terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A PRINCESA DE RÉBININE[1]

 


Allan Kardec

 

Extraído do Courrier de Paris, de ... de maio de 1859

 

Sabeis que todos os sonâmbulos, todas as mesas girantes, todas as aves magnetizadas, todos os lápis simpáticos e todas as cartomantes predizem a guerra há muito tempo?...

Profecias nesse sentido têm sido feitas a uma multidão de personagens importantes que, afetando pouco importar-se com essas pretensas revelações do mundo sobrenatural, não deixaram de ficar vivamente preocupadas. De nossa parte, sem resolver de pronto a questão num ou noutro sentido, e achando, aliás, que naquilo que o próprio François Arago duvidava, pelo menos é permitido não nos pronunciarmos, limitando-nos a relatar, sem os comentar, alguns fatos de que fomos testemunhas.

Há oito dias tínhamos sido convidados para uma reunião espírita na casa do Barão de G... À hora indicada todos os convidados, em número de apenas doze, achavam-se em volta da mesa... miraculosa, aliás uma simples mesa de acaju, sobre a qual, para começar, foi servido chá com os sanduíches de costume. Dos doze convivas, apressamo-nos em dizer, nenhum poderia razoavelmente incorrer na pecha de charlatanismo. O dono da casa, que conta com ministros entre seus parentes próximos, pertence a uma grande família estrangeira.

Quanto aos fiéis, compunham-se de dois oficiais ingleses muito distintos, um oficial de marinha francês, um príncipe russo bastante conhecido, um médico muito habilidoso, um milionário, um secretário de embaixada e duas ou três pessoas importantes do bairro de Saint-Germain. Éramos o único profano entre esses maiorais do Espiritismo, embora a nossa qualidade de cronista parisiense e de céptico por dever não permitisse fôssemos acusados de uma credulidade... excessiva. A reunião, pois, não podia ser suspeita de representar uma comédia. E que comédia!

Uma comédia inútil e ridícula, em que cada um teria voluntariamente aceitado o duplo papel de mistificador e de mistificado? Isso não é admissível. E, afinal de contas, com que propósito? Com que interesse? Não seria o caso de perguntar: A quem se engana aqui?

Não, ali não havia má-fé nem loucura... Se quiserem, digamos que houve acaso... É tudo quanto nossa consciência permite conceder. Ora, eis o que se passou:

Depois de haverem interrogado o Espírito sobre mil coisas, perguntaram-lhe se as esperanças de paz, que então pareciam muito grandes, tinham fundamento.

Não, respondeu ele com muita clareza em duas ocasiões diferentes.

– Teremos, pois, a guerra?

Certamente.

– Quando?

Em oito dias.

 − Entretanto, o Congresso não se reúne senão no próximo mês... Isto afasta bastante a eventualidade de um começo de hostilidades.

Não haverá Congresso.

– Por quê?

A Áustria se recusará.

– E qual a causa que triunfará?

A da justiça e do direito... a da França.

– E a guerra, como será?

Curta e gloriosa.

Isto nos traz à memória um outro fato do mesmo gênero que se passou igualmente sob nossos olhos alguns anos atrás.

Quando da guerra da Criméia, todos se recordam que o Imperador Nicolau chamou à Rússia os súditos que residiam na França, sob pena de confiscar-lhes os bens, caso recusassem a obedecer a essa ordem.

Então nos encontrávamos em Leipzig, na Saxônia, onde, assim como em toda parte, havia um vivo interesse pela campanha que acabara de começar. Um dia recebemos o seguinte bilhete:

Estou aqui por algumas horas apenas. Vinde ver-me no Hotel da Polônia, no 13! Princesa de Rébinine.

Já conhecíamos bastante a princesa Sofia de Rébinine, uma mulher distinta e encantadora, cuja história era todo um romance, que escreveremos alguma dia, e que nos dispensava consideração chamando-nos seu amigo. Apressamo-nos em atender ao amável convite, tão agradavelmente surpreendido e encantado ficamos, quando da sua passagem por Leipzig.

Era domingo, 13 e o tempo estava naturalmente cinzento e triste, como sempre ocorre nesta parte da Saxônia.

