Marcelo Anátocles Ferreira - janeiro/2026
É comum a concepção de que
somente depois da desencarnação será possível uma avaliação dos nossos passos,
da nossa vida espiritual e da nossa evolução. Alguns aguardam uma espécie de
Juízo Final, quando seremos julgados por Deus e encaminhados para os locais de
merecimento. Outros entendem que somente após o fim da estrada terrena será
possível, ao lado dos nossos benfeitores, fazer uma avaliação do nosso caminho.
Sem dúvida, a avaliação de nossa
mais recente encarnação só poderá ser feita no final, quando, fora do corpo,
poderemos ter noção exata do todo nela realizado. No entanto, todos nós podemos
– e seria muito bom se fizéssemos isso de tempos em tempos – fazer balanços
para avaliarmos nossa vida ainda no corpo físico. Temos condições e elementos
para isso. Esse exercício nos possibilitará crescimento, autoconhecimento e
reforma interior.
Para facilitar essa avaliação,
podemos fazê-la por setores da nossa vida. Por exemplo, nossa vida familiar.
Como somos ou fomos como filhos? Como foi ou está sendo a relação com nossos
pais? E o nosso relacionamento com nossos irmãos desde a infância?
Daí, podemos passar para as
relações construídas nesta vida: como estão nossos relacionamentos afetivos?
Como tratamos aqueles com quem namoramos, casamos, constituímos família? Essas
relações são baseadas no respeito? Há ciúmes corroendo o amor? Como está a relação com nossos filhos, sejam
eles crianças ou adultos?
No contexto profissional, também
cabe uma análise mais profunda. Como estamos no trabalho? Como é a relação com
nossos colegas? Como nos relacionamos com o dinheiro?
E com os amigos, como estamos?
Como está nosso relacionamento
com os amigos do Centro Espírita que frequentamos? Como estão os estudos espíritas? Como está o trabalho no campo religioso?
Perguntas objetivas e possíveis
de responder. Santo Agostinho, na conhecida resposta sobre o autoconhecimento[2],
sugere que formulemos a nós mesmos questões nítidas e precisas sem temer
multiplicá-las.
No campo dos próprios
sentimentos, também cabe uma análise: sou alegre ou me entristeço com
facilidade? Por quê? O que me traz alegria? O que me entristece?
Compartilhando uma experiência
pessoal, num final de tarde, voltando do trabalho para casa, eu sentia uma
alegria incomum sem saber explicar o motivo. Fiquei tentando lembrar, até que
tive um estalo de memória: eu tinha
recebido um e-mail sobre o lançamento do álbum de figurinhas da Copa do Mundo
de Futebol. Isso me fez lembrar a minha infância e me deixou feliz. Detectei a
razão simples da minha alegria e me tranquilizei.
Ainda no campo dos sentimentos,
devemos nos avaliar: eu odeio, sou ácido ou agressivo com o próximo? Costumo me
desculpar ao perceber meus equívocos?
Um amigo do trabalho me deu uma
lição inesquecível quando eu saía com um pequeno grupo, por ocasião do meu
aniversário, para almoçar. Cruzamos com esse amigo, que, sem motivo aparente,
foi grosseiro com uma das pessoas que me acompanhava. O agredido pareceu nem
perceber, mas ficou no ar um clima desagradável que logo se dissipou no caminho
para o almoço festivo. No fim do dia, recebi, com surpresa, um e-mail daquele
amigo que havia sido ríspido, no qual ele se desculpava por suas palavras. E
mandara esse e-mail com cópia para todos que tinham presenciado a desavença.
Reconheci ali alguém preocupado com o autoconhecimento e com a correção
imediata de um erro.
Para facilitar a análise,
podemos nos valer de uma divisão do tempo traçando uma linha de, por exemplo,
cinco ou dez anos. Como eu era há cinco anos? Melhorei em quais aspectos nos
últimos dez anos? Em que continuo estacionado? Em que aspecto preciso melhorar?
Como ensina o benfeitor Camilo,
pela mediunidade de J. Raul Teixeira: É, daí, importantíssimo o ato de estudar
e estudar-se, com o fim de melhor situar-se o indivíduo no campo da lucidez[3].
Essas avaliações fazem com que
tomemos a rédea de nossa vida. Não é necessário esperar a desencarnação para
sabermos em que já melhoramos e em que ainda temos que trabalhar e muito.
Avaliando, corrigindo e
acompanhando nossos próprios passos, podemos verificar novas derrapagens para,
se preciso, corrigirmos novamente o curso da vida, contabilizando também nossas
conquistas e avanços.
No livro Seareiros de volta, há
algumas mensagens sobre esse tema. Em Lei de renovação, por exemplo, o Espírito
Antônio da Silva Neto nos ensina: Quem não domina a si mesmo, vive sujeito ao
jugo das circunstâncias[4].
Não devemos seguir o que diz o
verso da conhecida música Deixa a vida me levar. Se pusermos isso em
prática, não saberemos aonde vamos chegar. Com a constante reflexão sobre nossa
vida, vamos tomando a rédea do nosso destino e nos direcionando para o bem.
Temos uma ferramenta fantástica
em nossas mãos, a Doutrina Espírita, que deve ser permanentemente estudada.
Nela aprendemos os mecanismos da lei de justiça, sabemos que somos Espíritos
reencarnados em um corpo físico com contas a ajustar e com a abençoada
oportunidade dos novos dias. Como nos ensina o Espírito Batuíra:
“Seguir o Espiritismo é refazer o destino”[5].
Assim, dia a dia, passo a passo,
vamos nos avaliando, nos conhecendo melhor, nos aperfeiçoando, aprendendo a
corrigir nossas falhas e a retomar rotas seguras, transformando-nos dentro da
proposta de sermos verdadeiros espíritas, atentos e focados na efetiva reforma
interior, gerindo nossa evolução.
[1] MUNDO ESPÍRITA - https://www.mundoespirita.com.br/?materia=gestao-da-nossa-evolucao
[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de
Janeiro: FEB, 1987. pt. 3, cap. XII, q. 919a.
[3] TEIXEIRA, J. Raul. Revelações da Luz. Pelo espírito
Camilo. Niterói: Fráter, 2014, cap. 1.
[4] VIEIRA, Waldo. Seareiros de volta. Autores diversos.
Brasília: FEB, 1987. cap. A lei da renovação.
[5] Op. cit. cap. Bem-aventurados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário