Allan Kardec
Se as primeiras manifestações
espíritas fizeram numerosos adeptos, não somente encontraram muitos incrédulos,
mas adversários ferrenhos e, muitas vezes, até interessados em seu descrédito.
Hoje, os fatos falam tão alto que é forçoso reconhecer a evidência e, se ainda
existem incrédulos sistemáticos, podemos predizer-lhes com segurança que não se
passarão muitos anos para acontecer com os Espíritos o que se deu com a maior
parte das descobertas, que foram pertinazmente combatidas ou encaradas como
utopias por aqueles cujo saber deveria tê-los tornado menos cépticos no que diz
respeito ao progresso. Já vimos muitas pessoas, entre as que não se
aprofundaram nesses estranhos fenômenos, concordar que nosso século é tão
fecundo em fatos extraordinários, a Natureza tem tantos recursos desconhecidos,
que seria mais que leviandade negar-se a possibilidade daquilo que se não
compreende. Esses tais dão prova de sabedoria. Eis aqui uma autoridade que não
poderia ser suspeita de prestar-se levianamente a uma mistificação, a Civiltà
Cattolica, um dos principais jornais eclesiásticos de Roma. Reproduziremos,
mais adiante, um artigo que esse jornal publicou no mês de março passado, no
qual se verá que seria difícil provar a existência e a manifestação dos
Espíritos por argumentos mais peremptórios. É verdade que divergimos dele sobre
a natureza dos Espíritos; não admitem senão os maus, enquanto admitimos bons e
maus; é um ponto que abordaremos mais tarde, com todos os desenvolvimentos
necessários. O reconhecimento das manifestações espíritas por uma autoridade
tão grave e tão respeitável é um ponto capital. Resta, pois, julgá-las: é o que
faremos no próximo número. Reproduzindo o artigo, o Univers o faz
preceder das seguintes e sábias reflexões:
“Por ocasião da publicação de
uma obra, em Ferrara, sobre a prática do magnetismo animal, referimos
aos nossos leitores os sábios artigos que acabavam de aparecer na Civiltà
Cattolica, de Roma, sobre a Necromancia moderna, reservando-nos
trazer-lhes mais amplas informações. Publicamos hoje o último desses artigos
que, em algumas páginas, contém as conclusões da revista romana. Além do
interesse que naturalmente se liga a essas matérias, e a confiança que deve
inspirar um trabalho publicado pela Civiltà, a oportunidade particular
da questão nos dispensa, neste momento, de chamar a atenção para uma matéria
que muitas pessoas, na teoria como na prática, trataram de maneira tão pouco
séria, a despeito da regra de vulgar prudência que recomenda sejam os fatos examinados
com tanto maior circunspeção quanto mais extraordinários pareçam”.
Eis o artigo:
De todas as teorias lançadas
para explicar naturalmente os diversos fenômenos conhecidos sob o nome
de espiritualismo americano, não há uma só que alcance o objetivo, e,
menos ainda, consiga dar a razão de todos eles. Se uma ou outra dessas
hipóteses é suficiente para explicar alguns desses fenômenos, sempre restará
alguns que permanecerão inexplicáveis. A fraude, a mentira, o exagero, as
alucinações sem dúvida devem ter uma grande parte nos fatos referidos; mas,
feito o desconto, resta ainda um volume tal que, para negar a realidade, seria
preciso recusar toda fé na autoridade dos sentidos e no testemunho humano.
Entre os fatos em questão, um certo número pode ser explicado pela teoria
mecânica ou mecânico-fisiológica; porém, há uma parte, muito mais considerável,
que não se presta de maneira alguma a uma explicação desse gênero. A essa ordem
de fatos se ligam todos os fenômenos nos quais, dizem, os efeitos obtidos
ultrapassam, evidentemente, a intensidade da força motriz que os deveria
produzir. Tais são:
1º os movimentos; os sobressaltos violentos de massas
pesadas e solidamente equilibradas, à simples pressão e ao leve toque das mãos;
2º os efeitos e os movimentos que se produzem sem
nenhum contato, consequentemente sem qualquer impulso mecânico, seja imediato
ou mediato; e, enfim, esses outros efeitos, que são de natureza a manifestar,
em quem os produz, uma inteligência e uma vontade distintas das dos
experimentadores.
Para dar a razão dessas três
ordens de fatos diversos, temos ainda a teoria do magnetismo; mas, por maiores
que sejam as concessões que se lhe disponha a fazer, e mesmo admitindo, de
olhos fechados, todas as hipóteses gratuitas sobre as quais ela se funda, todos
os erros e absurdos de que está repleta, e as faculdades miraculosas por ela
atribuídas à vontade humana, ao fluido nervoso ou a quaisquer outros agentes
magnéticos, jamais poderá essa teoria, com o auxílio desses princípios,
explicar completamente como uma mesa magnetizada por um médium manifesta
em seus movimentos uma inteligência e uma vontade próprias, isto é, distintas
das do médium e que, por vezes, são contrárias e superiores à sua inteligência
e vontade.