Encontramos a princesa em sua casa, mais graciosa e espirituosa que nunca, apenas um pouco pálida e algo melancólica. Fizemos-lhe mesmo esta observação. Para começar, respondeu ela:

− Parti como uma bomba. Tinha de ser assim, pois estamos em guerra e sinto-me um pouco fatigada da viagem. Depois, embora atualmente sejamos inimigos, não vos ocultarei que deixo Paris com muito pesar. Já me considerava quase francesa há muito tempo e a ordem do Imperador fez-me romper com um velho e doce hábito.

– Por que não ficastes tranquilamente no vosso bonito apartamento da rua Rumfort?

Porque me teriam cortado os subsídios.

– Mas como! Não contais entre nós com tão numerosos e bons amigos?

Sim... pelo menos o creio. Mas na minha idade uma mulher não gosta de se dar em hipoteca... os juros a pagar por vezes ultrapassam o capital! Ah! Se eu fosse velha seria outra coisa... Mas então não me emprestariam.

Nesse momento a princesa mudou de assunto.

– Ah! Sabeis que tenho uma natureza muito absorvente. Aqui não conheço ninguém... Posso contar convosco durante o dia todo?

É fácil de adivinhar a nossa resposta.

A uma hora ouvimos o sino no pátio e descemos para o almoço no salão do hotel. Naquele momento todo mundo falava da guerra... e das mesas girantes.

No que concerne à guerra, a princesa estava certa de que a frota inglesa seria destruída no mar Negro e ela mesma se teria encarregado bravamente de incendiá-la, se o Imperador lhe houvesse confiado essa perigosa e delicada missão. Quanto às mesas girantes, sua fé era menos sólida, mas, mesmo assim, propôs que fizéssemos algumas experiências, com outro de nossos amigos, que lhe havíamos apresentado à sobremesa. Subimos então para os seus aposentos. Foi-nos servido café e, como chovesse, passamos a tarde inteira a interrogar uma mesinha redonda de apenas um pé, dessas que ainda se vê por aqui.

E a mim – perguntou de repente a princesa – nada tens a dizer?

– Não.

Por quê?

A mesinha bateu treze pancadas. Ora, deve-se lembrar que era um dia 13 e que o apartamento da Sra. Rébinine tinha o número 13.

– Isso quer dizer que o número 13 me é fatal? Perguntou a princesa, um pouco supersticiosa com esse número.

– Sim, bateu a mesa.

– Não importa!... Sou um Bayard do sexo masculino e podes falar sem medo, seja o que for que tenhas  me anunciar.

Interrogamos a pequena mesa, que de início persistiu na sua prudente reserva, conseguindo, por fim, arrancar-lhe as seguintes palavras:

– Doente... oito dias... Paris... morte violenta!

A princesa achava-se muito bem; acabara de deixar Paris e não esperava rever a França tão cedo... A profecia da mesa era, pois, no mínimo absurda quanto aos três primeiros pontos...

Quanto ao último, é inútil acrescentar que nele nem quisemos nos deter.

A princesa devia partir às oito horas da noite, pelo trem de Dresden, a fim de chegar a Varsóvia dois dias depois, pela manhã; mas perdeu o trem.

O que posso fazer? – disse ela. Vou deixar aqui minha bagagem e tomarei o trem das quatro horas da manhã.

– Então retornareis ao hotel para dormir?

– Voltarei para lá, mas não me deitarei... Assistirei, do alto do camarote dos estrangeiros, ao baile desta noite... Quereis servir-me de cavalheiro?

O Hotel da Polônia, cujos imensos e magníficos salões não comportavam menos de duas mil pessoas, quase que diariamente dava um grande baile, tanto no verão como no inverno, organizado por alguma sociedade do lugar, reservando para a assistência, no alto, uma galeria particular destinada aos viajantes que desejassem desfrutar do animado espetáculo e da excelente música.

Na Alemanha, aliás, os estrangeiros jamais são esquecidos e em toda parte têm seus camarotes reservados, o que explica por que os alemães que vêm a Paris pela primeira vez solicitam sempre, nos teatros e concertos, o camarote dos estrangeiros.

O baile daquele dia era muito brilhante e, embora fosse a princesa mera espectadora, tomava-se de verdadeiro prazer.

