terça-feira, 6 de janeiro de 2026

CONVERSAS FAMILIARES DE ALÉM TÚMULO – O negro Pai César[1],[2]

 


Allan Kardec

 

Pai César, homem livre, de cor, falecido em 8 de fevereiro de 1859, com 138 anos de idade, perto de Covington, nos Estados Unidos. Nasceu na África e foi levado para a Louisiana com cerca de 15 anos. Os restos mortais desse patriarca da raça negra foram acompanhados ao campo de repouso por um certo número de habitantes de Covington, e uma multidão de pessoas de cor.

 

Sociedade, 25 de março de 1859

 

1. [A São Luís]. – Poderíeis dizer-nos se podemos invocar o preto Pai César, a quem acabamos de nos referir?

– Sim; eu o auxiliarei a vos responder.

 

Observação – Esse começo faz pressagiar o estado do Espírito que desejamos interrogar.

 

2. Evocação.

– O que desejais de mim? O que faz um pobre Espírito como eu numa reunião como a vossa?

3. Sois mais feliz agora do que em vida?

– Sim, porquanto não era boa a minha situação na Terra.

4. Entretanto, estáveis livre; em que sois mais feliz agora?

– Porque meu Espírito não é mais negro.

 

Observação – Essa resposta é mais sensata do que parece à primeira vista. Certamente o Espírito jamais é negro; ele quer dizer que, como Espírito, não sofre mais as humilhações a que está exposta a raça negra.

 

5. Vivestes muito tempo. Isso aproveitou ao vosso progresso?

– Eu me aborreci na Terra e, numa certa idade, não sofria bastante para ter a felicidade de progredir.

6. Em que empregais o tempo atualmente?

– Procuro esclarecer-me e saber em que corpo poderei fazê-lo.

7. Quando estáveis na Terra o que pensáveis dos brancos?

– São bons, mas orgulhosos e vãos, devido a uma alvura de que não foram responsáveis.

8. Considerais a brancura como uma superioridade?

– Sim, visto ter sido desprezado como negro.

9. [A São Luís]. – A raça negra é de fato uma raça inferior?

– A raça negra desaparecerá da Terra. Foi feita para uma latitude diversa da vossa.

10. [Ao Pai César] – Dissestes que procurais um corpo através do qual podereis progredir. Escolheríeis um corpo branco ou um corpo negro?

– Um branco, porque o desprezo me faria mal.

11. Vivestes realmente até a idade que vos é atribuída: 138 anos?

– Não contei bem, pela razão que já disse.

 

Observação – Acabamos de observar que os negros, não possuindo registro civil de nascimento, só de maneira aproximada podem ter a idade avaliada, sobretudo a daqueles que nasceram na África.

 

12. [A São Luís]. – Algumas vezes os brancos reencarnam em corpos negros?

– Sim. Quando, por exemplo, um senhor maltratou um escravo, pode acontecer que peça, como expiação, para viver num corpo de negro, a fim de sofrer, por sua vez, o que fez padecer os outros, progredindo por esse meio e obtendo o perdão de Deus.



[1] REVISTA ESPÍRITA – junho/1859 – Allan Kardec

[2] Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 537.

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