Como dar a razão de
semelhantes fenômenos?
Queremos, também nós,
recorrer a não sei que causas ocultas, a que forças ainda desconhecidas da
Natureza? A explicações novas de certas faculdades, de certas leis que, até o
presente, permaneceram inertes e como que adormecidas no seio da Criação? Estaríamos,
desse modo, confessando abertamente a nossa ignorância e levando o problema a
aumentar o número de tantos enigmas, dos quais o pobre espírito humano não
pôde, até o momento, nem poderá jamais decifrar. Aliás, não hesitamos em
confessar nossa ignorância em relação a vários dos fenômenos em questão, dos
quais a natureza é tão equívoca e tão obscura, que a atitude mais prudente,
parece-nos, é não tentar explicá-los. Em compensação, há outros para os quais
não nos é difícil encontrar a solução; é verdade que é impossível buscá-la nas
causas naturais; por que, então, hesitaríamos em recorrer às causas que
pertencem à ordem sobrenatural? Talvez fôssemos desviados pelas objeções que
nos opõem os cépticos e os que, negando essa ordem sobrenatural, nos digam que
não se pode definir até onde se estendem as forças da Natureza; que o campo que
ainda resta descobrir pelas ciências físicas não tem limites e que ninguém
conhece suficientemente bem quais são os limites da ordem natural para poder
indicar, com precisão, o ponto onde termina esta e começa a outra. A resposta a
tal objeção parece-nos fácil: admitindo que não se possa determinar, de modo
preciso, o ponto de divisão dessas duas ordens opostas, a natural e a
sobrenatural, não se segue daí que seja impossível definir com certeza se um
dado efeito pertence a esta ou àquela. Quem pode, no arco-íris, distinguir o
ponto preciso onde acaba uma cor e começa a seguinte? Quem pode fixar o
instante exato onde termina o dia e começa a noite? E, entretanto, não há um só
homem, por mais limitado que seja, que não distinga se tal zona do arco-íris é
vermelha ou amarela, se a tal hora é dia ou noite. Quem não percebe que, para
conhecer a natureza de um fato, de modo algum é necessário passar pelo limite
onde começa ou termina a categoria à qual o mesmo pertence, e que basta
constatar se tem os caracteres peculiares a essa categoria?
Apliquemos essa observação
tão simples à presente questão: não podemos dizer até onde vão as forças da
Natureza; entretanto, dando-se um fato podemos dizer, muitas vezes, com
certeza, segundo seus caracteres, que ele pertence à ordem sobrenatural. E, para
não sair do nosso problema, entre os fenômenos das mesas falantes há vários
que, em nossa opinião, manifestam esses caracteres da maneira mais evidente;
tais são aqueles nos quais o agente que move as mesas age como causa
inteligente e livre, ao mesmo tempo em que revela uma inteligência e uma
vontade próprias, isto é, superiores ou contrárias à inteligência e à vontade
dos médiuns, dos experimentadores, dos assistentes; numa palavra,
distintas destas, qualquer que seja o modo que ateste essa distinção. Seja como
for, em casos tais somos forçados a admitir que esse agente é um Espírito, e
não é um Espírito humano, estando, desde então, fora dessa ordem, dessas causas
que costumamos chamar naturais, daquelas que não ultrapassam as forças do
homem.
Tais são precisamente os
fenômenos que, como dissemos acima, resistiram a toda teoria baseada sobre
princípios puramente naturais, enquanto na nossa eles encontram mais fácil e
clara explicação, pois todos sabem que o poder dos Espíritos sobre a matéria ultrapassa
de muito o poder do homem, e porque não há efeito maravilhoso, entre os citados
da necromancia moderna, que não possa ser atribuído à sua ação.
Sabemos perfeitamente que, em
nos vendo colocar em cena os Espíritos, mais de um leitor sorrirá de piedade.
Sem falar dos que, verdadeiros materialistas, não acreditam na existência dos Espíritos
e rejeitam como fábula tudo quanto não seja matéria ponderável e palpável, como
também aqueles que, admitindo que existem Espíritos, negam-lhes qualquer
influência ou intervenção no que diz respeito ao nosso mundo; há, em nossos
dias, muitas criaturas que, concedendo aos Espíritos o que nenhum bom católico lhes
poderia recusar, isto é, a existência e a faculdade de intervir nos fatos da
vida humana, de maneira oculta ou patente, ordinária ou extraordinária, parecem
todavia desmentir sua fé na prática, e considerar como uma vergonha, como um
excesso de credulidade, como uma superstição de mulher velha, admitir a ação
dos mesmos Espíritos em certos casos especiais, contentando-se, em geral, em não
negá-la. Em verdade, há um século zombou-se tanto da simplicidade da Idade
Média, acusando-a de ver Espíritos, sortilégios e feiticeiros por toda parte, e
tanto se investigou a esse respeito, que não é de admirar que tantas cabeças
fracas, querendo parecer fortes, experimentem agora repugnância e uma espécie
de vergonha em crer na intervenção dos Espíritos. Mas esse excesso de incredulidade
não é menos despropositado do que em outras épocas o foi o excesso contrário; se, em semelhante
matéria, crer em demasia leva a vãs superstições, por outro lado, nada querer
admitir conduz diretamente à impiedade do naturalismo. O homem sábio, o cristão
prudente deve, pois, do mesmo modo, evitar esses dois extremos e manter-se
firme na linha intermediária: aí estão a verdade e a virtude. Agora, nessa
questão das mesas falantes, para que lado nos fará inclinar uma fé prudente?
A primeira, a mais sábia das
regras que nos impõe essa prudência ensina-nos que, para explicar os fenômenos
que oferecem um caráter extraordinário, somente se deve recorrer às causas
sobrenaturais se as pertencentes à ordem natural não forem suficientes para os
explicar. Em compensação, daí resulta a obrigação de admitir as primeiras,
quando as segundas são insuficientes; é justamente o nosso caso. Com efeito,
entre os fenômenos de que falamos, há aqueles para os quais nenhuma teoria,
nenhuma causa puramente natural poderia dar razão. Assim, pois, não só é
prudente, mas necessário mesmo procurar sua explicação na ordem sobrenatural
ou, em outras palavras, atribuí-los a Espíritos puros, visto que, fora e acima
da Natureza, outra causa possível não existe.
Eis uma segunda regra, um criterium
infalível para se afirmar, a respeito de um fato qualquer, se pertence à ordem
natural ou à sobrenatural: examinar-lhe bem os caracteres e, conforme eles, determinar
a natureza da causa que o produziu. Ora, os fatos mais maravilhosos desse
gênero, os que nenhuma outra teoria pode explicar, apresentam caracteres tais
que não só demonstram uma causa inteligente e livre, mas ainda dotada de uma
inteligência e de uma vontade que nada têm de humano; portanto, não pode essa causa
deixar de ser senão um Espírito puro.
Assim, por dois caminhos, um
indireto e negativo, que procede por exclusão, o outro direto e positivo,
fundado sobre a própria natureza dos fatos observados, chegaremos a essa mesma conclusão,
a saber: que entre os fenômenos da necromancia moderna há pelo menos uma
categoria de fatos que, sem nenhuma dúvida, são produzidos pelos Espíritos.
Somos levados a essa conclusão por um raciocínio tão simples, tão natural que, aceitando-o,
longe do temor de ceder a uma imprudente credulidade, julgamos, ao contrário, fazer
prova de uma fraqueza e de uma incoerência de espírito indesculpável, caso o
recusemos. Para confirmar a nossa asserção, não nos faltam argumentos, mas, sim,
espaço e tempo para desenvolvê-los aqui. O que dissemos até o momento é
suficiente e pode resumir-se nas quatro seguintes proposições:
1º Entre os fenômenos em questão, deixando de lado os
que podem razoavelmente ser atribuídos à impostura, às alucinações e aos
exageros, grande número ainda existe, cuja realidade não pode ser posta em
dúvida sem que se violem todas as leis de uma crítica sadia.
2º Todas as teorias naturais que expusemos e discutimos
acima são impotentes para dar uma explicação satisfatória de todos esses fatos;
se explicam algumas, deixam um grande número – e estes são os mais difíceis –
totalmente inexplicados e inexplicáveis.
3º Os fenômenos dessa última ordem, por implicarem a
ação de uma causa inteligente estranha ao homem, só podem ser explicados pela
intervenção dos Espíritos, seja qual for, aliás, o caráter desses Espíritos,
questão de que logo nos ocuparemos.
4º Pode-se dividir todos esses fatos em quatro categorias:
muitos deles devem ser rejeitados como falsos ou como produtos da fraude;
quanto aos outros, os mais simples, os mais fáceis de conceber, tais como as
mesas girantes, em certas circunstâncias admitem uma explicação puramente
natural: a do impulso mecânico, por exemplo; uma terceira classe compõe-se de
fenômenos mais extraordinários e mais misteriosos sobre a natureza dos quais se
fica em dúvida, porque, se bem que pareçam ultrapassar as forças da Natureza,
não apresentam, entretanto, caracteres tais que, evidentemente, para os
explicar, se deva recorrer a uma causa sobrenatural. Enfim, agrupamos na quarta
categoria os fatos que, oferecendo de maneira evidente esses caracteres, devem
ser atribuídos à operação invisível dos Espíritos puros.
Mas, que são esses Espíritos?
Bons ou maus? Anjos ou demônios? Almas bem-aventuradas ou almas condenadas? A resposta
a esta última parte de nosso problema não pode suscitar dúvida, por pouco que
se considere, de uma parte, a natureza desses Espíritos e, de outra, o caráter
de suas manifestações. É o que nos falta demonstrar.
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