliarmos nossa vida ainda no corpo físico. Temos condições e elementos para isso. Esse exercício nos possibilitará crescimento, autoconhecimento e reforma interior.

Para facilitar essa avaliação, podemos fazê-la por setores da nossa vida. Por exemplo, nossa vida familiar. Como somos ou fomos como filhos? Como foi ou está sendo a relação com nossos pais? E o nosso relacionamento com nossos irmãos desde a infância?

Daí, podemos passar para as relações construídas nesta vida: como estão nossos relacionamentos afetivos? Como tratamos aqueles com quem namoramos, casamos, constituímos família? Essas relações são baseadas no respeito? Há ciúmes corroendo o amor?  Como está a relação com nossos filhos, sejam eles crianças ou adultos?

No contexto profissional, também cabe uma análise mais profunda. Como estamos no trabalho? Como é a relação com nossos colegas? Como nos relacionamos com o dinheiro?

E com os amigos, como estamos?

Como está nosso relacionamento com os amigos do Centro Espírita que frequentamos?  Como estão os estudos espíritas?  Como está o trabalho no campo religioso?

Perguntas objetivas e possíveis de responder. Santo Agostinho, na conhecida resposta sobre o autoconhecimento[2], sugere que formulemos a nós mesmos questões nítidas e precisas sem temer multiplicá-las.

No campo dos próprios sentimentos, também cabe uma análise: sou alegre ou me entristeço com facilidade? Por quê? O que me traz alegria? O que me entristece?

Compartilhando uma experiência pessoal, num final de tarde, voltando do trabalho para casa, eu sentia uma alegria incomum sem saber explicar o motivo. Fiquei tentando lembrar, até que tive um estalo de memória:  eu tinha recebido um e-mail sobre o lançamento do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de Futebol. Isso me fez lembrar a minha infância e me deixou feliz. Detectei a razão simples da minha alegria e me tranquilizei.

Ainda no campo dos sentimentos, devemos nos avaliar: eu odeio, sou ácido ou agressivo com o próximo? Costumo me desculpar ao perceber meus equívocos?

Um amigo do trabalho me deu uma lição inesquecível quando eu saía com um pequeno grupo, por ocasião do meu aniversário, para almoçar. Cruzamos com esse amigo, que, sem motivo aparente, foi grosseiro com uma das pessoas que me acompanhava. O agredido pareceu nem perceber, mas ficou no ar um clima desagradável que logo se dissipou no caminho para o almoço festivo. No fim do dia, recebi, com surpresa, um e-mail daquele amigo que havia sido ríspido, no qual ele se desculpava por suas palavras. E mandara esse e-mail com cópia para todos que tinham presenciado a desavença. Reconheci ali alguém preocupado com o autoconhecimento e com a correção imediata de um erro.

Para facilitar a análise, podemos nos valer de uma divisão do tempo traçando uma linha de, por exemplo, cinco ou dez anos. Como eu era há cinco anos? Melhorei em quais aspectos nos últimos dez anos? Em que continuo estacionado? Em que aspecto preciso melhorar?

Como ensina o benfeitor Camilo, pela mediunidade de J. Raul Teixeira: É, daí, importantíssimo o ato de estudar e estudar-se, com o fim de melhor situar-se o indivíduo no campo da lucidez[3].

Essas avaliações fazem com que tomemos a rédea de nossa vida. Não é necessário esperar a desencarnação para sabermos em que já melhoramos e em que ainda temos que trabalhar e muito.

Avaliando, corrigindo e acompanhando nossos próprios passos, podemos verificar novas derrapagens para, se preciso, corrigirmos novamente o curso da vida, contabilizando também nossas conquistas e avanços.

No livro Seareiros de volta, há algumas mensagens sobre esse tema. Em Lei de renovação, por exemplo, o Espírito Antônio da Silva Neto nos ensina: Quem não domina a si mesmo, vive sujeito ao jugo das circunstâncias[4].

Não devemos seguir o que diz o verso da conhecida música Deixa a vida me levar. Se pusermos isso em prática, não saberemos aonde vamos chegar. Com a constante reflexão sobre nossa vida, vamos tomando a rédea do nosso destino e nos direcionando para o bem.

Temos uma ferramenta fantástica em nossas mãos, a Doutrina Espírita, que deve ser permanentemente estudada. Nela aprendemos os mecanismos da lei de justiça, sabemos que somos Espíritos reencarnados em um corpo físico com contas a ajustar e com a abençoada oportunidade dos novos dias. Como nos ensina o Espírito Batuíra: “Seguir o Espiritismo é refazer o destino[5].

Assim, dia a dia, passo a passo, vamos nos avaliando, nos conhecendo melhor, nos aperfeiçoando, aprendendo a corrigir nossas falhas e a retomar rotas seguras, transformando-nos dentro da proposta de sermos verdadeiros espíritas, atentos e focados na efetiva reforma interior, gerindo nossa evolução.



[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987. pt. 3, cap. XII, q. 919a.

[3] TEIXEIRA, J. Raul. Revelações da Luz. Pelo espírito Camilo. Niterói: Fráter, 2014, cap. 1.

[4] VIEIRA, Waldo. Seareiros de volta. Autores diversos. Brasília: FEB, 1987. cap. A lei da renovação.

[5] Op. cit. cap. Bem-aventurados.

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