Assim havia esquecido completamente a mesinha e sua sinistra predição, quando um dos garçons do hotel lhe trouxe um telegrama que acabava de chegar, concebido nos seguintes termos:

Senhora Rébinine, Hotel da Polônia, Leipzig; presença indispensável Paris; graves interesses!, seguindo-se a assinatura do procurador da princesa.

Algumas horas mais tarde ela retomava a rota de Colônia, em vez de tomar o trem para Dresden. Oito dias depois soubemos que havia morrido!

Paulin Niboyet

 

Encontramos o relato seguinte numa notável coleção de autênticas histórias de aparições e de outros fenômenos espíritas, publicado em Londres no ano de 1682, pelo Reverendo J. Granville e pelo Dr. H. More. Intitula-se: Aparição do Espírito Major Sydenham ao Capitão V. Dick, extraída de uma carta do Sr. Jacques Douche, de Mongton, ao Sr. J. Granville.

...Pouco tempo após a morte do Major Georges, o Dr. Th. Dyke, parente próximo do Capitão, foi chamado para tratar de uma criança doente. O médico e o capitão deitaram-se no mesmo leito. Após dormirem um pouco, o capitão chamou o criado e ordenou-lhe que trouxesse duas velas acesas, as maiores e mais grossas que encontrasse. O doutor perguntou-lhe o que isso significava.

 – “Conheceis”, disse o capitão,” minhas discussões com o major, relativamente à existência de Deus e à imortalidade da alma: não nos foi possível esclarecer esses dois pontos, muito embora sempre o tivéssemos desejado”.

Ficou combinado entre nós dois que aquele que morresse primeiro viria na terceira noite após os funerais, entre meia-noite e uma hora, ao jardim desta pequena casa e ali esclarecer o sobrevivente sobre o assunto. “É hoje mesmo”, disse o capitão, “que o major deve cumprir a promessa”. Em consequência, pôs o relógio perto dele e, às onze horas e meia levantou-se, tomou uma vela em cada mão, saiu pela porta dos fundos e passeou no jardim durante duas horas e meia. Ao retornar, declarou ao médico nada ter visto, nem nada ouvido que não fosse muito natural; mas, acrescentou, “sei que meu major teria vindo, caso pudesse”.

Seis semanas depois, acompanhado pelo doutor, o capitão foi a Eaton, a fim de colocar o filho no colégio. Hospedaram-se num albergue chamado Saint-Christophe, ali permanecendo dois ou três dias; mas não dormiram juntos, como em Dalverson: ocuparam quartos separados.

Certa manhã o capitão permaneceu no quarto mais tempo que de costume, antes de chamar o doutor. Por fim entrou no quarto deste último, a fisionomia completamente alterada, os cabelos eriçados, os olhos desvairados e o corpo todo a tremer.

– “Que aconteceu, primo capitão?” – disse o major. O capitão respondeu: – “Vi meu major”. O doutor parecia sorrir. – “Eu vos afirmo que jamais o vi em minha vida, ou o vi hoje”. Então fez-me o seguinte relato:

“Esta manhã, ao romper do dia, alguém se postou à beira do meu leito, arrancou as cobertas e gritou: Cap, cap [Era a maneira familiar que o major empregava para chamar o capitão]. Respondi: Ora! Meu major? – Ele continuou: Não pude vir no dia aprazado; mas, agora, eis-me aqui a dizer-vos: “Há um Deus, muito justo e terrível; se não mudardes de pele, vereis quando aqui chegardes”.

Sobre a mesa havia uma espada que o major me tinha dado. Depois de ter dado duas ou três voltas no quarto, tomou da espada, desembainhou-a e, não a encontrando tão polida como deveria estar, disse: Cap, cap, esta espada era melhor cuidada quanto estava comigo. A estas palavras desapareceu subitamente.

Não somente o capitão ficou perfeitamente persuadido da realidade do que tinha visto e ouvido, como desde então se tornou muito mais sério. Seu caráter, outrora jovial e leviano, modificou-se notavelmente. Quando convidava os amigos tratava-os com generosidade, mas se mostrava muito sóbrio consigo mesmo. As pessoas que o conheciam asseguravam que muitas vezes ele pensava ouvir, repetindo-se em seus ouvidos, as palavras do major, e isso durante os dois anos em que viveu após essa aventura.

Allan Kardec



[1] REVISTA ESPÍRITA – junho/1859 – Allan Kardec

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